Os escombros de Gaza já somam cerca de 61 milhões de toneladas e transformaram a retirada de destroços em uma operação que pode atravessar boa parte da próxima década. Equipes ligadas à ONU trabalham entre concreto pulverizado, ferragens, prédios instáveis e munições não detonadas, enquanto estimativas citadas pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP) apontam que entre 8 mil e 10 mil corpos ainda podem permanecer sob as ruínas.
Em Tel al-Hawa, na Cidade de Gaza, um trecho da Beirut Street exigiu um dia inteiro de trabalho para ser parcialmente aberto. Segundo reportagem do The Guardian, a via que antes concentrava lojas, escritórios, casas e tráfego intenso ficou tomada por montanhas de concreto, estruturas inclinadas e redes de drenagem destruídas.
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Mesmo depois de mais de dois anos de operações, o avanço ainda representa uma fração pequena do problema. A reportagem cita cerca de 907 mil toneladas removidas e mais de 300 mil toneladas recicladas ou reutilizadas, volume equivalente a aproximadamente 1,5% do total estimado. A ONU calcula que retirar a maior parte dos destroços pode exigir de sete a dez anos, dependendo do acesso a áreas prioritárias, máquinas, combustível e condições de segurança.
Até 10 mil corpos podem continuar sob os escombros de Gaza
A operação inclui uma frente forense para localizar pontos onde restos mortais podem estar soterrados, recuperar os corpos e permitir identificação e sepultamento. Em julho de 2026, o UNDP e a União Europeia anunciaram um projeto de 15 milhões de euros para ampliar a remoção de destroços e fortalecer a capacidade de recuperação e identificação de restos mortais em Gaza.
Cada camada de ruína pode esconder restos humanos, objetos pessoais e partes de casas que ainda pertencem a famílias deslocadas. O UNDP informou que a recuperação exige coordenação com equipes especializadas e instituições como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
Os destroços também podem conter explosivos, amianto, resíduos industriais e material médico. Antes de máquinas entrarem em determinados pontos, equipes do Serviço de Ação contra Minas das Nações Unidas, o UNMAS, fazem avaliações para reduzir o risco de detonações acidentais.
Em abril, a Reuters acompanhou trabalhadores palestinos que quebravam concreto em Khan Younis e relatou que os locais precisavam ser verificados antes da remoção por causa de munições não detonadas.
Sete britadores tentam reduzir uma montanha de 61 milhões de toneladas
O UNDP administra cinco pontos de britagem em Gaza e opera com sete britadores disponíveis no território. Parte dessas máquinas já estava no enclave antes da guerra, e duas precisaram ser reconstruídas por engenheiros locais devido à dificuldade de entrada de equipamentos e peças.
O processo começa com a separação de metais, barras de aço e outros materiais. O concreto é quebrado em fragmentos menores e volta a ser usado para reparar ruas, preencher buracos e preparar o terreno sob tendas e abrigos temporários. O material reciclado também foi empregado em acessos a hospitais, cozinhas comunitárias e áreas de atendimento.

O UNDP calcula que a maior parte dos escombros poderia ser retirada em cerca de sete anos sob condições favoráveis. A projeção exige acesso contínuo às áreas de trabalho, entrada de máquinas pesadas, peças, combustível e um ambiente operacional estável. Em avaliação anterior, a retirada e o reaproveitamento de todo o material chegaram a ser projetados em até 20 anos.
Segundo o Guardian, as equipes já liberaram cerca de 580 quilômetros de vias, abrindo passagem para caminhões de ajuda, equipes de emergência e moradores. Mesmo esse volume de trabalho permanece pequeno diante da quantidade total de concreto espalhada pelo território.

Em abril, a Reuters informou que cerca de 287 mil toneladas haviam sido removidas. Cinco meses depois, o volume citado pelo Guardian já se aproximava de 907 mil toneladas, enquanto mais de 300 mil toneladas haviam sido recicladas e reaproveitadas.
Prédios danificados continuam desabando enquanto a reconstrução avança devagar
Milhares de moradores continuam vivendo em edifícios danificados por falta de alternativas de moradia. Em 16 de setembro de 2026, o edifício Al-Saada, no bairro de Al-Rimal, na Cidade de Gaza, desabou e matou 21 pessoas. Autoridades locais anunciaram depois um plano emergencial para retirar moradores de 255 prédios considerados especialmente perigosos.
A Reuters informou que mais de 2 mil edifícios foram classificados por autoridades locais como estruturas de risco, enquanto o chefe do escritório do UNDP em Gaza estimou cerca de 400 construções com possibilidade elevada de colapso. A falta de equipamento pesado dificulta demolições controladas e também atrasa a retirada de pessoas presas sob estruturas que cedem.
Israel afirma que limita a entrada de determinados equipamentos e materiais por razões de segurança e pelo risco de uso pelo Hamas. Autoridades palestinas e organismos da ONU dizem que as restrições reduzem a capacidade de remover escombros e reconstruir infraestrutura. O acesso a máquinas, materiais e áreas controladas continua diretamente ligado ao ritmo da recuperação.
Uma avaliação conjunta da União Europeia, das Nações Unidas e do Banco Mundial estimou em US$ 71,4 bilhões o custo de recuperação e reconstrução de Gaza ao longo de uma década. Antes que grandes obras avancem, estradas precisam ser abertas, estruturas instáveis avaliadas, explosivos localizados e milhões de toneladas de material retiradas ou reaproveitadas.
Com 61 milhões de toneladas de escombros espalhadas pelo território, a reconstrução começa em tarefas imediatas: liberar uma rua, tornar um hospital acessível, retirar uma estrutura perigosa e identificar quem ainda está sob os destroços. O ritmo dos próximos meses dependerá de segurança, acesso, máquinas e combustível.
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