Três anos depois de o Novo PAC reservar R$ 52,8 bilhões para projetos estratégicos das Forças Armadas, submarinos, fragatas, caças, blindados e sistemas de fronteira continuam aparecendo nas contas da Defesa. A proposta de Orçamento para 2027 prevê R$ 12,7 bilhões em investimentos no setor, 60% acima do valor proposto para 2026, e mantém recursos para vários programas que estavam naquele pacote apresentado em 2023.
A cifra atual ajuda a revisitar uma pergunta que ficou meio escondida quando o pacote foi apresentado: o que, afinal, existe dentro daqueles R$ 52,8 bilhões?
A resposta passa por uma lista extensa. São submarinos, navios de guerra, caças Gripen, cargueiros KC-390, centenas de viaturas blindadas, helicópteros, drones, mísseis e sistemas de vigilância de fronteira.
Ao todo, 16 projetos entraram na carteira. Dos R$ 52,8 bilhões anunciados, R$ 27,8 bilhões estavam previstos para o período de 2023 a 2026 e outros R$ 25 bilhões ficaram para os anos seguintes. A Marinha aparecia com R$ 20,6 bilhões, seguida pela Aeronáutica, com R$ 17,4 bilhões, Exército, com R$ 12,4 bilhões, e projetos do Estado-Maior, com R$ 2,4 bilhões.
Boa parte desses programas, porém, não começou com o PAC. Alguns já estavam contratados havia anos e entraram no plano como forma de financiar etapas seguintes.
É o caso dos submarinos, das fragatas, do Gripen e do KC-390.
Três submarinos convencionais no PAC e um projeto nuclear
A Marinha ficou com a maior parcela do dinheiro e também com seis dos 16 projetos.
Um deles trata dos submarinos convencionais. Dentro do Novo PAC, a previsão era financiar a construção de três submarinos diesel-elétricos.
Eles fazem parte do PROSUB, que, no total, foi estruturado para entregar quatro submarinos convencionais da classe Riachuelo. O primeiro, o Riachuelo, já havia sido incorporado à Marinha em setembro de 2022, antes do lançamento do Novo PAC.
Separado deles está o Álvaro Alberto, futuro submarino brasileiro de propulsão nuclear.
A carteira também colocou recursos na infraestrutura de estaleiro e base naval e no programa nuclear responsável, entre outras frentes, pelo combustível e pela planta de propulsão.
Apesar do nome pelo qual ficou conhecido, o Álvaro Alberto não está sendo projetado para transportar armas nucleares. O componente nuclear está na propulsão; o armamento previsto é convencional.
Também entraram no pacote as quatro fragatas da classe Tamandaré e o programa de navios-patrulha.
Essas frentes seguem presentes no planejamento de 2027. A proposta enviada ao Congresso prevê R$ 900 milhões para as fragatas Tamandaré, R$ 852,5 milhões para o PROSUB e R$ 1,429 bilhão para a planta nuclear ligada ao Álvaro Alberto.
Gripen, KC-390 e aviões de reabastecimento
Na Aeronáutica, o PAC reuniu quatro frentes.
A lista apresentada em 2023 previa recursos para a compra e produção de 34 Gripen, nove aeronaves cargueiras, a conversão de dois Airbus A330 e o desenvolvimento da capacidade de reabastecimento em voo.
O Gripen já havia sido contratado em 2014. O acordo completo da FAB envolve 36 aeronaves, mas o recorte colocado naquela carteira do PAC correspondia às unidades e etapas ainda dentro do período de investimento.
O KC-390 seguiu lógica parecida. O programa também era anterior a 2023 e continuou recebendo recursos nos anos seguintes.
O problema é que o dinheiro disponível nem sempre acompanhou o calendário original.
Em 2024, a FAB confirmou à CNN Brasil que a falta de recursos levaria a uma renegociação do cronograma. O contrato previa inicialmente a conclusão das entregas até 2026; hoje, o prazo informado é 2032. Em junho deste ano, quando recebeu o primeiro Gripen F, o Brasil contabilizava 11 Gripen E já entregues dentro do contrato de 36 aeronaves.
714 blindados, mísseis e vigilância de fronteira
No Exército, o maior número estava no Programa Forças Blindadas.
O pacote previa R$ 6,7 bilhões para o desenvolvimento e aquisição de 714 viaturas blindadas sobre rodas e sobre lagartas. Não se tratava de 714 veículos iguais, mas de diferentes modelos e etapas da renovação da frota terrestre.
Também entraram recursos para o ASTROS, com pesquisa, desenvolvimento e implantação de uma unidade de mísseis táticos de cruzeiro de longo alcance.
Na Aviação do Exército, a previsão incluía a modernização de seis helicópteros Pantera, além da aquisição de dez helicópteros de emprego geral e nove veículos aéreos não tripulados.
O quarto projeto era o Sisfron, sistema que integra sensores, comunicações e centros de comando para monitorar a extensa faixa de fronteira terrestre brasileira.
Esses programas continuam nas contas.
Para 2027, a proposta reserva R$ 1,02 bilhão para viaturas blindadas, R$ 671,4 milhões para sistemas de artilharia, R$ 467 milhões para o Sisfron e R$ 520 milhões para helicópteros, drones e equipamentos relacionados.
O Estado-Maior também aparecia na lista original, com a previsão de cinco helicópteros de médio porte e 27 helicópteros leves.
O dinheiro apareceu no PAC, mas os cortes vieram depois
Colocar um projeto no PAC não impediu que os cronogramas esbarrassem na disponibilidade de dinheiro.
O Gripen é um exemplo. As entregas foram alongadas para 2032 justamente depois de dificuldades orçamentárias que levaram à renegociação do calendário.
No mar, o problema aparece de forma ainda mais clara.
A previsão anterior colocava o lançamento do Álvaro Alberto em 2034. Em julho de 2026, a Marinha informou que a nova referência passou para 2038.
Em ofício encaminhado à Câmara, a própria Força atribuiu a mudança à indisponibilidade de recursos e à falta de previsibilidade orçamentária. O cronograma original do PROSUB, elaborado ainda em 2008, chegava a prever a entrega do submarino em 2025.
Ao mesmo tempo, o programa nuclear vem recebendo mais dinheiro.
Em 2025, foram aproximadamente R$ 1,4 bilhão, quatro vezes e meia o valor do ano anterior, levando a área nuclear da Marinha ao topo dos investimentos militares naquele exercício. O próprio projeto do submarino recebeu outros R$ 649 milhões em rubrica separada.
Os números também expõem uma dificuldade antiga do orçamento militar brasileiro. Naquele mesmo ano, 77,7% das despesas da Defesa ficaram concentradas em pessoal e apenas 8,25% foram classificadas como investimentos.
Mesmo com o Álvaro Alberto empurrado para 2038, a proposta de Orçamento de 2027 volta a reservar R$ 1,429 bilhão para sua planta nuclear, além de R$ 852,5 milhões para o restante do PROSUB.