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40,3 milhões de km² no radar: Marinha prepara no Rio novo centro para monitorar navios e integrar informações de todo o Atlântico Sul

A Marinha prepara o Centro de Fusão de Informações do Atlântico Sul para cruzar dados brasileiros e internacionais, acompanhar navios e ampliar o monitoramento de uma área que inclui a Amazônia Azul.

40,3 milhões de km² no radar: Marinha prepara no Rio novo centro para monitorar navios e integrar informações de todo o Atlântico Sul
Centro de Controle do Tráfego Marítimo do COMPAAz, estrutura da Marinha do Brasil que reúne sistemas de monitoramento e consciência situacional marítima. Imagem: Marinha do Brasil

O novo centro ficará no COMPAAz, no Rio de Janeiro, e integrará informações de uma área de 40,3 milhões de km² que envolve países da América do Sul e da África. A iniciativa faz parte do esforço brasileiro para ampliar a consciência situacional marítima no Atlântico Sul.

Novo centro da Marinha vai funcionar no Rio

O IFC Atlântico Sul não será uma nova base naval nem um gigantesco radar capaz de enxergar sozinho milhões de quilômetros quadrados de oceano.

A proposta é reunir informações que hoje circulam por diferentes sistemas e instituições e transformá-las em uma visão integrada do que acontece no mar.

O projeto de implantação do IFC Atlântico Sul prevê a instalação da estrutura no Comando de Operações Marítimas e Proteção da Amazônia Azul (COMPAAz), no Rio de Janeiro.

A área de interesse alcança 40,3 milhões de km² do Atlântico Sul e inclui os 5,7 milhões de km² da Amazônia Azul.

Na prática, diferentes sistemas podem registrar um mesmo navio, sua rota e outras informações relacionadas à navegação.

O Centro de Fusão de Informações poderá cruzar esses dados, concentrá-los em uma mesma estrutura de análise e ajudar os operadores a identificar situações que mereçam atenção.

É daí que vem a dimensão dos 40,3 milhões de km²: trata-se da área de interesse informacional do centro, e não da cobertura física de um único radar brasileiro.

Marinha já prepara fisicamente a nova estrutura

O projeto deixou sinais concretos de que avançou além da discussão conceitual.

Em 19 de agosto de 2026, o Comando da Marinha abriu uma contratação para adquirir materiais destinados especificamente ao “Information Fusion Center (IFC) – Atlântico Sul”.

O processo inclui placas, identificação de portas, banner e letreiros com os nomes “COMPAAz” e “IFC Atlântico Sul”.

A contratação envolve apenas materiais de comunicação visual. Por isso, o valor do processo não representa o custo de implantação do centro.

Ainda assim, o procedimento oferece uma evidência administrativa de que a Marinha já trabalha na preparação física da nova estrutura no Rio de Janeiro.

Até agora, as informações disponíveis não apresentam o orçamento total, o número de militares e analistas que trabalharão no IFC nem uma data oficial para sua inauguração.

Rede alcança 24 países dos dois lados do Atlântico

Representantes dos países da ZOPACAS durante reunião ministerial no Rio de Janeiro em abril de 2026
Representantes da ZOPACAS durante a IX Reunião Ministerial, realizada no Rio de Janeiro em abril de 2026. O mecanismo reúne 24 países da América do Sul e da África. Imagem: Ministério da Defesa

A dimensão internacional amplia o alcance do projeto.

A Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) reúne 24 países da América do Sul e da África. Em abril de 2026, o Brasil assumiu a presidência do mecanismo pelos próximos três anos.

Na mesma reunião, realizada no Rio de Janeiro, os integrantes aprovaram uma estratégia que prevê justamente ampliar o compartilhamento de informações marítimas.

A Estratégia de Cooperação do Rio de Janeiro, disponível em documento oficial do Ministério da Defesa, inclui entre as ações possíveis a criação de mecanismos para trocar informações em tempo real.

O documento vai além.

Também prevê ampliar o compartilhamento de inteligência para monitorar embarcações suspeitas e cargas sensíveis que transitam pelo Atlântico Sul, além de criar mecanismos de alerta rápido e canais de comunicação entre autoridades.

Segundo a página oficial da ZOPACAS mantida pelo Ministério da Defesa, 21 dos 24 Estados-membros estiveram representados na reunião ministerial de 2026.

A Marinha também levou o tema ao 3º Simpósio Marítimo da ZOPACAS, realizado em abril na Escola Naval. A página oficial do evento mantida pela Marinha do Brasil apresenta entre as atividades uma palestra dedicada ao desenvolvimento da Consciência Situacional Marítima Integrada no Atlântico Sul.

A RSM já mostrou como o tema ganhou espaço na agenda brasileira quando o Brasil assumiu a presidência da ZOPACAS em meio a uma combinação inédita de tensões no Atlântico Sul.

Navios suspeitos entram no cruzamento de informações

É nesse ponto que o conceito de fusão de informações ganha uma aplicação concreta.

Um navio pode aparecer em sistemas de acompanhamento marítimo, registros portuários e bases mantidas por diferentes autoridades. Informações compartilhadas por outros países podem acrescentar novas peças.

Em vez de analisar cada fonte isoladamente, o IFC Atlântico Sul pretende cruzar os dados e ajudar os operadores a localizar situações que mereçam atenção.

Isso não significa que todos os países da ZOPACAS já tenham conectado seus sistemas ao centro brasileiro. As informações disponíveis também não detalham quais bases estarão integradas desde o início das operações.

A proposta, porém, envolve uma rede muito maior que a própria Marinha.

Entre os atores brasileiros relacionados à iniciativa aparecem Polícia Federal, Receita Federal, Ibama, ICMBio, Censipam, ANP e Antaq, além de autoridades portuárias e integrantes da comunidade marítima.

No exterior, o projeto considera a interação com Marinhas e Guardas Costeiras da ZOPACAS e diferentes centros internacionais de informações marítimas.

COMPAAz amplia conexão com parceiros estrangeiros

A proposta do IFC também se encaixa no movimento de aproximação do COMPAAz com estruturas estrangeiras dedicadas ao compartilhamento de informações e à segurança marítima.

Em maio, representantes do comando brasileiro visitaram nos Estados Unidos a Joint Interagency Task Force South (JIATF-South), estrutura ligada ao Comando Sul norte-americano. Os encontros abordaram compartilhamento de informações, integração de sistemas, inteligência marítima e possibilidades de interoperabilidade.

A aproximação também alcança o lado africano do Atlântico.

Em junho, uma delegação da Marinha Nacional de Camarões esteve no COMPAAz e conheceu ferramentas utilizadas no controle do tráfego marítimo e na construção da consciência situacional sobre as águas de interesse brasileiro.

Esses contatos se somam a uma estrutura regional que o Brasil já coordena.

O Comandante de Operações Marítimas e Proteção da Amazônia Azul exerce atualmente a função de Coordenador da Área Marítima do Atlântico Sul (CAMAS). A própria Marinha apresentou a área marítima coordenada pelo mecanismo como instrumento para desenvolver uma consciência situacional integrada no Atlântico Sul.

IFC amplia o monitoramento marítimo brasileiro

O Centro de Fusão de Informações do Atlântico Sul não substitui os sistemas que a Marinha já utiliza para acompanhar a Amazônia Azul.

Ele acrescenta outra camada: reunir informações produzidas por diferentes sistemas, instituições e países e colocá-las diante de uma mesma estrutura de análise.

Essa necessidade cresce à medida que a própria Marinha amplia os meios usados para observar e proteger o ambiente marítimo.

A RSM mostrou recentemente que a Força estuda drones submarinos, veículos autônomos e sensores para proteger cabos que transportam mais de 95% dos dados de internet entre o Brasil e o exterior.

Quanto mais fontes observam o mar, maior é o desafio de transformar dados dispersos em informação útil.

No Rio de Janeiro, o IFC Atlântico Sul deverá concentrar em uma mesma estrutura informações sobre navios e atividades marítimas espalhadas por uma área de 40,3 milhões de km², da Amazônia Azul a outras regiões do Atlântico Sul.

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