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A duplicação da BR-116 avançou 37,4 dos 50,8 quilômetros nos cinco anos em que o Exército tocou a obra. Vieram as enchentes de 2024 e a tropa não voltou

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 08/09/2026 às 11:51
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A duplicação da BR-116 avançou 37,4 dos 50,8 quilômetros nos cinco anos em que o Exército tocou a obra. Vieram as enchentes de 2024 e a tropa não voltou
Uma duplicação de rodovia interrompida, com a pista nova terminando em terra batida e o tráfego de caminhões seguindo pela pista antiga. Imagem ilustrativa gerada por IA.

A obra tinha começado em janeiro de 2019 com prazo até fevereiro de 2022. O DNIT decidiu contratar empresa privada para concluir o trecho.

Enquanto o Congresso discute entregar ao Exército as obras públicas abandonadas do país, existe uma rodovia em que a Força entrou, trabalhou cinco anos e não terminou. É a duplicação da BR-116 no Rio Grande do Sul.

Dos 50,8 quilômetros sob responsabilidade militar, 37,4 ficaram prontos. Faltam 13,8 quilômetros, orçados em R$ 122 milhões, e quem vai concluir é uma empresa privada.

O que o Exército assumiu, e com que prazo

A obra recebeu nome próprio dentro da Força: Operação Guaíba. Ela ficou a cargo do 1º Batalhão Ferroviário, unidade subordinada ao 4º Grupamento de Engenharia, na área da 5ª Região Militar.

Os trabalhos começaram em janeiro de 2019, com conclusão prevista para fevereiro de 2022. O trecho é o dos lotes 1 e 2, entre Guaíba e Tapes, e a obra foi orçada em R$ 207 milhões.

Não era um serviço qualquer no organograma militar. Na época, a duplicação da BR-116 era descrita como a maior obra do sistema de engenharia do Exército, o mesmo que hoje mantém 8 mil militares em canteiros de rodovia pelo país.

O que ficou pronto e o que ficou faltando

O saldo em quilômetros é conhecido e não é pequeno: 37,4 dos 50,8 quilômetros previstos foram entregues duplicados. O problema está na natureza do que sobrou.

Só no lote 1, que tem 24,46 quilômetros, faltam cerca de nove quilômetros de duplicação e outros três na Travessia de Pedras Brancas e na travessia urbana de Guaíba.

Trecho urbano é a parte mais cara e mais lenta de qualquer duplicação. Envolve desapropriação, remanejamento de rede de água, energia e esgoto, e obra convivendo com trânsito de cidade, o que explica por que o pedaço final custa R$ 122 milhões.

Por que a tropa saiu do canteiro

A interrupção tem data e motivo. Em maio de 2024, com as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, os militares foram deslocados para a Operação Taquari 2, de socorro e reconstrução nos municípios alagados.

Essa é a natureza dupla da engenharia militar e ninguém deveria estranhá-la. O mesmo batalhão que asfalta rodovia é o que entra quando um estado inteiro precisa de ponte provisória e de estrada reaberta.

O que não estava previsto era a saída virar definitiva. Passada a emergência, o Exército não retomou os lotes, e a região seguiu convivendo com alerta vermelho de tempestade em anos seguintes.

O que o DNIT decidiu fazer

Sem retomada militar, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes optou por contratar empresa privada para os 13,8 quilômetros restantes, com prazo estimado de doze meses de serviço.

A troca de executor não é neutra do ponto de vista de custo. Quando o Exército toca obra por convênio, o recurso é transferido e o que não é usado volta; quando a obra vai para empreiteira, entram medição, reajuste contratual e margem.

Em 5 de agosto deste ano o DNIT afirmou que entregaria mais 20 quilômetros duplicados da BR-116 ainda em 2026. A duplicação completa entre Guaíba e Pelotas soma 211 quilômetros.

O relógio que já passou de doze anos

A conta do tempo é o dado mais desconfortável desta história. A duplicação entre Pelotas e Guaíba vinha sendo cobrada havia mais de uma década antes mesmo de o Exército entrar.

Se a conclusão acontecer no fim de 2026, como o órgão projeta, a obra fecha com cerca de catorze anos entre o início e a entrega. Se escorregar para 2027, são quinze.

Nesse intervalo, a rodovia continuou operando com pista simples em boa parte do traçado, num corredor que liga a região metropolitana de Porto Alegre ao sul do estado e à fronteira.

O tamanho do problema que o Congresso quer resolver

O caso individual só faz sentido diante do número nacional, e ele é assustador. Levantamento do Tribunal de Contas da União mapeou 22.621 obras federais e encontrou 11.469 paradas, mais da metade do total.

Essas obras já consumiram cerca de R$ 9 bilhões e exigiriam outros R$ 29,4 bilhões para serem concluídas. Só no setor de transportes, o número de empreendimentos paralisados saltou de 108 para 220 em um ano, somando R$ 10,3 bilhões.

O tribunal classifica o assunto na própria lista de alto risco da administração federal, o que significa que ele é tratado como problema estrutural e não como acidente de percurso.

O que o Exército realmente consegue tocar

Do outro lado da conta está a capacidade disponível, e ela tem tamanho conhecido. São 13 empreendimentos espalhados por 11 estados, somando 1.167 quilômetros de rodovia tocados por convênio com o DNIT.

Onde a engenharia militar rende mais é justamente onde empreiteira não entra. Um trecho de difícil acesso da selva amazônica recebeu uma ponte em 39 dias, construída por 25 militares na BR-307.

Obra urbana e obra de arte especial seguem outra lógica. O túnel da BR-280, no Morro do Vieira, chegou a 83% de execução depois de anos de canteiro, e esse tipo de serviço não acelera por disposição de tropa.

A conta que ainda não foi feita

O projeto que dispensa licitação para obras executadas pelo Exército em parceria com órgãos públicos foi aprovado na Câmara e seguiu para o Senado. A pressão sobre a Força para assumir rodovias abandonadas voltou ao noticiário nesta semana.

A aritmética, porém, não fecha sozinha. São 11.469 obras paradas de um lado e 8 mil militares em 13 canteiros do outro, sem que se tenha divulgado plano de ampliação de efetivo, de maquinário ou de orçamento de engenharia.

A BR-116 responde à pergunta melhor do que qualquer projeção. O Exército assumiu uma obra, entregou três quartos dela, foi chamado para outra emergência e não teve como voltar, e o pedaço que faltou continua sendo o mais caro de todos.

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