Dois aviões militares americanos pousam em uma das bases aéreas mais importantes do Equador. No dia seguinte, o próprio comandante da Força Aérea coloca no papel uma série de perguntas sobre quem autorizaria, controlaria e fiscalizaria a presença dos Estados Unidos naquela instalação. Apenas 48 horas depois, ele já não estava mais no comando. A sequência ocorreu em setembro e abriu uma pergunta inevitável no país: o que aconteceu dentro da cúpula militar equatoriana?
O personagem no centro do episódio é o tenente-general Mauricio Xavier Salazar Machuca, que comandava a Força Aérea Equatoriana.
Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
Em 8 de setembro de 2026, Salazar enviou formalmente ao Comando Conjunto das Forças Armadas um documento relacionado às operações temporárias que militares americanos pretendiam realizar a partir da Base Aérea de Taura, na província de Guayas.
O conteúdo não representava uma ordem para expulsar os americanos nem uma ruptura com Washington.
Mas mostrava que o chefe da Força Aérea queria respostas antes de permitir que a cooperação avançasse dentro de uma instalação estratégica do país.
Salazar pediu que fossem definidos os mecanismos jurídicos e operacionais para as atividades americanas, além de responsabilidades, níveis de decisão, procedimentos de planejamento, execução, segurança, supervisão e controle.
E deixou outro ponto particularmente sensível registrado por escrito: a Força Aérea Equatoriana deveria manter o controle operacional e administrativo de Taura.
Americanos chegaram a Taura um dia antes das perguntas do comandante

A cronologia torna o episódio ainda mais incomum.
Em 7 de setembro, dois MV-22B Osprey do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos pousaram justamente na Base Aérea de Taura.
As aeronaves americanas estavam apoiando operações militares equatorianas contra mineração ilegal na Amazônia e podiam transportar tropas, equipamentos e cargas até áreas de difícil acesso.
No dia seguinte à chegada dos Osprey, Salazar colocou suas preocupações no papel.
O comandante queria saber como seria operacionalizada uma cooperação que poderia envolver não apenas voos temporários de apoio, mas também pessoal americano utilizando e adaptando partes da infraestrutura da base.
A questão não era pequena.
O artigo 5º da Constituição do Equador estabelece restrições à instalação de bases militares estrangeiras e à entrega de instalações militares nacionais para forças armadas de outros países.
Era exatamente nesse terreno delicado que a carta do comandante se movimentava.
Salazar não estava dizendo simplesmente “não” aos Estados Unidos.
Ele estava perguntando, formalmente, quem mandaria, quem autorizaria e quem controlaria o que os americanos fariam dentro de Taura.
Fez as perguntas em 8 de setembro; em 10 de setembro já estava fora do comando
Dois dias depois aconteceu o fato que transformou uma discussão administrativa em uma história muito maior.
Em 10 de setembro, o presidente equatoriano Daniel Noboa assinou o Decreto Executivo nº 496 e encerrou as funções de Mauricio Salazar como comandante-geral da Força Aérea.
No lugar dele entrou o brigadeiro-general Mauro Enrique Pablo Julián Bedoya Avilés.
O decreto agradeceu a Salazar pelos serviços prestados ao país, mas não apresentou uma explicação específica para a retirada do oficial da principal função da Força Aérea.
A sequência, portanto, ficou registrada desta maneira:
7 de setembro: aeronaves militares dos EUA chegam a Taura.
8 de setembro: o comandante da Força Aérea exige por escrito definições sobre a operação americana na base.
10 de setembro: o presidente encerra suas funções e coloca outro general no comando.
É a proximidade entre esses acontecimentos que levou a imprensa equatoriana a levantar questionamentos sobre a abrupta saída do oficial.
Não existe, porém, até agora, documento público demonstrando que Salazar tenha sido afastado por ter feito as perguntas sobre os Estados Unidos.
Essa distinção é fundamental.
Mas ela não elimina a coincidência extraordinariamente curta entre o ofício e a troca no topo da Força Aérea.
Documento revela que troca de comando já vinha sendo preparada
Existe ainda um detalhe que impede qualquer conclusão simples sobre o caso.
O próprio Decreto nº 496 registra que o Ministério da Defesa havia encaminhado ao Executivo, em 11 de agosto de 2026, uma lista de generais da Força Aérea para que o presidente escolhesse o novo comandante.
Isso aconteceu quase um mês antes da carta de Salazar sobre Taura.
Portanto, existem duas informações verdadeiras ao mesmo tempo.
A primeira é que o governo já possuía desde agosto os nomes necessários para realizar uma mudança no comando.
A segunda é que a troca efetivamente aconteceu apenas dois dias depois de Salazar colocar por escrito uma série de condições e questionamentos sobre o emprego de militares americanos em Taura.
Não há prova pública suficiente para ligar uma coisa à outra.
Mas a sequência permanece politicamente e militarmente relevante.
Comandante queria garantir que Taura continuasse nas mãos do Equador
O ponto mais delicado do ofício talvez esteja justamente na preocupação com o comando da instalação.
Segundo o documento revelado pela imprensa equatoriana, qualquer modificação feita para receber pessoal ou meios americanos deveria ser temporária, previamente autorizada e sem retirar da FAE o controle operacional e administrativo da base.
Em outras palavras, Salazar queria estabelecer limites antes que a cooperação avançasse.
Taura não é apenas uma pista onde aviões estrangeiros ocasionalmente pousam.
É uma instalação da própria estrutura de defesa aérea do Equador.
Permitir que forças estrangeiras utilizem infraestrutura desse tipo inevitavelmente coloca sobre a mesa questões de soberania, comando, responsabilidade jurídica e autoridade militar.
E foi justamente sobre essas questões que o então comandante decidiu produzir um registro formal.
Dois dias depois, deixou de ser comandante.
Não há prova de represália, mas as datas colocam o episódio sob escrutínio
É tentador transformar essa história em uma relação simples de causa e efeito:
questionou os americanos e foi demitido.
Até agora, os documentos disponíveis não permitem fazer essa afirmação como fato.
O processo formal para substituir o comandante já havia começado antes da carta, e o Decreto nº 496 não associa a troca de comando ao questionamento sobre Taura.
Por outro lado, também seria impossível ignorar a sequência.
Um chefe de Força coloca por escrito preocupações sobre operações estrangeiras dentro de uma base estratégica.
Quarenta e oito horas depois, o governo encerra suas funções.
Nenhuma explicação específica sobre o motivo aparece no decreto.
Essa combinação é suficiente para transformar uma alteração de comando que poderia passar quase despercebida em um episódio cercado de perguntas sobre soberania, cooperação militar com Washington e o que realmente estava sendo negociado para a Base Aérea de Taura.
O que os documentos comprovam é a cronologia.
O que eles ainda não respondem é se a proximidade entre a carta de Mauricio Salazar e sua saída foi apenas coincidência ,ou se havia muito mais acontecendo nos bastidores da Força Aérea equatoriana.