O ministro de Governo da Bolívia anunciou a instalação de um escritório permanente da Polícia Federal brasileira no país vizinho e o envio de agentes bolivianos ao Brasil, dentro do plano Fronteras Seguras, que cobre quatro pontos críticos da fronteira.
Os dois países decidiram colocar policiais um dentro do território do outro. O ministro de Governo da Bolívia, Marco Antonio Oviedo, anunciou a instalação de um escritório permanente da Polícia Federal brasileira em solo boliviano e o envio de agentes bolivianos ao Brasil, para manter fluxo contínuo de inteligência entre as duas polícias, segundo a Erbol. O anúncio vem na semana em que a FAB interceptou um avião vindo da Bolívia em Mato Grosso do Sul.
O que muda na prática
Até aqui, a troca de informação entre as duas polícias dependia de pedidos formais que atravessavam canais diplomáticos e levavam tempo. Um escritório permanente encurta esse caminho, porque coloca agentes de um país trabalhando lado a lado com os do outro, no lugar onde o crime acontece.
Oviedo não informou quantos agentes serão deslocados nem onde ficarão as sedes, de acordo com a RTVU. O ministro disse que o plano deve ser lançado nas duas semanas seguintes ao anúncio, feito em 3 de agosto.
O modelo não é inédito na região. Adidos e oficiais de ligação da Polícia Federal já atuam em embaixadas de países vizinhos, mas o que está sendo anunciado é diferente disso, porque prevê estrutura fixa dedicada à fronteira e presença recíproca, com agentes bolivianos instalados do lado brasileiro.
Os quatro pontos do plano Fronteras Seguras
O arranjo policial vem embutido no plano Fronteras Seguras, que será desdobrado em pelo menos quatro pontos críticos da fronteira com o Brasil: Cobija, Guayaramerín, Puerto Suárez e San Matías, nos departamentos de Pando, Beni e Santa Cruz, segundo a Erbol.
| Cidade boliviana | Departamento | Lado brasileiro |
|---|---|---|
| Cobija | Pando | Acre |
| Guayaramerín | Beni | Rondônia |
| San Matías | Santa Cruz | Mato Grosso |
| Puerto Suárez | Santa Cruz | Mato Grosso do Sul |
Os quatro pontos cobrem quase toda a extensão da divisa. Vão do extremo noroeste amazônico, na altura do Acre, até o Pantanal, no trecho que encosta em Mato Grosso do Sul, e incluem San Matías, o município onde nove pessoas foram mortas em menos de cinco dias no fim de julho.
De onde veio o acordo
Segundo Oviedo, o entendimento nasceu da reunião bilateral entre o presidente boliviano Rodrigo Paz e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em abril. É a continuação de um movimento que já vinha, porque em março os dois países haviam assinado um acordo para reforçar a cooperação de inteligência, sob pressão dos Estados Unidos sobre as facções brasileiras.
O motivo declarado pelo governo boliviano é a presença do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho em território boliviano. Oviedo afirmou que a violência recente em Santa Cruz decorre da disputa entre as duas organizações por um corredor de saída de droga.
O braço militar do mesmo problema
A cooperação policial corre em paralelo à militar. Cinco dias depois da interceptação do avião, a Força Aérea Brasileira reativou a Missão Técnica Aeronáutica Brasileira na Bolívia, estrutura que existe para aproximar as duas forças aéreas.
Do lado brasileiro, o Exército mantém a Operação Jaguaretê-Oeste na faixa de fronteira de quatro estados, com mais de 600 militares e agentes por dia. A soma dessas três frentes, polícia, força aérea e exército, é a resposta que os dois governos montaram para o mesmo trecho de fronteira.
O que falta definir
O anúncio não trouxe efetivo, orçamento nem data de instalação das sedes. Também não detalhou que atribuições os agentes terão em território estrangeiro, ponto que costuma exigir acordo específico para não esbarrar na soberania de cada país.
O lançamento do plano Fronteras Seguras está previsto para as duas semanas seguintes ao anúncio de 3 de agosto, segundo o Ministério de Governo da Bolívia.