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Estudo brasileiro mostra que o gelo deixou 1,7 km² de terra descoberta desde 2000 na ilha Rei George, onde fica a estação do Brasil na Antártica

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 14/09/2026 às 10:30
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Estudo brasileiro mostra que o gelo deixou 1,7 km² de terra descoberta desde 2000 na ilha Rei George, onde fica a estação do Brasil na Antártica
A frente da geleira Ecology, na ilha Rei George, com o terreno exposto pelo recuo do gelo em primeiro plano. Foto: Acaro (CC BY-SA 3.0).

Um mapa feito com inteligência artificial contou 39.619 icebergs encalhados. A 45ª Operação Antártica sai em outubro com 29 projetos.

Um estudo publicado em setembro contou, pela primeira vez com inteligência artificial, todos os icebergs encalhados ao redor da Antártica: são 39.619, espalhados por mais da metade da costa do continente.

O Brasil faz outro tipo de conta, num pedaço bem menor do gelo. Na ilha Rei George, onde fica a estação brasileira, pesquisadores acompanham desde fotografias de 1956 o recuo das geleiras, e mapearam o chão que o gelo deixou para trás.

O mapa dos 39.619 icebergs

O levantamento foi liderado por Kaihong Jiao, da Universidade da Tasmânia, com equipes do Instituto de Estudos Marinhos e Antárticos, da Divisão Antártica Australiana e do serviço geológico da Austrália. O grupo treinou um sistema de aprendizado profundo para ler imagens do radar do satélite Sentinel-1.

O resultado foi um censo dos icebergs parados, presos ao fundo do mar. Em 2025 eram 39.619, ocupando 13.430 km² ao longo de 57% do litoral antártico, e só 14% da costa concentrava 80% deles, segundo o artigo na Earth System Science Data.

Esses blocos funcionam como uma cerca que segura o gelo marinho no lugar. Até agora, o acompanhamento desses icebergs dependia de análise manual de imagens de satélite. O conjunto de dados foi publicado em acesso aberto para outros pesquisadores.

O que o Brasil mede na ilha Rei George

A ilha Rei George fica no arquipélago das Shetland do Sul, na Antártica Marítima. É ali, na Baía do Almirantado, que funciona a Estação Antártica Comandante Ferraz, base das pesquisas brasileiras no continente. A Península Antártica e as ilhas ao redor estão entre as regiões do planeta que mais aqueceram nas últimas décadas.

Um estudo de pesquisadores da UFRGS, da UFSM e da UFF, publicado em 2020 na Revista de Geociências do Nordeste, analisou as geleiras da ilha com imagens de satélite e fotografias aéreas de 1956 a 2019. O grupo cruzou séries como Landsat, SPOT, TanDEM-X e PlanetScope.

Os pesquisadores contaram 21 geleiras que hoje terminam em terra firme, 31% do total da ilha, e 11 delas ficam na Baía do Almirantado. Um quarto dessas geleiras ainda chegava ao mar em 2000.

Os novos ambientes expostos pelo recuo do gelo, chamados paraglaciais, somam 1,7 km² desde 2000. O estudo registrou ali planícies de lavagem, depósitos de tálus, ravinas e canais de água de degelo junto a geleiras como Ecology, Wanda, Windy, Anna Sul e Baranowski.

Geleiras que recuam desde 1956

Outro trabalho, assinado por pesquisadores ligados ao Centro Polar e Climático da UFRGS, mediu a variação de área das geleiras do campo de gelo Kraków, também na ilha Rei George, entre 1956 e 2017. O artigo saiu em 2019 na revista Caminhos de Geografia.

O resultado aponta recuo contínuo das geleiras ao longo de todo o período, sem fases de avanço. A velocidade do recuo diminuiu para a maioria delas entre 2000 e 2017, mas a tendência de perda de área se manteve.

É um recuo pequeno perto do que acontece nas grandes geleiras do oeste antártico. Na Thwaites, apelidada de geleira do Juízo Final, um submarino robô de € 3,4 milhões mergulhou sob até 500 metros de gelo para estudar o derretimento por baixo e desapareceu sem deixar rastro.

Uma estação a 84 graus Sul

O monitoramento brasileiro não fica só na costa. No verão de 2011 para 2012, uma expedição liderada por pesquisadores brasileiros instalou o módulo Criosfera 1 a 84 graus de latitude Sul, no interior do continente, o laboratório científico latino-americano mais ao sul do planeta.

A estação automática registra dados usados para calibrar e corrigir modelos climáticos globais. Em 2025, outra expedição coordenada pelo glaciologista Jefferson Cardia Simões, da UFRGS, passou 70 dias no mar e percorreu 29 mil quilômetros ao redor da costa antártica.

Mais projetos e mais pesquisadores

O Programa Antártico Brasileiro cresceu nos últimos anos. Para a 45ª Operação Antártica, que começa em outubro de 2026, o CNPq selecionou 29 projetos, em temas como mudanças climáticas e eventos extremos, biodiversidade, ecossistemas terrestres e marinhos, saúde humana e biotecnologia.

O número de pesquisadores passou de 49 na temporada 2021/2022 para 185 na de 2025/2026, e a participação feminina subiu de 15 para 88 pesquisadoras. A 42ª operação, em 2023, apoiou 23 projetos, e a 44ª, 26. Em agosto, o país voltou à direção do conselho internacional dos programas antárticos.

Quem leva os cientistas até o gelo

A logística é da Marinha. O Navio Polar Almirante Maximiano e o Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel fazem as operações anuais, levando pesquisadores, combustível e carga para a estação e para os acampamentos. Os dois saem do Rio de Janeiro e atravessam o Atlântico Sul até a Baía do Almirantado.

A Força Aérea completa o transporte com voos de apoio, e em 2026 um KC-390 bateu recorde de carga lançada no continente. Sem navio e sem avião militar, nenhuma das medições nas geleiras seria possível.

Duzentos e trinta e oito campos de futebol

Os 1,7 km² de terreno novo equivalem a cerca de 238 campos de futebol oficiais, de 105 por 68 metros, surgidos em menos de duas décadas numa única ilha. É uma área pequena perto dos 13.430 km² de icebergs encalhados, mas foi medida por brasileiros, no quintal da própria estação.

Quando os navios da Marinha partirem em outubro, os pesquisadores da nova operação vão encontrar uma Baía do Almirantado com menos gelo do que mostravam as fotografias de 1956.

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