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Quem quiser a primeira estrela nos Estados Unidos vai ter de comandar uma guerra simulada de até oito horas antes da junta que escolhe os generais de 2027

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 23/09/2026 às 08:06
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Quem quiser a primeira estrela nos Estados Unidos vai ter de comandar uma guerra simulada de até oito horas antes da junta que escolhe os generais de 2027
Oficial debruçado sobre a mesa de comando de um centro de simulação, com dois colegas em monitores ao fundo. Imagem ilustrativa gerada por IA.

Hegseth anunciou a mudança em vídeo de rede social, sem comunicado do Departamento de Guerra. O exame vai de duas a oito horas, conforme a Força, e o peso da nota na junta ainda não foi definido.

O secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou em 22 de setembro que todo coronel e todo capitão-de-mar-e-guerra que disputar a primeira estrela terá de passar por um teste de guerra simulada. Nos fuzileiros navais, segundo documentos internos revelados pela Fox News, o adversário do candidato é uma plataforma com inteligência artificial. O anúncio não saiu em comunicado nem em discurso: saiu em vídeo nas contas do secretário no X, no Facebook e no Instagram.

Pelos mesmos documentos, a avaliação vai de duas horas na Força Aérea a oito horas no Corpo de Fuzileiros Navais e começa entre fevereiro e junho de 2027. A nota chega às juntas de promoção reunidas de julho a setembro daquele ano. O Pentágono não confirmou esses números nem disse quanto o resultado vai pesar.

O anúncio saiu em vídeo de rede social

Hegseth publicou o vídeo do anúncio numa terça-feira, com o nome do programa em inglês: Joint Warfighter Evaluation, ou Avaliação Conjunta do Combatente. “A partir deste ano, os O-6 elegíveis, ou seja, coronéis e capitães-de-mar-e-guerra em triagem para a primeira estrela, passarão por essa avaliação, para estratificar sua capacidade de lutar, se adaptar e vencer”, diz ele.

Não houve nota à imprensa, coletiva nem discurso. Na manhã de 23 de setembro, a lista de comunicados do Departamento de Guerra e a de discursos do secretário paravam em 18 de setembro, e a busca do site retornava erro. A confirmação oficial veio de um post do subsecretário Anthony Tata na página do departamento.

O anúncio chega depois de um ano de intervenção pessoal de Hegseth em promoções. Em agosto, ele barrou a promoção de quatro oficiais do Exército a general de uma estrela.

O total de promoções a general e almirante travadas por ele passava de 45 no fim daquele mês. Essas intervenções são o pano de fundo do teste.

Seis provas diferentes, de duas a oito horas

Documentos internos das Forças, obtidos e revisados pela Fox News, descrevem seis versões do exame, uma por Força e uma do Estado-Maior Conjunto. O Army Times, que reproduziu os números, registrou que o Pentágono não os confirmou de forma independente.

Pela mesma reportagem, o Exército avalia cerca de 900 coronéis, com prova escrita remota e jogo de guerra digital, e a Força Aérea, cerca de 1.330, em duas horas de teste on-line mais uma de simulação. A Força Espacial repete esse formato para cerca de 125 oficiais. A Marinha leva cerca de 308 capitães-de-mar-e-guerra ao Naval War College, em Newport, para três horas de prova e até três de jogo de guerra.

Os fuzileiros navais são o caso extremo: até 175 coronéis numa avaliação remota de oito horas, em plataforma com inteligência artificial. Somados os cinco efetivos informados pela Fox News, são 2.838 oficiais na primeira rodada, fora o Estado-Maior Conjunto.

“Um equalizador objetivo”, nas palavras de Hegseth

No vídeo, o secretário apoia a mudança num precedente de 1941. Ele conta que ganhou do chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, um retrato do general George Marshall, e diz que o quadro lembra a missão de cortar burocracia e exigir meritocracia nos postos mais altos.

Antes da Segunda Guerra Mundial, lembra Hegseth, Marshall usou as Manobras da Louisiana para testar comandantes sob atrito realista, e dali emergiram Eisenhower, Nimitz e Bradley. O exercício reuniu 472 mil militares, segundo o National WWII Museum.

“Esta avaliação é um equalizador objetivo. O cenário só se importa com decisões operacionais sob pressão”, afirma ele, no original “this evaluation is an objective equalizer”. O vídeo termina prometendo comandantes escolhidos por competência comprovada, “não por credencial de papel”.

O memorando de 20 de maio que abriu o caminho

A avaliação materializa um memorando que Hegseth assinou em 20 de maio de 2026, autenticado pelo site Task & Purpose. O documento mandou criar uma métrica adicional de capacidade de combate conjunto nas avaliações de oficiais e de sargentos, e designou o subsecretário Anthony Tata para conduzir o assunto.

“O esforço de criar métricas objetivas e baseadas em dados para medir e identificar a capacidade de combate não é exercício burocrático; é um imperativo de guerra”, diz o texto. Publicado em 4 de junho pelo Stars and Stripes, o memorando já gerou dúvidas internas sobre como medir capacidade conjunta.

Stuart Scheller, o oficial à frente da reforma

Quem conduz o projeto é Stuart Scheller, assessor sênior do Pentágono para Pessoal e Prontidão. Ele é o tenente-coronel dos fuzileiros navais que, em 2021, cobrou em vídeo a responsabilização da cúpula militar pela retirada do Afeganistão, foi preso, respondeu a corte marcial e se declarou culpado das seis acusações. Saiu com repreensão e multa de US$ 5 mil, valor nominal de 2021 que equivale hoje a R$ 25,6 mil.

Hegseth agradece a ele no vídeo: “há um ano, incumbi Stu Scheller e sua equipe de desafiar gerações de pressupostos sobre promoção”. À Fox News, Scheller resumiu o diagnóstico: “as pessoas descobrem que não precisam ser as melhores no trabalho delas; precisam ser as melhores em fazer o chefe achar que elas são as melhores”.

As ressalvas que já apareceram

Crítica assinada ao teste ainda não apareceu. A que existe é ao memorando de maio, e veio de Hendrick Simoes, suboficial reformado da Marinha com experiência em juntas de classificação. Ao Task & Purpose, ele disse que nem toda especialidade tem o mesmo acesso a missões conjuntas e alertou para uma implantação apressada, capaz de pôr barreira nova diante de quem já se julgava competitivo.

O próprio responsável pelo programa põe limite no que ele mede. “Por melhor que a gente fique nisso, não existe uma única tarefa que replique a guerra com perfeição”, disse Scheller à Fox News. Sobre o peso da nota, ele foi direto: “o secretário ainda tem o julgamento sobre como isso vai ser ponderado na junta, então não determinamos”.

A Fox News registra preocupação de parlamentares, oficiais e analistas com influência política sobre um processo tradicionalmente conduzido pelas Forças. Nenhum integrante dos comitês de Forças Armadas do Congresso se pronunciou sobre a avaliação até a noite de 22 de setembro.

A junta de seleção continua, e o Senado também

O rito legal americano não muda. Pelo Título 10 do Código dos Estados Unidos, o secretário da Força convoca uma junta de seleção, cujo relatório passa pelo secretário de Guerra e chega ao presidente, que pode riscar nomes. Os aprovados viram nomeações que o Senado precisa confirmar uma a uma.

O sistema americano também empurra para fora quem não sobe: o oficial preterido duas vezes na promoção é obrigado a deixar a farda. A Avaliação Conjunta do Combatente entra antes disso, como mais um insumo para a junta, e o Pentágono afirma que complementa o processo, sem substituí-lo.

A lista fechada que decide a estrela no Brasil

Aqui nenhum exame separa o coronel do general. A promoção a oficial-general é por escolha, instituto da Lei 5.821, de 1972: cabe ao presidente da República escolher entre os mais credenciados para os altos cargos de comando e direção. Merecimento, o critério que vale de major a coronel, não se aplica nesse degrau.

O filtro é de curso, de tempo e de confiança. Para entrar no quadro de acesso por escolha, o coronel precisa de interstício de 36 meses no posto, conceito profissional e moral e, no Exército, do Curso de Altos Estudos Militares, feito na Escola de Comando e Estado-Maior. Quem não tem esse curso para em general de divisão.

A Comissão de Promoções de Oficiais ordena os coronéis por merecimento e leva a relação ao Alto Comando, que monta a Lista de Escolha, publica-a em boletim de acesso restrito e a encaminha ao presidente pelo ministro da Defesa. Os trabalhos desses colegiados são sigilosos por lei. O presidente escolhe dentro da lista e assina o decreto.

Duas engrenagens sustentam o rodízio. A quota anual obrigatória do Estatuto dos Militares abre a cada ano um quarto das vagas de cada posto de oficial-general, e as promoções por escolha saem em três datas fixas: 31 de março, 31 de julho e 25 de novembro. Nos Estados Unidos toda estrela precisa da confirmação dos senadores; no Brasil, basta a assinatura do presidente.

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