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O Exército mantém cerca de 8 mil militares tocando obra de rodovia em convênio com o DNIT, são 13 empreendimentos em 11 estados somando 1.167 quilômetros, e boa parte fica em trecho onde empreiteira não entra

O Exército mantém cerca de 8 mil militares tocando obra de rodovia em convênio com o DNIT, são 13 empreendimentos em 11 estados somando 1.167 quilômetros, e boa parte fica em trecho onde empreiteira não entra
Máquina de terraplenagem em leito de estrada aberto em área de floresta. Ilustração criada com IA.

Os batalhões de engenharia de construção pavimentaram o trecho da BR-163 no Pará que escoa o grão do norte de Mato Grosso até o porto de Miritituba. Cerca de 300 quilômetros devem ser entregues ainda este ano.

Existe um empreiteiro no Brasil que aceita obra onde ninguém quer ir, monta acampamento no meio do nada e fica lá até acabar. Ele usa farda. Cerca de 8 mil militares do Exército estão empregados em obras de infraestrutura executadas em convênio com o DNIT, distribuídas em 13 empreendimentos de construção e manutenção rodoviária em 11 estados, somando 1.167,4 quilômetros. Entre os trechos estão a duplicação da BR-101 no Nordeste e a pavimentação da BR-319, no Amazonas, e da BR-163, no Pará. Os mesmos batalhões levantaram uma ponte em 39 dias num trecho de difícil acesso da selva amazônica.

O que é um batalhão de engenharia de construção

Não é uma unidade de combate que faz obra nas horas vagas. É uma organização militar com finalidade de construção, com maquinário pesado próprio, oficinas e capacidade de operar autonomamente longe de centro urbano.

O batalhão leva o canteiro consigo. Alojamento, cozinha, ambulatório, manutenção de máquina e, quando necessário, geração de energia. É essa autossuficiência que explica por que ele consegue trabalhar onde a logística inviabiliza a empreiteira comum.

A contrapartida militar é que a obra funciona como instrução. Operar patrol, escavadeira e usina de asfalto em condição adversa é exatamente a habilidade exigida em campanha.

Por que o Estado recorre à tropa

Trecho de rodovia em região remota costuma reunir três problemas que afastam licitante: distância dos fornecedores, janela climática curta e dificuldade de manter equipe no local.

Onde o custo de mobilização é maior que a margem, a licitação fracassa ou o contrato é abandonado no meio. O convênio com o Exército contorna esse ponto porque a mobilização já está paga: o efetivo existe e o equipamento é patrimônio público.

Não é, portanto, competição com o setor privado. É ocupação do espaço que o setor privado não disputa.

Indicador Número
Militares empregados em obras para o DNIT Cerca de 8 mil
Empreendimentos em convênio 13
Estados alcançados 11
Extensão total em execução 1.167,4 quilômetros
Previsão de entrega no ano Cerca de 300 quilômetros pavimentados
Regiões das entregas previstas Norte, Nordeste e Centro-Oeste
O tamanho do programa de obras da engenharia militar.

A BR-163 e o corredor do grão

A obra de maior peso econômico é a da BR-163 no Pará. O 8º Batalhão de Engenharia de Construção concluiu a pavimentação de trecho da rodovia depois de pouco mais de seis meses de serviço.

O segmento entre Novo Progresso e Miritituba é uma das rotas mais importantes para a produção de grãos do norte de Mato Grosso, que desce por ali até o porto de Miritituba, no rio Tapajós.

Com o asfalto concluído, o tráfego de caminhão melhora, o custo de transporte da produção cai e a capacidade de exportação aumenta. É um caso em que obra militar aparece direto na planilha do agronegócio.

O que os batalhões constroem além de estrada

Rodovia é a obra mais visível, mas não é a única. A engenharia militar também levanta ponte, aeródromo em pista de terra, açude e poço em região de escassez de água.

Entra ainda a obra de emergência, aquela que aparece quando ponte cai, quando estrada é levada pela água ou quando uma cidade fica isolada. Nesses casos o critério deixa de ser custo por quilômetro e passa a ser tempo de resposta.

A própria Força já explicou publicamente as razões pelas quais constrói, e elas combinam instrução da tropa, presença do Estado em área de baixa densidade e capacidade de mobilização rápida.

A BR-319 é outra conversa

A pavimentação da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, está entre os empreendimentos do convênio e é a mais sensível da lista, por atravessar área de floresta preservada.

Ali a discussão não é de engenharia, é de licenciamento e de política pública. A tropa executa o que está autorizado, e o ritmo depende de decisão que não é dela.

Cerca de 300 quilômetros previstos para o ano

A previsão de entrega dos batalhões de engenharia e construção é de cerca de 300 quilômetros de rodovia pavimentada nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste até o fim do ano.

Para o período seguinte estão previstos novos segmentos, entre eles trechos adicionais da BR-163.

De onde vem essa atribuição

A engenharia de construção do Exército não é invenção recente nem improviso de conjuntura. Ela nasceu ligada à ocupação do território, atravessou a abertura das grandes rodovias do interior e virou estrutura permanente.

A justificativa oficial combina três coisas: instrução da tropa, presença do Estado em área de baixa densidade e capacidade de mobilização rápida em emergência.

O que isso significa na fronteira

Estrada aberta é também vetor de presença. Onde há pista pavimentada, chega fiscalização, chega saúde e chega logística de segurança pública.

Os 16,9 mil quilômetros de fronteira brasileira reúnem 588 municípios, e é nessa faixa que boa parte dessas obras acontece.

Obras como a fase final da BR-364 em Jaru, em Rondônia, são tratadas ao mesmo tempo como logística e como segurança, e é essa dupla natureza que sustenta o convênio.

Quem paga a conta

O convênio não é doação de serviço. O DNIT repassa recurso ao Exército para execução da obra, e o valor cobre insumo, combustível, manutenção de equipamento e o que mais o contrato previr.

A diferença em relação a uma empreiteira está no que não entra na conta. Não há margem de lucro nem custo de mobilização de equipe, porque a tropa já está paga pelo orçamento da Defesa e o maquinário já é patrimônio da União.

É por isso que o modelo aparece justamente nos trechos de menor atratividade comercial. Onde a obra dá lucro, a licitação funciona e o Estado não precisa recorrer à farda. O convênio existe para cobrir o que sobra depois que o mercado escolhe, e é nesse resto que ficam a Amazônia e o semiárido.

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Jefferson Silva

Jefferson Silva

Atuo na Sociedade Militar trazendo análises e conteúdos relacionados a Geopolítica, Tecnologia militar, Industria de Defesa e Inteligência Artificial.