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De protótipo a arma de porta-aviões: Marinha dos EUA coloca até US$ 200 milhões no Blackbeard e acelera produção do hipersônico para o F/A-18

Felipe Alves da Silva
Por Felipe Alves da Silva 23/09/2026 às 13:40
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De protótipo a arma de porta-aviões: Marinha dos EUA coloca até US$ 200 milhões no Blackbeard e acelera produção do hipersônico para o F/A-18
Míssil hipersônico Blackbeard, desenvolvido para ampliar a capacidade de ataque de longo alcance da aviação embarcada da Marinha dos Estados Unidos. Imagem: Reprodução

Novo pedido coloca o míssil da Castelion além da fase de demonstração e abre caminho para uma família de armas hipersônicas produzidas em volume para os grupos de ataque de porta-aviões

A Marinha dos Estados Unidos deu um passo que pode mudar a maneira como sua aviação embarcada emprega armas hipersônicas. Em setembro de 2026, o serviço concedeu à empresa Castelion uma ordem de produção avaliada em até US$ 200 milhões para fabricar, montar, testar e entregar um lote inicial do míssil hipersônico Blackbeard.

Não se trata mais apenas de financiar um demonstrador tecnológico.

O novo contrato coloca o Blackbeard diretamente na transição entre protótipo, capacidade operacional inicial e produção efetiva para a frota. A aposta da Marinha é particularmente importante porque o míssil foi concebido desde o início para ser produzido em quantidade — justamente um dos maiores obstáculos enfrentados pelos programas hipersônicos tradicionais.

A arma está sendo integrada à aviação naval norte-americana, com destaque para o F/A-18E/F Super Hornet, principal caça embarcado dos porta-aviões da classe Nimitz e Gerald R. Ford. Em abril, a Castelion anunciou outro contrato, de US$ 105 milhões, especificamente para avançar a integração do Blackbeard ao F/A-18 e trabalhar para alcançar uma capacidade operacional inicial.

A Marinha não quer apenas um míssil rápido — quer muitos deles

Esse é o detalhe que ajuda a entender por que o Blackbeard chama atenção.

Programas hipersônicos normalmente são associados a armas extremamente sofisticadas, produzidas em pequena quantidade e com custos elevados. No Blackbeard, a lógica é diferente: combinar velocidade hipersônica, alcance de ataque e métodos industriais capazes de colocar centenas — potencialmente milhares — de unidades em produção.

A própria Marinha descreveu o novo contrato como uma forma de introduzir “massa acessível” à frota, usando métodos comerciais de fabricação e uma cadeia produtiva verticalmente integrada. A Castelion ficará responsável por fabricar, montar, testar e entregar os primeiros mísseis completos do lote de produção.

O Blackbeard é descrito oficialmente como uma arma hipersônica lançada do ar para ataques contra alvos marítimos e terrestres, oferecendo aos caças embarcados uma opção de longo alcance e alta velocidade capaz de ser lançada sem que a aeronave precise penetrar profundamente nas defesas inimigas.

Essa combinação importa porque um porta-aviões pode ter aeronaves extremamente avançadas, mas a capacidade real de atacar a longa distância continua condicionada à quantidade, ao alcance e ao custo das armas disponíveis em seus paióis.

F/A-18 Super Hornet já está no centro da integração

O Super Hornet aparece como uma das plataformas mais importantes para colocar o Blackbeard em serviço.

Em agosto de 2026, imagens divulgadas pela Castelion mostraram o míssil ao menos instalado experimentalmente em um F/A-18E/F, indicando que a integração física já havia avançado. Naquele momento, ainda não estava publicamente claro se testes completos de voo do conjunto já tinham sido realizados.

O trabalho envolve muito mais do que simplesmente colocar o míssil sob a asa.

São necessários ensaios de segurança, separação da aeronave, compatibilidade de software, cargas estruturais, certificação, testes de voo e validações específicas para operações embarcadas. O contrato de US$ 105 milhões anunciado em abril cobre justamente parte desse processo.

A integração também mostra que a Marinha tenta aproveitar aeronaves que já existem em grande número na frota, em vez de esperar por uma nova plataforma especificamente construída para transportar armas hipersônicas.

US$ 23,4 milhões, depois quase US$ 90 milhões e agora até US$ 200 milhões

A evolução dos contratos mostra a velocidade com que o programa avançou em 2026.

Em junho, a Marinha concedeu à Castelion uma ordem de US$ 23,4 milhões para produzir e entregar 50 protótipos de pré-produção do Blackbeard, acompanhados de 50 contêineres de transporte e armazenamento.

Em agosto, veio outro contrato, de aproximadamente US$ 89,997 milhões, voltado à engenharia, logística, fabricação e suporte de mais 50 armas destinadas à fase de capacidade operacional inicial e à transição do Blackbeard para um programa formal da Marinha. O trabalho está previsto para continuar até agosto de 2028.

Agora, a ordem de produção de até US$ 200 milhões passa a financiar um lote inicial de armas completas destinadas à frota. A Castelion afirma que essas unidades vêm depois das armas de capacidade operacional inicial anteriormente contratadas.

A sequência deixa clara uma mudança: o objetivo já não é apenas provar que o conceito funciona. O desafio passa a ser provar que ele pode ser fabricado de maneira repetitiva e em volume.

Meta industrial fala em pelo menos 500 mísseis por ano

O plano mais amplo é ainda mais ambicioso.

Em maio de 2026, a Castelion anunciou um acordo estrutural com o governo norte-americano estabelecendo uma produção mínima de 500 Blackbeard por ano, depois que os testes e processos de validação forem concluídos. O acordo também abre caminho para aquisição de milhares de unidades adicionais.

O Defense News informou que o Pentágono busca autorizações e recursos que poderiam permitir a aquisição de mais de 12 mil Blackbeard ao longo de cinco anos, embora esse número represente uma intenção e um planejamento de escala, não 12 mil mísseis já contratados.

Essa distinção é importante.

O contrato de até US$ 200 milhões anunciado pela Marinha é real e já formalizado. Os milhares de mísseis pertencem a uma estratégia futura de produção que dependerá de testes, validação técnica, orçamento e autorizações do Congresso.

Blackbeard foi projetado para escapar do problema dos hipersônicos caríssimos

A Castelion apresenta o Blackbeard como uma arma criada desde o início para fabricação industrial.

A empresa diz utilizar produção verticalmente integrada, incluindo componentes de propulsão e orientação, tentando reduzir custos e acelerar modificações entre um teste e outro. O fabricante também afirma ter realizado mais de 25 testes de voo em menos de dois anos e meio durante o desenvolvimento da família.

Essa abordagem contrasta com programas militares nos quais poucos protótipos são construídos, passam anos em desenvolvimento e somente depois recebem adaptações para produção em série.

No Blackbeard, a capacidade de fabricação não aparece como etapa final. Ela faz parte do projeto da arma.

A Castelion está expandindo o complexo Project Ranger, no Novo México, uma instalação de aproximadamente 1.000 acres direcionada à fabricação de sistemas hipersônicos. A empresa afirma que sua estrutura futura está sendo dimensionada para produzir vários milhares de Blackbeard por ano.

Quanto o Blackbeard alcança?

A Marinha dos EUA não divulgou, no anúncio do contrato de setembro, uma distância operacional oficial para o míssil.

Fontes especializadas têm apresentado números diferentes. O Defense News cita informações segundo as quais a arma estaria sendo desenvolvida como um sistema standoff com alcance na faixa de 200 milhas náuticas, aproximadamente 370 quilômetros.

Já reportagens especializadas sobre o programa indicam possibilidades de alcance superiores, chegando a colocar o Blackbeard dentro de uma categoria semelhante à de outras armas de ataque de longo alcance.

Sem especificação oficial da Marinha sobre a versão que efetivamente será entregue à frota, esses valores devem ser tratados como estimativas ou informações atribuídas às respectivas fontes, e não como alcance operacional confirmado.

O que está confirmado é sua classificação como arma hipersônica, portanto projetada para voar acima de Mach 5, e sua finalidade de ataque contra objetivos terrestres e marítimos.

Uma tentativa de colocar hipersônicos dentro da rotina do porta-aviões

Talvez o ponto mais relevante do programa seja justamente sua aparente normalidade.

O Blackbeard não está sendo apresentado apenas como uma arma estratégica extremamente rara para missões excepcionais. A proposta é integrá-lo à rotina da aviação embarcada, produzir munições em volume e aumentar a quantidade de ataques de longo alcance que um grupo de porta-aviões poderia gerar.

A Marinha afirma que isso aumentará a profundidade de seus paióis e permitirá que suas aeronaves operem contra sistemas avançados de defesa aérea mantendo maior distância do alvo.

Se a produção atingir as escalas anunciadas, o efeito mais importante do Blackbeard talvez não esteja apenas na velocidade individual de cada míssil.

Estará na possibilidade de deixar de tratar uma arma hipersônica como recurso escasso.

Para a aviação embarcada norte-americana, esse é o salto que o contrato de até US$ 200 milhões tenta iniciar: transformar uma tecnologia que durante anos apareceu principalmente em programas experimentais em munição fabricada continuamente para os esquadrões que operam a partir dos porta-aviões.

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