O que realmente aconteceu na fronteira entre Brasil e Argentina durante a madrugada? Um voo que não decolou, informações contraditórias sobre passageiros e relatos de uma operação organizada longe dos olhos das autoridades abriram dúvidas sobre os movimentos de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Agora, uma versão atribuída a pessoas próximas ao senador coloca em questão até mesmo o papel da aeronave que desencadeou as suspeitas.
Governo mobiliza Abin e agentes de fronteira para localizar Flávio
O governo brasileiro acionou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a Polícia Federal e agentes que atuam nas fronteiras para apurar uma possível saída do senador do país.
A informação foi divulgada pelo SBT News, com base em fontes do Ministério da Justiça, que consideravam grande a probabilidade de Flávio ter deixado o território nacional. Naquele momento, porém, não havia confirmação oficial.
A mobilização ocorreu após o parlamentar não comparecer para entregar seus passaportes, apesar de ter informado aos advogados que cumpriria a determinação judicial.
Polícia Federal cancela passaportes após descumprimento de ordem do STF
A Polícia Federal cancelou os passaportes comum e diplomático de Flávio Bolsonaro nesta terça-feira (27).
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), havia determinado a entrega dos documentos em até 24 horas e proibido a saída do senador do Brasil.
O prazo terminou às 11h, sem que Flávio cumprisse a ordem. A corporação também informou que comunicaria o descumprimento ao ministro.
A decisão integra uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o parlamentar e o advogado Willer Tomaz. Flávio nega irregularidades e contesta a medida judicial.
Até então, os investigadores não haviam identificado registros de saída do senador pelos postos regulares de controle migratório.
Michelle Bolsonaro teria confirmado saída do Brasil a aliados
Uma nova informação surgiu durante a tarde.
Michelle Bolsonaro teria confirmado a pelo menos dois aliados que seu enteado deixou o país. O relato foi publicado pelo Metrópoles, com base em pessoas que conversaram com a ex-primeira-dama.
Não se trata de uma declaração pública de Michelle, mas de uma informação atribuída a integrantes de seu entorno.
Em outra reportagem, aliados relataram que Flávio teria viajado com a esposa, Fernanda, e as duas filhas para os Estados Unidos.
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Segundo essas fontes, um grupo restrito teria organizado a viagem, e o senador pretendia solicitar asilo político ao governo de Donald Trump.
O jornal argentino LA NACION também afirmou ter confirmado a saída do Brasil, após consultar uma fonte próxima à família Bolsonaro.
Essa pessoa, entretanto, não revelou o trajeto utilizado. Também não havia confirmação oficial independente da chegada do parlamentar aos Estados Unidos ou da apresentação de um pedido de asilo.
Aliados levantam hipótese de distração com jato privado na Argentina
As primeiras informações sobre um possível deslocamento internacional surgiram durante a madrugada.
A Revista Sociedade Militar já havia noticiado a suspeita de que Flávio atravessara a fronteira para embarcar em um jato privado com destino aos Estados Unidos, com base em informações divulgadas pelo portal argentino Infobae.
A aeronave, operada pela empresa argentina Baires Fly, esteve retida no aeroporto de Puerto Iguazú, na província de Misiones.
Entretanto, surgiu uma explicação diferente.
Segundo aliados ouvidos pela Folha de S.Paulo, Flávio teria saído da Argentina rumo aos Estados Unidos, mas não pelo aeroporto de Puerto Iguazú.
Essas fontes sustentaram que seu nome teria aparecido em uma suposta lista de passageiros como parte de uma manobra de distração, versão também reproduzida pela imprensa argentina.
Não há comprovação independente dessa hipótese, nem informações verificadas sobre quem teria organizado a alegada manobra.
Piloto brasileiro afirma que nome de Flávio aparecia entre quatro passageiros
O relato do piloto brasileiro Mauro Mattosinho acrescentou outro elemento ao episódio.
Em declaração à Folha de S.Paulo, ele afirmou que um funcionário do aeroporto de Puerto Iguazú lhe informou que Flávio Bolsonaro figurava entre quatro passageiros previstos para embarcar no jato privado.
Segundo Mattosinho, a decolagem estava inicialmente prevista para as 2h, mas a aeronave permanecia no aeroporto às 7h.
O piloto relatou ainda que o campo destinado aos documentos de identificação do senador estaria em branco.
A informação, entretanto, chegou a Mattosinho por intermédio de um funcionário não identificado. O piloto não apresentou um manifesto oficial autenticado que comprovasse a presença de Flávio entre os passageiros.
O testemunho, portanto, não demonstra que o parlamentar tenha comparecido ao aeroporto ou embarcado na aeronave.
Fontes da polícia aeroportuária explicam por que voo não decolou
A investigação sobre o jato privado também revelou detalhes sobre a operação prevista em Puerto Iguazú.
Fontes da Polícia de Segurança Aeroportuária argentina (PSA), ouvidas pelo LA NACION, informaram que o avião deveria partir às 2h com quatro passageiros e destino ao aeroporto de Opa-locka, na região de Miami.
Entretanto, a partida não se concretizou porque faltava um dos passageiros previstos, segundo essas fontes.
A aeronave havia chegado de Buenos Aires pouco antes da meia-noite.
O caso ganhou outro desdobramento durante a tarde. O portal argentino Misiones Online informou que o jato privado havia recebido autorização para decolar rumo a Guayaquil, no Equador.
Segundo fontes aeroportuárias citadas pelo veículo, Flávio Bolsonaro seria o único passageiro previsto para essa nova operação, com decolagem anunciada para as 15h15.
A reportagem, porém, não apresentou confirmação documental do embarque nem demonstrou que a aeronave efetivamente decolou com o senador. A informação também não esclarece a divergência entre o destino anunciado, no Equador, e os relatos de uma viagem aos Estados Unidos.
Argentina nega registro de entrada do senador
A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que não encontrou registro de ingresso de Flávio Bolsonaro no território argentino.
Em comunicado divulgado após a repercussão do caso, o órgão explicou que as autoridades realizaram verificações na aeronave e na tripulação.
A documentação da empresa estava regular. Também não havia plano de voo apresentado que incluísse integrantes da família Bolsonaro.
O governo argentino negou ainda ter recebido pedido de asilo do parlamentar.
A ausência de registro migratório não permite estabelecer onde Flávio estava. Por outro lado, impede tratar sua suposta passagem por Puerto Iguazú como uma informação oficialmente confirmada.
Flávio negou intenção de deixar o país; não há ordem de prisão
Na segunda-feira (26), antes da repercussão sobre o jato privado, Flávio Bolsonaro afirmou publicamente que não pretendia sair do Brasil.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, declarou que entregaria seus passaportes e apresentaria sua defesa. Também classificou a medida de Alexandre de Moraes como uma tentativa de intimidação política.
Na manhã seguinte, Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha presidencial, negou que o senador tivesse deixado o território brasileiro.
O parlamentar também conversou com Marinho por volta das 8h, afirmou que estava “esfriando a cabeça” e não respondeu quando foi questionado se continuava no país, segundo o relato publicado.
Apesar do descumprimento da ordem de entrega dos documentos, não havia mandado de prisão contra Flávio. A situação, portanto, não permite classificá-lo automaticamente como foragido.
A Polícia Federal confirmou o descumprimento da determinação judicial e cancelou os passaportes. Enquanto isso, fontes próximas à família relataram uma viagem aos Estados Unidos, mas as autoridades argentinas não registraram a entrada do senador.
O trajeto efetivamente realizado por Flávio Bolsonaro continua sem confirmação oficial independente, assim como o suposto vínculo entre sua viagem e o jato privado retido em Puerto Iguazú.
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