Hegseth anunciou a mudança em vídeo de rede social, sem comunicado do Departamento de Guerra. O exame vai de duas a oito horas, conforme a Força, e o peso da nota na junta ainda não foi definido.
O secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou em 22 de setembro que todo coronel e todo capitão-de-mar-e-guerra que disputar a primeira estrela terá de passar por um teste de guerra simulada. Nos fuzileiros navais, segundo documentos internos revelados pela Fox News, o adversário do candidato é uma plataforma com inteligência artificial. O anúncio não saiu em comunicado nem em discurso: saiu em vídeo nas contas do secretário no X, no Facebook e no Instagram.
Pelos mesmos documentos, a avaliação vai de duas horas na Força Aérea a oito horas no Corpo de Fuzileiros Navais e começa entre fevereiro e junho de 2027. A nota chega às juntas de promoção reunidas de julho a setembro daquele ano. O Pentágono não confirmou esses números nem disse quanto o resultado vai pesar.
O anúncio saiu em vídeo de rede social
Hegseth publicou o vídeo do anúncio numa terça-feira, com o nome do programa em inglês: Joint Warfighter Evaluation, ou Avaliação Conjunta do Combatente. “A partir deste ano, os O-6 elegíveis, ou seja, coronéis e capitães-de-mar-e-guerra em triagem para a primeira estrela, passarão por essa avaliação, para estratificar sua capacidade de lutar, se adaptar e vencer”, diz ele.
Não houve nota à imprensa, coletiva nem discurso. Na manhã de 23 de setembro, a lista de comunicados do Departamento de Guerra e a de discursos do secretário paravam em 18 de setembro, e a busca do site retornava erro. A confirmação oficial veio de um post do subsecretário Anthony Tata na página do departamento.
O anúncio chega depois de um ano de intervenção pessoal de Hegseth em promoções. Em agosto, ele barrou a promoção de quatro oficiais do Exército a general de uma estrela.
O total de promoções a general e almirante travadas por ele passava de 45 no fim daquele mês. Essas intervenções são o pano de fundo do teste.
Seis provas diferentes, de duas a oito horas
Documentos internos das Forças, obtidos e revisados pela Fox News, descrevem seis versões do exame, uma por Força e uma do Estado-Maior Conjunto. O Army Times, que reproduziu os números, registrou que o Pentágono não os confirmou de forma independente.
Pela mesma reportagem, o Exército avalia cerca de 900 coronéis, com prova escrita remota e jogo de guerra digital, e a Força Aérea, cerca de 1.330, em duas horas de teste on-line mais uma de simulação. A Força Espacial repete esse formato para cerca de 125 oficiais. A Marinha leva cerca de 308 capitães-de-mar-e-guerra ao Naval War College, em Newport, para três horas de prova e até três de jogo de guerra.
Os fuzileiros navais são o caso extremo: até 175 coronéis numa avaliação remota de oito horas, em plataforma com inteligência artificial. Somados os cinco efetivos informados pela Fox News, são 2.838 oficiais na primeira rodada, fora o Estado-Maior Conjunto.
“Um equalizador objetivo”, nas palavras de Hegseth
No vídeo, o secretário apoia a mudança num precedente de 1941. Ele conta que ganhou do chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, um retrato do general George Marshall, e diz que o quadro lembra a missão de cortar burocracia e exigir meritocracia nos postos mais altos.
Antes da Segunda Guerra Mundial, lembra Hegseth, Marshall usou as Manobras da Louisiana para testar comandantes sob atrito realista, e dali emergiram Eisenhower, Nimitz e Bradley. O exercício reuniu 472 mil militares, segundo o National WWII Museum.
“Esta avaliação é um equalizador objetivo. O cenário só se importa com decisões operacionais sob pressão”, afirma ele, no original “this evaluation is an objective equalizer”. O vídeo termina prometendo comandantes escolhidos por competência comprovada, “não por credencial de papel”.
O memorando de 20 de maio que abriu o caminho
A avaliação materializa um memorando que Hegseth assinou em 20 de maio de 2026, autenticado pelo site Task & Purpose. O documento mandou criar uma métrica adicional de capacidade de combate conjunto nas avaliações de oficiais e de sargentos, e designou o subsecretário Anthony Tata para conduzir o assunto.
“O esforço de criar métricas objetivas e baseadas em dados para medir e identificar a capacidade de combate não é exercício burocrático; é um imperativo de guerra”, diz o texto. Publicado em 4 de junho pelo Stars and Stripes, o memorando já gerou dúvidas internas sobre como medir capacidade conjunta.
Stuart Scheller, o oficial à frente da reforma
Quem conduz o projeto é Stuart Scheller, assessor sênior do Pentágono para Pessoal e Prontidão. Ele é o tenente-coronel dos fuzileiros navais que, em 2021, cobrou em vídeo a responsabilização da cúpula militar pela retirada do Afeganistão, foi preso, respondeu a corte marcial e se declarou culpado das seis acusações. Saiu com repreensão e multa de US$ 5 mil, valor nominal de 2021 que equivale hoje a R$ 25,6 mil.
Hegseth agradece a ele no vídeo: “há um ano, incumbi Stu Scheller e sua equipe de desafiar gerações de pressupostos sobre promoção”. À Fox News, Scheller resumiu o diagnóstico: “as pessoas descobrem que não precisam ser as melhores no trabalho delas; precisam ser as melhores em fazer o chefe achar que elas são as melhores”.
As ressalvas que já apareceram
Crítica assinada ao teste ainda não apareceu. A que existe é ao memorando de maio, e veio de Hendrick Simoes, suboficial reformado da Marinha com experiência em juntas de classificação. Ao Task & Purpose, ele disse que nem toda especialidade tem o mesmo acesso a missões conjuntas e alertou para uma implantação apressada, capaz de pôr barreira nova diante de quem já se julgava competitivo.
O próprio responsável pelo programa põe limite no que ele mede. “Por melhor que a gente fique nisso, não existe uma única tarefa que replique a guerra com perfeição”, disse Scheller à Fox News. Sobre o peso da nota, ele foi direto: “o secretário ainda tem o julgamento sobre como isso vai ser ponderado na junta, então não determinamos”.
A Fox News registra preocupação de parlamentares, oficiais e analistas com influência política sobre um processo tradicionalmente conduzido pelas Forças. Nenhum integrante dos comitês de Forças Armadas do Congresso se pronunciou sobre a avaliação até a noite de 22 de setembro.
A junta de seleção continua, e o Senado também
O rito legal americano não muda. Pelo Título 10 do Código dos Estados Unidos, o secretário da Força convoca uma junta de seleção, cujo relatório passa pelo secretário de Guerra e chega ao presidente, que pode riscar nomes. Os aprovados viram nomeações que o Senado precisa confirmar uma a uma.
O sistema americano também empurra para fora quem não sobe: o oficial preterido duas vezes na promoção é obrigado a deixar a farda. A Avaliação Conjunta do Combatente entra antes disso, como mais um insumo para a junta, e o Pentágono afirma que complementa o processo, sem substituí-lo.
A lista fechada que decide a estrela no Brasil
Aqui nenhum exame separa o coronel do general. A promoção a oficial-general é por escolha, instituto da Lei 5.821, de 1972: cabe ao presidente da República escolher entre os mais credenciados para os altos cargos de comando e direção. Merecimento, o critério que vale de major a coronel, não se aplica nesse degrau.
O filtro é de curso, de tempo e de confiança. Para entrar no quadro de acesso por escolha, o coronel precisa de interstício de 36 meses no posto, conceito profissional e moral e, no Exército, do Curso de Altos Estudos Militares, feito na Escola de Comando e Estado-Maior. Quem não tem esse curso para em general de divisão.
A Comissão de Promoções de Oficiais ordena os coronéis por merecimento e leva a relação ao Alto Comando, que monta a Lista de Escolha, publica-a em boletim de acesso restrito e a encaminha ao presidente pelo ministro da Defesa. Os trabalhos desses colegiados são sigilosos por lei. O presidente escolhe dentro da lista e assina o decreto.
Duas engrenagens sustentam o rodízio. A quota anual obrigatória do Estatuto dos Militares abre a cada ano um quarto das vagas de cada posto de oficial-general, e as promoções por escolha saem em três datas fixas: 31 de março, 31 de julho e 25 de novembro. Nos Estados Unidos toda estrela precisa da confirmação dos senadores; no Brasil, basta a assinatura do presidente.