Quase 3 mil toneladas de estanho produzido pela brasileira White Solder seguiram para duas empresas norte-americanas ligadas à cadeia de defesa dos Estados Unidos entre 2021 e 2025. A mesma companhia é ré em um processo que investiga garimpo ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami e passou a enfrentar novas exigências judiciais para provar a origem do minério que compra.
Registros alfandegários analisados pela Repórter Brasil apontam que a White Solder forneceu pelo menos 525 toneladas de estanho à Indium Corporation e outras 2,4 mil toneladas à Nathan Trotter. A primeira fornece soldas para a Raytheon, fabricante de radares e mísseis de precisão. A segunda recebeu US$ 19 milhões do Departamento de Defesa dos EUA para ampliar sua capacidade de fundição, refino e reciclagem de estanho.
O elo com a Terra Yanomami aparece em outro ponto da cadeia. O Ministério Público Federal afirma que a White Solder integrou um esquema no qual cassiterita retirada ilegalmente de Roraima era registrada como se tivesse origem regular, transformada em lingotes e então vendida no mercado brasileiro e internacional.
525 toneladas chegaram à fornecedora de soldas usada pela Raytheon
Entre maio de 2023 e agosto de 2025, a White Solder enviou ao menos 525 toneladas de estanho à Indium Corporation, segundo os registros analisados pela reportagem. A empresa norte-americana produz materiais de soldagem usados em eletrônicos e aparece como fornecedora da Raytheon.
A Raytheon integra o grupo RTX e fabrica sistemas de defesa que incluem radares e mísseis guiados. A ligação documentada entre as empresas coloca o estanho brasileiro dentro de uma cadeia de suprimentos que atende fabricantes com grandes contratos militares nos Estados Unidos.

Nathan Trotter recebeu 2,4 mil toneladas e também ganhou US$ 19 milhões do Pentágono
O volume enviado à Nathan Trotter foi ainda maior. Entre agosto de 2021 e agosto de 2025, a companhia norte-americana recebeu ao menos 2,4 mil toneladas de estanho da White Solder. A empresa se apresenta como uma das maiores fabricantes de estanho e ligas de solda da América do Norte.
Em setembro de 2024, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos destinou US$ 19 milhões à Nathan Trotter para a instalação de uma unidade de fundição, refino e reciclagem de estanho na Pensilvânia. O investimento faz parte da estratégia americana de reduzir vulnerabilidades no abastecimento de minerais considerados críticos.
Somados, os embarques documentados para Indium e Nathan Trotter chegam a pelo menos 2.925 toneladas. Os registros demonstram o fornecimento da White Solder a essas duas empresas; eles não permitem afirmar que cada lote exportado terminou diretamente em um equipamento militar específico.
MPF afirma que cassiterita ilegal era transformada em lingotes com aparência de origem regular
A investigação brasileira começou em outra ponta. Segundo o MPF, entre março de 2021 e dezembro de 2022 funcionou uma estrutura de extração clandestina de cassiterita e ouro na região do Pupunha, na bacia do Rio Mucajaí, dentro da Terra Indígena Yanomami.
Escavadeiras abriam frentes de lavra e aeronaves operavam em pistas clandestinas para movimentar pessoas, combustível, peças e minério. A Coopertin, de acordo com a acusação, registrava a cassiterita como produção de cooperados regulares e emitia documentos fiscais antes de vender o material à White Solder.
Na metalúrgica, a cassiterita era processada e convertida em lingotes de estanho certificados, que podiam entrar no mercado formal. A ação civil pública do MPF atribui à causa valor próximo de R$ 1,7 bilhão e pede reparação ambiental, indenizações e medidas permanentes de controle sobre a origem do minério.

R$ 166,3 milhões foram transferidos à cooperativa em apenas cinco meses
A dimensão financeira aparece nos documentos apreendidos pela Polícia Federal. Entre maio e agosto de 2021, a contabilidade analisada registrou a movimentação de 525 toneladas de cassiterita e R$ 54,2 milhões. Em um intervalo de cinco meses, a White Solder teria transferido R$ 166,3 milhões à Coopertin.
O MPF também afirma que a filial da cooperativa em Boa Vista não possuía cooperados, empregados ou lavra em funcionamento compatível com os volumes negociados. Documentos apresentados pela própria White Solder indicaram ainda que a Coopertin continuou como principal fornecedora da empresa em 2022, 2023 e 2024.
Justiça passou a exigir prova lote a lote da origem da cassiterita
Em decisão divulgada pelo MPF em 22 de setembro, a Justiça Federal em Roraima determinou que White Solder e Coopertin deixem de comprar, receber, registrar ou vender cassiterita sem documentação capaz de comprovar sua origem legal.
A White Solder só poderá continuar adquirindo minério da cooperativa quando conseguir identificar, lote a lote, o processo minerário, o título, a licença ambiental, o produtor e a área de origem. As duas rés também receberam prazo de 30 dias para apresentar registros de compras e produção desde 2021.
Em 60 dias, a metalúrgica deverá implantar um protocolo escrito de verificação de fornecedores, com consultas à Agência Nacional de Mineração e aos órgãos ambientais. A cada 90 dias, as empresas terão de prestar contas à Justiça e ao MPF enquanto o processo continuar.
Multa pode chegar a R$ 5 milhões por empresa se as obrigações forem descumpridas
A decisão prevê multa de R$ 50 mil por dia para cada ré em caso de descumprimento das obrigações. O atraso na entrega dos relatórios periódicos pode gerar outra multa diária, de R$ 20 mil. As penalidades estão limitadas inicialmente a R$ 5 milhões por empresa.
Ainda cabe recurso. A White Solder e os demais acusados terão espaço para apresentar suas defesas no processo criminal e na ação civil. A apuração sobre a cadeia internacional de compradores, enquanto isso, ganhou peso adicional porque o estanho saiu do Brasil e chegou a empresas inseridas no abastecimento de fabricantes e programas ligados à defesa norte-americana.
O caso deixa duas frentes abertas ao mesmo tempo: a Justiça brasileira tenta rastrear a origem da cassiterita e responsabilizar os envolvidos, enquanto a cadeia internacional de suprimentos enfrenta perguntas sobre como verificar a procedência de um mineral estratégico depois que ele já foi refinado e comercializado.