A tenente-coronel Joyce de Souza Conceição assumiu o Esquadrão Gordo em 2025. Em 2026, a tenente-coronel Adriana Gonçalves Reis foi a segunda, em Manaus.
Em 15 de janeiro de 2025, uma major aviadora assumiu o comando do Primeiro Esquadrão do Primeiro Grupo de Transporte, o Esquadrão Gordo. Foi a primeira vez em que uma mulher comandou uma unidade aérea da Força Aérea Brasileira.
Ela tinha entrado na primeira turma de mulheres aviadoras da Academia da Força Aérea, em 2003. Entre a matrícula e o comando passaram-se 22 anos, e em 2026 uma segunda tenente-coronel chegou ao mesmo lugar, em Manaus.
A primeira turma de aviadoras
As mulheres entraram na FAB em 1982, com a criação do Corpo Feminino da Reserva da Aeronáutica, que formou o Quadro Feminino de Oficiais e o Quadro Feminino de Graduadas. A Marinha tinha aberto as portas em 1980, e o Exército só receberia as primeiras oficiais em 1992, na Escola de Administração do Exército. Durante duas décadas, porém, a cabine de pilotagem da FAB ficou fechada a elas.
Isso mudou em 2003, quando a Academia da Força Aérea, em Pirassununga, recebeu as primeiras mulheres no Curso de Formação de Oficiais Aviadores. Da mesma turma saiu a primeira mulher a pilotar caça na história da FAB, em 2011.
Do Hércules ao comando do Esquadrão Gordo
A major Joyce de Souza Conceição construiu a carreira na aviação de transporte. Em 2012, ainda primeiro-tenente, tornou-se a primeira aviadora brasileira habilitada a pilotar o C-130 Hércules, o cargueiro de quatro motores que por décadas foi a espinha dorsal da FAB.
Em 2016, já capitão, foi a primeira mulher brasileira a pousar na Antártica. Em 2022, quando o Esquadrão Gordo trocou o Hércules pelo KC-390 Millennium, da Embraer, ela servia no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.
A nomeação para o comando foi oficializada em 9 de julho de 2024, e a posse aconteceu seis meses depois. Hoje tenente-coronel, ela comanda uma das unidades mais antigas da aviação de transporte do país.
A segunda, na Amazônia
Em 2026 a FAB registrou a segunda mulher no comando de uma unidade aérea. A tenente-coronel Adriana Gonçalves Reis assumiu o Sétimo Esquadrão de Transporte Aéreo, o Esquadrão Cobra, sediado na Base Aérea de Manaus. Foi a segunda oficial a chegar a esse tipo de comando em pouco mais de um ano.
O esquadrão pertence ao Sétimo Comando Aéreo Regional e voa aviões C-95 Bandeirante, C-98 Caravan e C-97 Brasília. Faz transporte de carga e de tropa, ligação de comando e evacuação aeromédica numa região em que, muitas vezes, o avião é o único caminho até a cidade. O Sétimo Comando Aéreo Regional responde por Amazonas, Roraima, Rondônia e Acre.
A Força com mais mulheres
A FAB é a Força Armada com a maior proporção de mulheres no efetivo. Em 2025 eram 15.080, ou 22,3% do total, contra 9.084 na Marinha, 12,5% do efetivo, e 13.458 no Exército, 6,9%, segundo dados do Ministério da Defesa. Em números absolutos a distância é menor, porque o Exército é bem maior que a Aeronáutica.
Somadas, as três Forças tinham 37.622 mulheres em 2025, 10,9% dos militares. Em 2021 eram 34.227, uma alta de 9,9% em cinco anos, num movimento que tem paralelo nas mulheres no comando na Espanha.
As generais chegaram antes das comandantes de esquadrão
No topo da carreira, as promoções vieram por outro caminho, o dos quadros de saúde. Em 25 de novembro de 2020, a médica Carla Lyrio Martins, diretora do Hospital Central da Aeronáutica, tornou-se a primeira mulher promovida a oficial-general na FAB, no posto de brigadeiro. A Marinha tinha chegado antes, em 2012, com a promoção da médica Dalva Maria Carvalho Mendes a contra-almirante, a primeira mulher oficial-general das Forças Armadas brasileiras.
No Exército, a primeira general foi promovida em 1º de abril de 2026: a coronel médica Cláudia Lima Gusmão Cacho, que assumiu comando em Brasília. Nas duas Forças, a general chegou antes da mulher no comando de tropa ou de avião.
De soldado a adjunto de comando
A abertura também avança na base da pirâmide. Em março de 2026, 1.467 mulheres ingressaram de forma voluntária no primeiro serviço militar inicial feminino: 1.010 no Exército, 300 na FAB e 157 na Marinha, e as primeiras soldados do Exército marcharam no Dia do Soldado.
Na formação de oficiais, a Lei 12.705, de 2012, abriu às mulheres a linha militar bélica do Exército. As primeiras entraram na Escola Preparatória de Cadetes em 2017 e se formaram oficiais pela AMAN em 2021.
Entre as praças, uma primeira-sargento de Saúde tornou-se a primeira mulher nomeada adjunto de comando do Exército, em agosto, no Hospital de Guarnição de João Pessoa. O objetivo do Ministério da Defesa é que as mulheres cheguem a 20% das vagas do alistamento em dez anos.
Vinte e dois anos entre a matrícula e o comando
O prazo tem explicação na própria carreira. O comando de um esquadrão costuma caber a um oficial com mais de duas décadas de serviço, e as primeiras aviadoras só entraram na academia em 2003. O esquadrão que a pioneira comanda opera hoje o KC-390, o cargueiro da Embraer que substituiu o Hércules em que ela foi a primeira mulher habilitada.
Por isso as próximas comandantes devem vir das turmas seguintes, formadas nos anos 2000 e 2010. Pelo histórico da FAB, a presença feminina na Força começou em 1982, a cabine em 2003 e o comando de uma unidade aérea em 2025.