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O piloto norte-coreano que fugiu num MiG-19 em 1983 recebeu o equivalente a 78 apartamentos e morreu aos 48 anos sem ter gastado um centavo

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 04/09/2026 às 14:00
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O piloto norte-coreano que fugiu num MiG-19 em 1983 recebeu o equivalente a 78 apartamentos e morreu aos 48 anos sem ter gastado um centavo
Um caça de linhas antigas voa muito baixo sobre campos cobertos de neve, deixando esteira de vapor atrás das asas. Imagem ilustrativa gerada por IA.

Ele voou baixo para escapar do radar e balançou as asas para não ser abatido. Guardou a recompensa inteira para usar com a família depois da reunificação.

Em fevereiro de 1983, um capitão da Força Aérea da Coreia do Norte pousou um caça soviético em território sul-coreano e recebeu do governo de Seul 1,56 bilhão de wons. Era dinheiro suficiente, na época, para comprar cerca de 78 apartamentos num dos conjuntos residenciais mais conhecidos da capital.

Ele morreu dezenove anos depois, aos 48 anos, sem ter gastado um centavo daquilo. O detalhe voltou a circular nesta semana, quando um programa da televisão sul-coreana contou o que ele pretendia fazer com o dinheiro.

A manhã em que ele sumiu do radar

O piloto se chamava Lee Ung-pyeong e tinha 28 anos. Em 25 de fevereiro de 1983, decolou de uma base perto de Pyongyang para o que deveria ser um voo de treinamento de rotina, num MiG-19 de fabricação chinesa.

Vinha pensando em fugir havia três anos. Naquele dia, em vez de cumprir o perfil previsto, desceu para voar baixo, colado ao terreno, para escapar da cobertura dos radares do próprio país.

Cruzou a Zona Desmilitarizada pela costa oeste. Ao ser detectado pelos interceptadores sul-coreanos, fez o gesto que o manual internacional reserva para essa situação: balançou as asas, sinalizando que não vinha atacar.

Aquela mesma faixa de terra continua sendo atravessada. Em 2024, um soldado cruzou um campo minado a pé para chegar ao Sul, no terceiro caso registrado em apenas duas semanas.

Dois riscos ao mesmo tempo

O que torna a manobra notável é que ela precisava enganar um lado e convencer o outro na mesma passagem. Voar baixo resolvia o problema do radar norte-coreano, mas entregava a aeronave à defesa antiaérea do Sul num corredor de poucos minutos.

Naquela fronteira, um caça não identificado vindo do norte em rota direta é tratado como ataque até prova em contrário. O balançar de asas era a única prova disponível, e tinha que ser lido corretamente na primeira tentativa.

O avião que ele pilotava era um projeto dos anos 1950. Caças soviéticos daquela geração atravessaram décadas em serviço mundo afora, e o MiG-21, sucessor direto, só foi aposentado pela Índia em 2025.

O que a recompensa valia

O valor pago foi de 1,56 bilhão de wons. Traduzir isso em poder de compra ajuda mais que a conversão cambial: dava para comprar em torno de 78 apartamentos no conjunto Eunma, em Seul, referência de mercado imobiliário na cidade até hoje.

Recompensas desse tipo existiam por uma razão prática. Um caça inimigo entregue intacto vale muito mais do que o preço da aeronave: vem com manuais, rádio, sistema de identificação e, principalmente, com um piloto disposto a explicar como tudo aquilo funciona.

O programa da emissora SBS que revisitou o caso nesta semana revelou o destino do dinheiro. Ele não comprou nada. Guardou tudo, com um plano declarado: usar aquilo pela família depois da reunificação da Coreia.

Uma vida inteira esperando uma data

É aí que a história deixa de ser sobre uma fuga e passa a ser sobre o que vem depois dela. Ele recebeu comissão na Força Aérea sul-coreana, entrou como tenente-coronel e chegou a coronel, servindo até o fim da vida.

Também virou peça de propaganda, e não em sentido pejorativo: participou de mais de 900 palestras e eventos por ano, explicando o sistema do Norte a plateias do Sul. Era o rosto mais reconhecível de quem tinha atravessado.

Nesse arranjo, a fortuna intocada funcionava como aposta. Enquanto o dinheiro ficasse parado, a reunificação seguia sendo um evento futuro e não uma hipótese abandonada.

A conta que ficou do outro lado

Quem foge de um regime fechado raramente foge sozinho, no sentido das consequências. A família que permanece responde pela ausência, e isso não é suposição: é parte conhecida do funcionamento do sistema norte-coreano.

No caso dele, a notícia chegou anos depois. A irmã havia sido internada num campo de prisioneiros políticos.

A saúde dele piorou a partir dali. Morreu em 2002, aos 48 anos, de agravamento de cirrose hepática, com o dinheiro ainda intacto e a fronteira exatamente onde estava em 1983.

O caminho que continua sendo tentado

Quatro décadas depois, a travessia mudou de forma mas não desapareceu. Mudou o meio: em vez de aeronave, passou a ser o percurso a pé por terreno minado, de madrugada, com o corpo rente ao chão.

Quem atravessa hoje não leva aeronave nenhuma, e é essa a diferença material. A deserção de um piloto entrega ao outro lado um pedaço da capacidade militar do regime; a de um soldado de fronteira entrega um testemunho, que tem valor mas não paga 78 apartamentos.

Do lado sul, o serviço militar continua alcançando quase todo homem do país, e a fronteira que ele cruzou segue guarnecida dos dois lados. Do lado norte, o regime hoje exporta o que antes só usava em casa: soldados.

O que sobrou da história

O regime que ele deixou mandou nos últimos anos, segundo estimativas ucranianas, até 50 mil soldados para lutar ao lado da Rússia, a milhares de quilômetros da península. É outro país e outro cálculo, feito com a mesma matéria-prima humana.

E o dinheiro de 1983 continua sendo a parte mais estranha do caso. Não foi recusado, não foi doado, não foi gasto. Ficou parado a vida inteira esperando um acontecimento que, quarenta e três anos depois, ainda não aconteceu.