A deterioração das relações entre Brasil e Estados Unidos começou a alcançar uma área considerada estratégica pelos dois governos: a cooperação policial contra organizações criminosas transnacionais.
O Departamento de Estado norte-americano estaria retendo os vistos de dois agentes da Polícia Federal escolhidos para assumir postos nos Estados Unidos, onde deveriam atuar ao lado de autoridades americanas no combate ao narcotráfico, lavagem de dinheiro, tráfico de armas e outros crimes internacionais.
O Brasil respondeu com uma medida semelhante.
Um agente de segurança pública dos Estados Unidos que seria enviado para trabalhar no país também aguarda autorização brasileira, enquanto os dois governos tentam resolver o impasse.
As informações foram reveladas em reportagem do The New York Times reproduzida pelo InfoMoney, com base em autoridades brasileiras e norte-americanas ouvidas sob condição de anonimato.
O problema não se limita aos vistos.
Segundo a reportagem, uma delegação formada por agentes brasileiros da Receita Federal e da área aduaneira também tentou viajar a Washington para aprofundar a cooperação contra lavagem de dinheiro e contrabando internacional de armas, mas o encontro não avançou.
Agentes da PF deveriam trabalhar em Miami e Nova York
Os dois policiais federais brasileiros haviam sido selecionados para assumir funções nos Estados Unidos como parte da renovação habitual do quadro de agentes destacados no exterior.
As posições seriam ocupadas em Miami e Nova York.
Os brasileiros trabalhariam em contato com o Homeland Security Investigations (HSI) e outras estruturas federais americanas responsáveis por investigações de crimes transnacionais.
Esse tipo de presença permite comunicação mais rápida entre autoridades dos dois países, compartilhamento de informações e coordenação de investigações que ultrapassam fronteiras.
Os agentes já teriam recebido aval dentro do processo bilateral, mas ainda não obtiveram os vistos necessários para assumir os postos.
O Departamento de Estado não detalhou os casos individuais.
Em resposta publicada pela reportagem, o governo americano afirmou manter elevados padrões de segurança nacional na concessão de vistos e disse que continuará trabalhando com o Brasil em interesses compartilhados.
Brasil segura entrada de agente americano
Brasília decidiu responder com base no princípio da reciprocidade.
Segundo as fontes ouvidas na reportagem, o Brasil passou a reter o visto do substituto de um agente americano que deveria atuar no país.
O episódio está ligado a um desgaste anterior envolvendo representantes policiais dos dois governos.
Em abril, os Estados Unidos determinaram a saída de um policial brasileiro que atuava em território americano.
O Brasil reagiu revogando credenciais de um funcionário norte-americano que trabalhava em cooperação com a Polícia Federal.
Na época, o diretor-geral da PF confirmou que a resposta brasileira havia sido adotada de maneira recíproca.
Agora, meses depois, a renovação desses postos permanece envolvida na disputa diplomática.
As negociações para liberar os novos agentes continuam.
Receita também encontrou porta fechada em Washington
Outro episódio citado pela reportagem envolve uma equipe brasileira formada por quase uma dezena de servidores ligados à Receita Federal e à fiscalização aduaneira.
O grupo solicitou em junho uma visita aos Estados Unidos para discutir mecanismos de combate à lavagem de dinheiro e ao contrabando.
Autoridades americanas teriam respondido que não havia disponibilidade de agenda até novembro.
A negativa ganhou relevância porque os dois países vinham desenvolvendo um novo mecanismo de compartilhamento de informações sobre cargas suspeitas transportadas em contêineres.
Segundo uma das autoridades ouvidas, esse intercâmbio já auxiliou na identificação de remessas ilegais, inclusive relacionadas a armas.
Armas e dinheiro das facções atravessam fronteiras
A cooperação é especialmente importante porque as principais facções brasileiras deixaram de atuar exclusivamente dentro do território nacional.
Organizações criminosas estabeleceram conexões com grupos de outros países da América Latina e utilizam estruturas internacionais para movimentar drogas, armas e recursos financeiros.
Os Estados Unidos possuem papel relevante em dois pontos dessa cadeia.
Investigadores apontam o sistema financeiro americano como uma das estruturas utilizadas em operações de lavagem de dinheiro, enquanto armas e componentes adquiridos nos EUA também aparecem em investigações sobre abastecimento de organizações criminosas brasileiras.
O Sociedade Militar já mostrou casos envolvendo redes dedicadas ao envio de fuzis, metralhadoras calibre .50, lança-granadas e outros armamentos destinados ao crime organizado no Brasil.
Ao mesmo tempo, o Brasil funciona como importante corredor da cocaína produzida na América do Sul em direção à Europa e à África.
É justamente esse caráter internacional que torna a presença de agentes brasileiros no exterior relevante para as investigações.
PCC e Comando Vermelho aumentaram tensão entre governos
Outro elemento de atrito ocorreu quando Washington passou a enquadrar Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) dentro de sua legislação antiterrorismo.
Em junho, os Estados Unidos formalizaram a inclusão das duas facções na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras, ampliando a possibilidade de sanções financeiras e medidas contra pessoas consideradas ligadas aos grupos.
O governo brasileiro não concordou com a mudança de enquadramento.
Brasília sustenta que as organizações devem ser tratadas como facções criminosas, argumentando que a legislação nacional já oferece instrumentos severos para combatê-las.
Apesar da divergência, o governo Lula continuou defendendo cooperação operacional com os Estados Unidos.
Em conversa realizada em agosto, Lula voltou a discutir com Donald Trump o combate às organizações criminosas e defendeu ações conjuntas para atingir principalmente finanças e redes de abastecimento das facções.