Com 61 metros de comprimento e 776 toneladas, o La Résolue pertence à Marinha Nacional da França e teve sua entrada em portos e águas jurisdicionais brasileiras formalmente autorizada pelo Estado-Maior da Armada
O navio de guerra francês La Résolue encerra nesta segunda-feira, 14 de setembro, a etapa brasileira de uma passagem que incluiu escalas em Belém, no Pará, e Fortaleza, no Ceará. A presença da embarcação não ocorreu apenas como uma movimentação naval de rotina: a visita precisou ser formalmente autorizada pela Marinha do Brasil para que o navio francês pudesse entrar nos portos e águas jurisdicionais do país.
A autorização aparece no Despacho Decisório MB nº 37, de 10 de setembro de 2026, publicado pelo Estado-Maior da Armada. O documento registra que o pedido partiu da Adidância de Defesa e Naval junto à Embaixada da França no Brasil e classifica expressamente o ato como uma “autorização para visita de Navio de Guerra a Portos e Águas Jurisdicionais Brasileiras”.
Embora o ato brasileiro seja curto, a embarcação que aparece nele chama atenção. Segundo a própria Marinha francesa, os patrulheiros da classe Antilles-Guyane, da qual o La Résolue (P 734) faz parte, medem 61 metros de comprimento, 9,5 metros de largura e deslocam 776 toneladas. A velocidade máxima informada é de 21 nós, com tripulação de 23 marinheiros.
Marinha autorizou duas escalas em sequência no Brasil
O cronograma autorizado mostra uma passagem do navio francês por dois pontos importantes da costa brasileira.
Segundo o despacho do Estado-Maior da Armada, o La Résolue esteve autorizado a visitar Belém entre 5 e 8 de setembro. Depois, o navio teve autorização para permanecer em Fortaleza entre 10 e 14 de setembro de 2026.
Isso coloca justamente esta segunda-feira, 14 de setembro, como o último dia previsto no documento para a escala no Ceará.
Há um detalhe jurídico que passa facilmente despercebido. Não basta um navio militar estrangeiro simplesmente anunciar uma visita a um porto brasileiro. O próprio texto do despacho indica uma sequência normativa para a autorização e cita a Lei Complementar nº 90/1997, com redação dada pela LC nº 149/2015, além de atos do Ministério da Defesa, da Marinha e do próprio Estado-Maior da Armada.
É esse tipo de formalidade que transforma uma escala aparentemente protocolar em um ato de Estado: trata-se de uma embarcação militar estrangeira operando temporariamente dentro de espaços submetidos à jurisdição brasileira.
La Résolue é armado e atua em missões de soberania marítima
O La Résolue não é uma fragata ou um destróier de grande porte, mas um patrulheiro militar projetado para missões de presença e vigilância marítima.
A Marinha francesa informa que os patrulheiros Antilles-Guyane são empregados na vigilância do espaço marítimo, controle de zonas econômicas exclusivas, fiscalização pesqueira e combate a tráficos ilícitos, além da proteção do Centro Espacial da Guiana Francesa.
A embarcação possui um canhão de 20 mm operado remotamente e duas metralhadoras de 12,7 mm, além de radares de navegação, três embarcações rápidas e sistema de comunicações por satélite.
Esse perfil ajuda a entender por que o La Résolue aparece oficialmente no documento brasileiro como navio de guerra, ainda que sua atividade principal seja patrulhamento.
Também há uma conexão regional importante: o navio está associado às forças francesas que operam no eixo Antilhas-Guiana, uma área diretamente conectada ao entorno estratégico brasileiro.
Navio francês já realizou missão incomum pelo rio Amazonas
Esta não é a primeira vez que o La Résolue aparece em águas brasileiras.
Em 2023, a própria Marinha francesa registrou uma missão em que o patrulheiro navegou por águas brasileiras e subiu o rio Amazonas até Manaus. Na ocasião, o navio percorreu cerca de 1.600 milhas náuticas em trânsito fluvial de ida e volta, em uma missão destinada também a reforçar a cooperação com parceiros brasileiros, incluindo militares do 9º Distrito Naval.
Esse antecedente dá outra dimensão à escala de setembro de 2026. O La Résolue não é um visitante completamente estranho à Marinha do Brasil nem ao ambiente amazônico.
A embarcação francesa opera em uma área onde as fronteiras marítimas, o combate a ilícitos e a presença estatal têm peso estratégico para ambos os países. Para o leitor que acompanha defesa naval, esse histórico é mais relevante do que a simples informação de que “um navio chegou ao porto”: mostra uma relação operacional que já teve episódios anteriores dentro do território brasileiro.
Novo despacho substituiu autorização anterior
O documento publicado no Diário Oficial traz ainda um detalhe administrativo: o Despacho Decisório nº 37/2026 revogou o Despacho nº 36/2026.
O ato não explica, no trecho publicado, qual aspecto da autorização anterior precisou ser substituído. Por isso, não é possível afirmar a partir do documento se houve mudança de datas, roteiro, procedimento diplomático ou qualquer outra condição da visita.
O que ficou definitivamente registrado foi o novo cronograma: Belém de 5 a 8 de setembro e Fortaleza de 10 a 14 de setembro.
Com o término da janela autorizada para Fortaleza nesta segunda-feira, encerra-se o período expressamente previsto pelo Estado-Maior da Armada para a presença do La Résolue nos dois portos brasileiros. O despacho, porém, não informa no texto publicado qual será o próximo destino do navio após deixar Fortaleza.