O Exército colombiano diz que a rede tirava peças de armamento, munição e acessórios dos depósitos das unidades, e não divulgou o que foi levado nem quanto.
O Exército da Colômbia informou na terça-feira (22) que quatro sargentos da reserva e dois civis foram presos, acusados de tirar partes de armamento, munição e acessórios dos depósitos de unidades militares e mandá-los para frentes das dissidências das Farc no Meta e no Guaviare. São seis presos ao todo, e os quatro militares estão dentro desse número. O suposto chefe da rede, diz a Força, coordenava as entregas de dentro do presídio La Picota, em Bogotá.
O que saiu dos depósitos continua sem resposta. O Exército não divulgou o tipo do material, não divulgou a quantidade e não disse desde quando a subtração acontecia. Nenhum dos seis foi julgado ou condenado: até esta quarta-feira (23) não havia audiência de imputação nem decisão judicial publicada sobre o caso.
Os quatro militares estão dentro dos seis presos
O comunicado do Exército Nacional, divulgado às 9h de 22 de setembro, registra seis capturas: quatro militares da reserva e dois particulares. Os quatro sargentos não formam um grupo separado dos seis presos, e sim parte deles. A conta do caso é quatro mais dois.
As prisões foram cumpridas em cinco cidades: Ibagué, Armenia, Florencia, Villavicencio e Bogotá. A ordem judicial saiu pelo delito de concierto para delinquir con fines de tráfico de material de guerra, ou associação criminosa voltada ao tráfico de material bélico. A operação foi do Gaula Militar, o grupo antissequestro das Forças Militares colombianas, com apoio da Polícia Nacional e da Fiscalía General de la Nación, o Ministério Público do país.
De quatro guarnições para o oriente do país
A revista colombiana Cambio, que apurou além do comunicado, informa que o material saía dos armeiros de unidades em Tolemaida, Florencia, Bogotá e Villavicencio. Armeiro, ou armerillo, é o depósito em que a unidade guarda o armamento e a munição da tropa, e não o paiol. A publicação é a única fonte a dizer que os quatro militares presos são sargentos da reserva.
Ainda segundo Cambio, os dois civis cuidavam do transporte das peças para o oriente colombiano, e o material ia para frentes das dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia no Meta e no Guaviare. O comunicado oficial é mais vago e fala em estruturas criminosas que agem nesses dois departamentos. O Exército afirma que ainda apura quais unidades foram afetadas.
No Brasil, o armamento também sai pela porta de dentro
O Instituto Sou da Paz obteve do Exército Brasileiro, por Lei de Acesso à Informação, o registro de 198 armas desviadas dos próprios arsenais entre 2010 e 2023, das quais 74 nunca foram recuperadas. O levantamento, publicado em dezembro de 2023, anotou que dois pedidos idênticos receberam respostas diferentes sobre um mesmo ano. A Força não consegue dizer com precisão quanto saiu.
A diferença entre os dois países está na fase processual. No Brasil, o furto de 22 armas do Arsenal de Guerra de São Paulo, em Barueri, no feriado de 7 de setembro de 2023, já rendeu condenação, com nove pessoas punidas pela Justiça Militar e 18 anos de prisão mantidos pelo Superior Tribunal Militar em junho deste ano para dois civis. Na Colômbia, os seis presos na segunda-feira ainda não foram sequer imputados em audiência.
Seis meses de contrainteligência dentro da própria Força
Cambio informa que um grupo especial de contrainteligência do Exército acompanhou os suspeitos por seis meses antes de as ordens de captura serem cumpridas. São seis meses de investigação, e não seis meses de esquema: a data em que a subtração começou não aparece em nenhuma fonte. O comunicado oficial não menciona o acompanhamento.
A mesma reportagem situa as prisões na manhã de segunda-feira, 21 de setembro, um dia antes do anúncio. O texto do Exército não traz a data da operação nem cita as quatro guarnições de origem. Fora do que Cambio apurou, o que é público sobre o caso cabe em um comunicado de uma página.
Ninguém disse o que saiu dos depósitos
O Exército colombiano descreve o material como partes de armamento, munição e acessórios, e para aí. Não há número de fuzis, de cartuchos ou de carregadores, não há peso e não há valor. Na investigação brasileira mais recente do mesmo tipo, a polícia chegou a mil munições de fuzil atribuídas a um cabo do Exército, e é o número que permite medir o dano.
Sem tipo e sem quantidade, não dá para saber se a rede tirou peças soltas de manutenção ou armas inteiras, e a distinção muda o enquadramento penal. A Fiscalía costuma detalhar o material na audiência de imputação, que ainda não tem data pública. Nenhum valor em dinheiro foi divulgado até agora, em pesos ou em qualquer outra moeda.
Quarenta mil cartuchos por mês, no caso de 2024
O tamanho possível do buraco aparece em casos anteriores. Em reportagem de 21 de dezembro de 2024, o jornal El Colombiano registrou que uma rede descoberta naquele ano retirava cerca de 40 mil cartuchos por mês de batalhões do Exército, e que um major da reserva havia sido preso em abril com 17 mil cartuchos, 15 morteiros e 32 granadas. O mesmo jornal listou uma sequência de militares na ativa e na reserva capturados por tráfico de armas entre 2022 e 2024.
A Colômbia não publica um número agregado de desvios das próprias unidades. Não existe no país levantamento equivalente ao que o Instituto Sou da Paz obteve no Brasil, e nem a Contraloría General de la República nem o Ministerio de Defensa divulgam série histórica. A comparação entre os dois países, por enquanto, só é possível caso a caso.
O suposto chefe já estava preso em La Picota
Na versão da inteligência militar, o cabeça da organização está preso no presídio La Picota, em Bogotá, e de lá articulava a rede que operava do lado de fora. O comunicado descreve a participação dele no condicional, e não existe decisão judicial que sustente a tese. Por qual processo ele já estava preso, o Exército não disse.
Os seis capturados foram postos à disposição da Fiscalía para judicialização, a etapa em que o Ministério Público colombiano leva a acusação ao juiz. Até 23 de setembro, nenhuma audiência de legalização da captura aparecia nos canais oficiais. Todos seguem como investigados, sem condenação e sem sentença.
A pena prevista não é a pena pedida
O delito da ordem de captura, a associação criminosa do artigo 340 do Código Penal colombiano, prevê de 48 a 108 meses de prisão, ou de 4 a 9 anos. O artigo 342 manda aumentar a pena de um terço à metade quando o autor é membro ativo ou da reserva da Força Pública, o que leva a faixa para 64 a 162 meses, ou de 5 anos e 4 meses a 13 anos e 6 meses. O agravante alcança os quatro sargentos da reserva, não os dois civis.
O tipo mais grave, o artigo 366, que trata de tráfico de armas, peças essenciais e munição de uso privativo das Forças Armadas, prevê de 11 a 15 anos e só entra se a Fiscalía imputar esse crime, o que ainda não aconteceu. No Brasil, a Justiça Militar já condenou e expulsou com desonra um major por desviar pistolas e fuzis do próprio Exército. Pena prevista em lei e pena aplicada em sentença são coisas distintas, e o caso colombiano está na primeira.
A audiência que vai dizer o tamanho do caso
A próxima data que importa é a da audiência de imputação, e ela ainda não tem dia marcado. Nela a Fiscalía precisa dizer ao juiz qual crime atribui a cada um dos seis e, para sustentar a acusação, descrever o material que teria saído das unidades. O tipo e a quantidade que o Exército não divulgou tendem a aparecer ali.
Enquanto a data não sai, o caso colombiano tem seis pessoas presas, quatro guarnições citadas por uma única publicação e nenhum item contabilizado. A Força que perdeu o material é a mesma que passou seis meses investigando quem o levava. O inventário que falta é o que vai dizer se o caso é grande ou pequeno.