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“Armeiro” do crime: investigação aponta cabo do Exército como fornecedor de mil munições de fuzil, granadas e armas para facções

Investigação na Bahia aponta cabo do Exército como suspeito de fornecer cerca de mil munições de fuzil, granadas e armas a facções criminosas, enquanto Polícia Civil e Ministério Público apuram possíveis desvios ocorridos durante treinamentos militares e participação de terceiros.

Alisson Ficher
Por Alisson Ficher Atualizado em 14/09/2026 às 01:11·publicado em 14/09/2026
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“Armeiro” do crime: investigação aponta cabo do Exército como fornecedor de mil munições de fuzil, granadas e armas para facções
Policiais civis durante a Operação Reino Oculto, que investiga esquema interestadual de tráfico de drogas, armas e munições. Foto: Tony Silva/Ascom-PCBA.

Um militar do Exército Brasileiro é investigado sob suspeita de fornecer munições de fuzil, granadas e armas para integrantes de organizações criminosas na Bahia.

O investigado é o cabo Deivison dos Santos Ferreira, lotado no 6º Batalhão de Polícia do Exército (6º BPE), em Salvador.

Segundo reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo, a Polícia Civil e o Ministério Público da Bahia chegaram ao militar enquanto investigavam uma organização envolvida com tráfico de drogas e comércio ilegal de armamentos.

Conversas encontradas em celulares apreendidos indicariam que o cabo negociou aproximadamente mil munições de calibres 5,56 e 7,62, utilizados em fuzis, além de granadas.

A investigação também encontrou mensagens sobre a oferta de pistolas e fuzis.

Neste último caso, entretanto, a polícia ainda não confirmou se as armas tiveram origem em estoques do Exército.

A defesa do militar nega as acusações.

Celular levou investigadores até militar

A ligação com o cabo surgiu durante uma investigação iniciada a partir do combate ao narcotráfico em Salvador.

Em abril, policiais realizaram uma operação em um imóvel no bairro de Itapuã que, segundo os investigadores, funcionava como local de armazenamento e preparação de drogas.

Celulares apreendidos no endereço foram submetidos à análise.

Um deles pertencia a Gabriel Reis Oliveira, apontado pela investigação como responsável por adquirir e revender drogas e armamentos para grupos criminosos.

Foi nesse aparelho que os investigadores encontraram diálogos atribuídos ao militar.

Segundo a apuração apresentada pelo Fantástico, Deivison aparecia nas conversas oferecendo munições e outros materiais de uso restrito.

Embora utilizasse um emoji como identificação em parte das mensagens, o suspeito teria fornecido dados pessoais durante as negociações.

Entre eles estavam CPF e chave Pix utilizados para o recebimento de pagamentos.

Esses elementos teriam permitido aos investigadores associar as conversas ao cabo.

Cerca de mil munições de fuzil entram na investigação

A Polícia Civil estima que somente nas negociações identificadas com esse núcleo criminoso tenham sido comercializadas aproximadamente mil munições de fuzil.

Os calibres citados são 5,56 e 7,62 milímetros.

Ambos aparecem em diferentes modelos de fuzis empregados por forças militares e de segurança e também são encontrados com frequência crescente em apreensões ligadas ao crime organizado.

As mensagens ainda mencionariam a negociação de granadas.

A quantidade exata que eventualmente teria saído do controle militar ainda é objeto de apuração.

Os investigadores também identificaram conversas envolvendo a oferta de pistolas e fuzis.

Nesse ponto, a investigação faz uma distinção importante: há suspeitas de comércio ilegal de armas, mas a procedência desses armamentos ainda não foi estabelecida.

Portanto, não há confirmação de que os fuzis e pistolas oferecidos tenham sido retirados de unidades do Exército.

Treinamentos estão sob investigação

Uma das linhas mais sensíveis da apuração procura descobrir como munições e granadas teriam deixado o controle da Força Terrestre.

Segundo a investigação revelada pelo Fantástico, existe a suspeita de que parte do material tenha sido retirada durante ou depois de exercícios militares.

Munições distribuídas para atividades de tiro e não utilizadas precisam ser contabilizadas e devolvidas de acordo com os procedimentos de controle da unidade.

Os investigadores trabalham com a hipótese de que parte desse material não teria retornado ao paiol e de que registros poderiam ter sido alterados para esconder diferenças nos estoques.

Mensagens analisadas pelos policiais fazem referência a atividades militares realizadas em Paulo Afonso, no interior da Bahia.

Em um dos diálogos, segundo a reportagem, o militar indicaria a possibilidade de conseguir mais material depois de um treinamento.

A origem exata das munições e granadas continua sendo investigada.

Militar já estava preso por outro caso

O nome de Deivison também aparece em uma investigação relacionada ao desaparecimento de coletes balísticos do 6º Batalhão de Polícia do Exército.

Em agosto, o Comando da 6ª Região Militar confirmou ter instaurado um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar a ausência de Material de Emprego Militar Controlado nas instalações do 6º BPE, em Salvador.

O Exército informou ao Fantástico que o militar está preso preventivamente por determinação da Justiça Militar dentro da investigação relacionada aos coletes.

Por isso, quando uma nova operação policial foi realizada contra a organização criminosa, o militar já se encontrava sob custódia.

Ele permanecerá em unidade militar à disposição da Justiça.

Operação mobilizou mais de 250 agentes

A apuração sobre o tráfico de drogas e armas resultou em uma grande operação realizada na Bahia e em outros estados.

A ofensiva mobilizou mais de 250 agentes e resultou em dezenas de prisões de suspeitos ligados à organização investigada.

Reportagens sobre a ação registraram 33 prisões e apontaram que o grupo seria responsável por tráfico de drogas, comércio de armas e lavagem de dinheiro.

A investigação descreve uma estrutura dividida em diferentes núcleos, envolvendo armazenamento, logística, distribuição de entorpecentes, movimentação financeira e fornecimento de armamentos.

As autoridades agora tentam esclarecer se o suposto fornecimento atribuído ao cabo ocorreu de forma isolada ou se outras pessoas tiveram participação no acesso aos materiais.

Investigadores apuram possível participação de outras pessoas

Nas conversas analisadas, o militar teria feito referências a terceiros ao tratar da obtenção de munições e granadas.

Isso levou os investigadores a procurar possíveis outros participantes.

Até o momento, porém, não há elementos suficientes para afirmar que exista um esquema envolvendo outros militares, e essa possibilidade permanece apenas como uma linha de investigação.

A Polícia Civil também busca identificar quais materiais efetivamente pertenciam ao Exército, quais poderiam ter outra origem e de que maneira chegaram até os integrantes da organização criminosa.

A defesa de Deivison dos Santos Ferreira afirmou ao Fantástico que o militar nega todas as acusações.

Os advogados disseram ainda que os fatos serão esclarecidos no momento apropriado e que trabalham para conseguir a revogação das prisões impostas ao cabo.

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