Comentários publicados em cinco vídeos do canal oficial do Exército Brasileiro no YouTube indicam que a parcela de manifestações críticas à Força caiu de 59% em agosto de 2023 para 39% entre agosto e setembro de 2026. A coleta, feita em 20 de setembro de 2026, cobre uma amostra de 517 comentários e compara dois momentos da gestão do general Tomás Paiva, que assumiu o Exército em 21 de janeiro de 2023, duas semanas depois dos atos de 8 de janeiro, e desde então sustenta publicamente uma Força afastada da política partidária.
Os números mostram uma melhora nos comentários, mas as pesquisas de opinião disponíveis ainda não permitem afirmar que a confiança da sociedade nas Forças Armadas se recuperou por completo.
Como os dados foram coletados
Foram analisados dois vídeos de 25 de agosto de 2023, ambos sobre o Dia do Soldado, com 384 comentários, e três vídeos de agosto e setembro de 2026, com 133 comentários. Os vídeos de 2023 somam 29 mil e 26 mil visualizações. Os de 2026 somam 20 mil, 14 mil e 10 mil. Entraram na amostra os comentários carregados na página, sem as respostas.

Cada comentário foi classificado como favorável, crítico, misto ou neutro. Emojis, mensagens fora do tema e spam ficaram na categoria neutra. Os percentuais abaixo consideram apenas os comentários que expressam opinião. A classificação foi feita com apoio de inteligência artificial e revisão manual.
O que os comentários de 2023 registram
Em agosto de 2023, entre 307 comentários com opinião, 59% eram críticos e 39% favoráveis. O restante era misto, com elogios aos soldados, comentários fora de contexto etc. Dos 181 comentários críticos, 52% traziam conteúdo político, como referências ao 8 de janeiro, a políticos, ministros do Supremo Tribunal Federal e ao governo federal.
O apelido “melancia” aparecia em cerca de 30 dos 384 comentários, perto de 8% do total. O comentário mais curtido do vídeo da solenidade em Brasília, com 99 curtidas, lamentava a ausência de público nas arquibancadas. Outro, com 49 curtidas, pedia que a instituição recuperasse a credibilidade que tinha antes de 2023. Vários convocavam a população a ficar em casa no 7 de Setembro.

No vídeo institucional do Dia do Soldado de 2023, a proporção foi de 66% de comentários críticos contra 33% de favoráveis.
O que os comentários de 2026 registram
Nos três vídeos de 2026, entre 95 comentários com opinião, 61% eram favoráveis e 39% críticos. O termo “melancia” apareceu uma única vez em 133 comentários, menos de 1%. No vídeo do Dia do Soldado de 2026, que tem apenas 33 comentários, 25 eram favoráveis e 1 crítico entre os que manifestaram opinião.
As críticas remanescentes mudaram de foco. Dos 37 comentários críticos de 2026, 20 não tinham conteúdo político, e vários deles tratavam de equipamentos, do robô apresentado em desfile, da situação na Amazônia e da fronteira com a Colômbia. Os outros 17 tinham conteúdo político. Em parte deles, os autores cobravam do Exército alguma ação diante do cenário nacional, como “Não vão fazer nada mesmo?” e menções a “tomar o poder”. Há ainda comentários que fazem referência ao 8 de janeiro e ao 7 de Setembro.

O que dizem as pesquisas de opinião
Os comentários no YouTube não substituem pesquisas de opinião, e as pesquisas ainda não mostram um retorno claro ao patamar anterior. Segundo a Genial/Quaest, divulgada em 21 de agosto de 2023, o percentual dos que confiavam muito nas Forças Armadas caiu de 43% para 33%, enquanto o de pouca ou nenhuma confiança subiu de 54% para 64%.
O Datafolha de dezembro de 2024 registrou 34% de muita confiança, o pior resultado da série iniciada em 2017, igual ao de setembro de 2023. O pico havia sido de 45% em 2019. Mesmo assim, as Forças Armadas seguiam como a instituição mais confiável entre as pesquisadas pelo instituto.
Em levantamento da Genial/Quaest realizado de 31 de julho a 3 de agosto de 2026, 70% dos entrevistados disseram confiar nos militares e nas Forças Armadas. A divulgação não traz série histórica para essa pergunta, e o resultado não é diretamente comparável aos números de 2023 e 2024, que mediam muita confiança. Por isso, o dado não permite concluir se houve recuperação.
O que dizem os documentos e as falas do comando
Na Ordem do Dia de 25 de agosto de 2025, assinada por Tomás Paiva, considerada uma das mais emblemáticas da história do Exército Brasileiro, o comando enviou recados para os militares do Exército sobre como deve ser – na sua visão – o comportamento do militar. O General, revelando parte de sua estratégia para recuperar o statua da instituição, evocou a máxima do Duque de Caxias de que a espada do soldado não tem partido e pediu fidelidade à missão constitucional. No texto o militar mencionou ainda o exemplo de Caxias quando à necessidade de dar tratamento digno para os vencidos.
“Caxias foi um comandante singular… Em sua longa trajetória na busca da unificação nacional, debelou revoltas internas sem triunfalismos, respeitou os vencidos como irmãos e tratou todos, aliados e adversários, com dignidade e humanidade… Sua espada foi empunhada em prol de um único lado: o da Pátria, pois, conforme o próprio declarou: “Minha espada não tem partido”. Caxias é a referência perene do Soldado que jamais se afastou do dever. Ensinou-nos, ainda, que a força do Exército reside na fé, na coesão, na disciplina, na imparcialidade e no compromisso com o bem comum… “, diz um trecho da Ordem do Dia.
A Revista Fórum, citando a Coluna de Bela Megale, no jornal O Globo, de 17 de agosto de 2026, aponta redução superior a 50% na presença de militares na disputa eleitoral. Os números divulgados são usados como base para indicar que militares estariam se afastando da política.
Em 25 de agosto de 2026, a solenidade do Dia do Soldado no Quartel-General do Exército, em Brasília, reuniu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, e o presidente do Supremo, Edson Fachin.
Há também pressões em sentido contrário. Em 2 de setembro de 2025, a CNN Brasil informou que generais de quatro estrelas da reserva cobraram, em grupo de mensagens, que Paiva defendesse publicamente os oficiais-generais réus no julgamento da trama golpista. A reportagem não registrou resposta do comandante.
Limites dos dados
A amostra é pequena e não probabilística. Os comentários vêm do canal oficial do Exército, cujo público pode não representar a população brasileira, mas apenas os seguidores da instituição no canal ou parcela da sociedade interessada em questões políticas. Os vídeos de 2023 e 2026 têm temas parecidos, mas não idênticos, e os de 2026 têm menos comentários. Foram usados como amostra 517 dos 801 comentários exibidos nas páginas, incluindo respostas.
Os dados de 2023 e 2026 apontam menos hostilidade nos comentários, menor número de posts com teor político e um discurso do comando centrado no distanciamento da política. Os que ainda criticam o Exército em 2026 falam mais de equipamentos e presença na Amazônia, e parte deles cobra ação política da Força. A próxima medição de confiança, com metodologia comparável à da Quaest de 2023 ou à série do Datafolha, provavelmente indicará se a percepção pública acompanha o que o comando declara e o que a apuração.