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Ração de combate do militar brasileiro entrega 3.600 calorias para 24 horas e pode chegar a 4.900 kcal quando o corpo enfrenta operações de maior exigência física

Felipe Alves da Silva
Por Felipe Alves da Silva 14/09/2026 às 14:25
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Ração de combate do militar brasileiro entrega 3.600 calorias para 24 horas e pode chegar a 4.900 kcal quando o corpo enfrenta operações de maior exigência física
Ração operacional é dimensionada para fornecer energia e nutrientes a militares submetidos a diferentes níveis de exigência física durante operações.

Nova regra nutricional das Forças Armadas estabelece quanto de energia, carboidrato, proteína, gordura, fibras, vitaminas e minerais deve chegar ao combatente quando uma missão impede o acesso à alimentação convencional

Uma mochila militar carregada para um dia de operação não transporta apenas munição, água, equipamentos e material individual. Quando não existe cozinha disponível, restaurante, rancho ou estrutura capaz de fornecer uma refeição convencional, parte daquele peso passa a ter outra função: manter um organismo submetido a deslocamentos, calor, terreno difícil e esforço físico alimentado durante horas.

A referência atualmente estabelecida pelo Ministério da Defesa para uma Ração Operacional de 24 horas, a RO-24, é de 3.600 kcal. Para períodos menores, são 1.800 kcal na RO-12 e 1.100 kcal na RO-6. A própria norma admite variação de 10% para mais ou para menos, conforme o cardápio e a situação operacional.

O número mais interessante, porém, aparece logo depois.

Em determinadas operações especializadas, a necessidade energética diária pode alcançar 4.900 kcal. Nesses casos, a solução prevista é recorrer a rações específicas ou acrescentar itens de alta densidade energética, como concentrados alimentares.

Não se trata, portanto, de simplesmente colocar alimentos duráveis dentro de um saco. A alimentação operacional é montada para responder a uma pergunta muito próxima daquela feita por atletas de endurance: quanta energia um corpo precisa receber para continuar produzindo trabalho durante várias horas sem perder rendimento?

Das 3.600 calorias, até 65% podem vir de carboidratos

A distribuição dos macronutrientes mostra claramente essa preocupação com desempenho.

Pela Portaria GM-MD nº 3.751/2025, que passou a estabelecer os requisitos técnicos das rações operacionais individuais das Forças Armadas, 45% a 65% do valor energético devem vir de carboidratos. As proteínas devem representar entre 15% e 25%, enquanto as gorduras ficam entre 20% e 35%.

Em uma ração de referência com 3.600 kcal, isso significa que uma parcela considerável da energia disponível ao militar pode estar concentrada justamente no nutriente mais associado ao abastecimento energético durante esforço físico.

O Ministério da Defesa também orienta que, quando possível, sejam priorizados carboidratos complexos, reduzindo grandes picos glicêmicos, prolongando a sensação de saciedade e favorecendo a permanência do militar em atividade. Entre os itens complementares previstos aparecem biscoitos, torradas, mel, cereais, geleias, frutas liofilizadas, rapadura, barras de cereais e outros alimentos capazes de aumentar rapidamente a oferta energética.

Essa composição ajuda a entender por que comparar uma ração operacional com uma refeição comum pode produzir uma impressão errada. O objetivo não é montar o prato mais parecido possível com aquele servido em casa. O objetivo é transportar energia suficiente, em alimentos resistentes e consumíveis em campanha, sem adicionar peso e volume desnecessários ao equipamento individual.

A própria especificação determina que volume e peso sejam considerados prioritariamente no desenvolvimento da ração, buscando a menor e mais leve solução possível que ainda satisfaça as necessidades do militar.

Proteína ajuda a preservar o corpo enquanto a missão cobra energia

A presença de 15% a 25% de proteínas também não aparece por acaso.

Operações prolongadas podem combinar marcha, transporte de equipamento, privação de sono, calor ou frio, esforço muscular repetitivo e disponibilidade limitada de alimentação. O problema deixa de ser apenas sentir fome. Uma ingestão insuficiente durante vários dias pode produzir perda de desempenho e comprometer a recuperação física.

A nova Doutrina de Alimentação e Nutrição das Forças Armadas, aprovada em 2026, reconhece que o gasto energético dos combatentes é elevado durante operações e relaciona diretamente a alimentação à resiliência física e cognitiva dos militares. O documento determina que intensidade da missão, duração, terreno, clima, altitude e perfil dos efetivos sejam considerados no planejamento nutricional.

O texto vai além e recomenda acompanhamento nutricional em campo para prevenir fadiga, perda de massa magra, hiponatremia e imunodepressão decorrente de restrição alimentar. Também admite suplementos calórico-proteicos e repositores hidroeletrolíticos quando as exigências da operação justificarem seu emprego.

É um detalhe que muda a maneira de enxergar a ração de combate. Ela não existe apenas para impedir que o militar fique com fome. Existe para tentar impedir que o déficit energético comece a cobrar do próprio corpo a energia que a missão exige.

Até o sódio da ração é pensado para quem vai suar mais

Um dos pontos mais curiosos da especificação brasileira aparece nos minerais.

A RO-24 estabelece como referência 2.300 mg de sódio, além de 3.400 mg de potássio, 410 mg de magnésio, 1.000 mg de cálcio, 8 mg de ferro e 25 a 30 gramas de fibras. Há ainda valores mínimos para vitaminas A, C, D, E, K e diferentes vitaminas do complexo B.

O próprio Ministério da Defesa reconhece que o teor de sódio da ração de 24 horas fica acima da recomendação geral da Organização Mundial da Saúde, mas apresenta uma justificativa específica para o ambiente operacional: atividades intensas aumentam a sudorese e a perda de eletrólitos.

Em ambientes quentes e úmidos, a norma admite inclusive a inclusão de quantidades adicionais de repositores hidroeletrolíticos.

É talvez o ponto em que a diferença entre alimentação cotidiana e alimentação operacional fique mais evidente. Uma recomendação construída para a população em geral não é automaticamente transplantada para um indivíduo que pode passar horas marchando, carregando peso e suando em ambiente hostil.

A alimentação acompanha o trabalho que o corpo terá de realizar.

Quatro refeições precisam sobreviver sem geladeira e continuar comestíveis até frias

As 3.600 kcal da RO-24 são distribuídas em quatro momentos: desjejum, almoço, jantar e ceia. Na RO-12 são duas refeições; na RO-6, apenas uma refeição principal acompanhada de itens complementares e acessórios.

Os pratos principais utilizam alimentos termoprocessados e esterilizados em embalagens flexíveis de alta barreira, conhecidas como retort pouch. As porções principais ficam normalmente entre 200 e 350 gramas cada, embora esse intervalo possa ser adaptado pelas Forças.

Há uma exigência que ajuda a explicar o tipo de alimento escolhido: o prato principal precisa continuar palatável e nutritivo mesmo sem aquecimento.

Isso significa que, se a situação não permitir parar e preparar uma refeição quente, o conteúdo ainda deve poder ser ingerido diretamente. Para circunstâncias normais, a RO também pode trazer um sistema portátil de aquecimento capaz de elevar a temperatura dos alimentos e das bebidas quentes.

As embalagens são projetadas para resistir ao tratamento térmico e devem ter vedação hermética. Alimentos corretamente processados e armazenados entre 25 °C e 30 °C precisam conservar suas características por pelo menos 18 meses após o recebimento.

Ou seja: densidade calórica é apenas uma parte do problema. A mesma refeição precisa entregar energia, sobreviver ao transporte, dispensar refrigeração, resistir durante meses e continuar consumível em uma situação na qual até aquecer comida pode ser inviável.

Uma ração de 4.900 kcal não significa que todo militar precise comer 4.900 calorias

Esse é um ponto importante.

A norma não diz que todo militar brasileiro precisa ingerir 4.900 kcal por dia. A referência para a RO-24 convencional é de 3.600 kcal, destinada a missões rotineiras de treinamento, operações de paz e atuação em calamidades. As 4.900 kcal aparecem como uma demanda possível de operações especializadas, não como uma dieta diária universal.

A doutrina publicada em 2026 reforça essa individualização ao determinar que sejam considerados faixa etária, sexo, composição corporal, necessidades fisiológicas, terreno, clima e intensidade da missão na elaboração de protocolos alimentares.

Também há outro problema que números impressos na embalagem não resolvem: o militar precisa efetivamente comer aquilo que recebeu.

O Ministério da Defesa alerta que monotonia alimentar, baixa aceitação ou subconsumo podem diminuir o aporte nutricional mesmo quando a quantidade teoricamente disponível é suficiente. Por isso, recomenda variedade de cardápios, testes durante exercícios e atenção às preferências regionais e sensoriais.

Esse talvez seja o desafio menos óbvio de uma ração de combate. Não basta conseguir colocar milhares de calorias dentro de embalagens pequenas. É necessário criar algo que um militar cansado, sob calor, frio, pressão e esforço físico realmente esteja disposto a consumir.

A Revista Sociedade Militar já mostrou anteriormente como funciona uma ração operacional de 24 horas utilizada pela Marinha do Brasil. O novo padrão conjunto permite observar o tema por outro ângulo: não apenas o que existe dentro da embalagem, mas quanto combustível o organismo humano pode exigir para continuar funcionando quando a rotina deixa de parecer uma rotina comum e passa a exigir milhares de calorias por dia.

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