O jato com o número 5539 na cauda saiu de um pacote de US$ 29,4 bilhões; o míssil não tem nome nem preço confirmado, e Riad não disse o que houve com os dois tripulantes.
Os destroços de um caça com a bandeira da Arábia Saudita e o número 5539 na cauda, mostrados pelos houthis em 16 de setembro, indicam a perda de um F-15SA, versão do Eagle comprada pelo reino num pacote de US$ 29,4 bilhões assinado em 2011. O grupo diz ter derrubado o jato sobre a província de Marib, no Iêmen, com um míssil terra-ar de fabricação local, cujo nome não revelou.
Riad não confirmou a perda nem informou o destino dos dois tripulantes, segundo a CNN, que geolocalizou o ponto da queda em Marib. A Janes classificou o caso como a primeira perda em combate de um Advanced Eagle, nome da família de F-15 de exportação à qual o modelo saudita pertence.
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A cauda com o número 5539
O vídeo de cerca de três minutos, publicado pelos houthis no X, mostra um míssil subindo no céu noturno, uma imagem infravermelha do impacto e destroços em chamas no escuro, segundo a revista britânica Key.Aero. Em seguida aparecem, já de dia, homens armados erguendo a deriva com a bandeira saudita e o número 5539.
A Janes identificou o modelo pelas aberturas dos sensores de guerra eletrônica e de alerta de mísseis na base da deriva, exclusivas do F-15SA. O analista militar da CNN Cedric Leighton, coronel da reserva da Força Aérea dos EUA, disse que as marcas na cauda são compatíveis com as do F-15SA saudita.
O site belga Army Recognition associa o número 5539 ao 55º Esquadrão, sediado na Base Aérea Rei Khalid, em Khamis Mushait. Segundo o mesmo site, esse avião não saiu novo da fábrica: era um F-15S antigo convertido ao padrão SA, e por isso não se pode presumir que tivesse exatamente os mesmos sensores e software dos jatos novos.
O segundo F-15 derrubado por fogo inimigo nesta guerra
Se a perda for confirmada, será apenas a segunda vez que um F-15 de fabricação americana é derrubado por fogo inimigo, segundo a CNN. A primeira foi a de um F-15E Strike Eagle da Força Aérea dos EUA, abatido por forças iranianas no início da guerra com o Irã.
Naquele caso, uma operação de resgate recuperou a tripulação, mas custou vários aviões americanos, destruídos depois de ficarem presos num ponto de pouso no deserto, de acordo com a CNN. A rede lembra que outros três F-15 dos EUA caíram por fogo amigo do Kuwait nas primeiras fases do conflito.
Um pacote de US$ 29,4 bilhões fechado em Riad
Em 24 de dezembro de 2011, em Riad, Estados Unidos e Arábia Saudita fecharam a carta de oferta e aceitação para até 84 F-15SA novos e a modernização de 70 F-15 já em serviço, com munição, peças, treinamento e logística. O valor anunciado foi de US$ 29,4 bilhões, cerca de R$ 146,6 bilhões pela PTAX de venda de 5 de outubro de 2026 (R$ 4,9859), em valor nominal de 2011.
Os números foram apresentados em entrevista no Departamento de Estado por Andrew Shapiro, então secretário assistente de Assuntos Político-Militares, e James Miller, do Pentágono. Miller disse que o F-15SA seria “o avião mais capaz e versátil” do inventário de caças sauditas, com radar de varredura eletrônica ativa e mísseis AMRAAM e AIM-9X.
A previsão era entregar o primeiro jato novo no início de 2015. Os últimos F-15SA novos chegaram ao reino em 10 de dezembro de 2020, segundo a Key.Aero.
Quanto custa cada avião, e por que a conta engana
Nem o governo americano nem a Boeing divulgaram um preço unitário do F-15SA. O pacote de US$ 29,4 bilhões também paga a modernização da frota antiga, o armamento, o treinamento de pessoal e o apoio logístico, e nenhum documento público separa a parcela de cada aeronave.
Uma frota de 152 jatos no papel
Somando os 84 novos aos F-15S convertidos, a Real Força Aérea Saudita teria uma frota nominal de 152 F-15SA, segundo a Army Recognition, que conta 68 conversões em vez das 70 previstas em 2011. O site ressalva que esse total não desconta as perdas acumuladas desde então.
O F-15SA deriva do F-15E Strike Eagle americano, que estreou em combate na Guerra do Golfo de 1991, segundo a CNN. Tem radar AN/APG-63(V)3, sensor infravermelho de busca e rastreio, alerta de mísseis AN/AAR-57 e lançadores de chaff e flare, de acordo com a Army Recognition.
A derrubada acontece num momento de avanço dos houthis contra o governo iemenita apoiado por Riad. Na semana anterior, o grupo tomou uma cidade portuária no Mar Vermelho e uma ilha perto de uma rota de exportação de petróleo saudita, e ampliou os ataques contra a Arábia Saudita, segundo a CNN.
Um míssil sem nome
Em nota, os houthis disseram apenas que o jato foi derrubado por um míssil terra-ar de fabricação local quando fazia operações hostis sobre Marib. Para a Army Recognition, a falta de nome torna prematuro atribuir o disparo ao iraniano AD-08 Majid ou a qualquer outra arma específica.
O vídeo do disparo mostra cerca de 24 segundos entre o lançamento e o impacto, o que corresponde a uma trajetória de 15,6 a 20,4 quilômetros, pelas contas do site. Esse tempo é difícil de conciliar com mísseis de curto alcance como o Igla, o Strela, o R-60, o Thaqib-1 (derivado do russo R-73) ou o Majid, diz a análise.
A Army Recognition cita como compatíveis com essa distância o Thaqib-2, derivado do russo R-27, o Saqr/358 e os Barq-1 e Barq-2, estes com alcance nominal perto de 50 e 70 quilômetros. O próprio site ressalva que alcance compatível não prova qual arma foi usada.
Rastreio por calor, sem radar ligado
A imagem de mira sugere rastreio térmico passivo, sem emissão de radar, segundo a Army Recognition. Os houthis já adaptaram torres eletro-ópticas Ultra-8500, entregues ao Iêmen em 2008, que enxergam um caça do porte do F-15 a 20 ou 30 quilômetros, e a tela de setembro pode ser compatível com o sensor iraniano Sadid.
Sem radar no ar, o sistema de alerta do caça não teria o que detectar antes do lançamento. A tripulação reagiu mesmo assim: o vídeo mostra mudança de rumo, cerca de cinco disparos de contramedidas e o uso do pós-combustor antes do impacto, que parece atingir a parte dianteira do avião.
Se fosse o 358, a diferença de preço
O 358 é um míssil iraniano que voa com motor a jato e procura alvos pelo calor. Em abril de 2026, o jornal South China Morning Post citou estimativas de US$ 30 mil a US$ 90 mil por unidade, entre R$ 149,6 mil e R$ 448,7 mil pela PTAX de 5 de outubro.
Nenhuma das fontes consultadas deu preço para os Barq ou os Thaqib. Qualquer comparação de preço entre o caça e o míssil depende de uma identificação que ninguém confirmou.
Três ataques anteriores a F-15 sauditas sobre o Iêmen
Em 8 de janeiro de 2018, um F-15 saudita foi atingido ou danificado por um míssil houthi, sem confirmação de que tenha sido destruído, segundo a Army Recognition. Em 21 de março do mesmo ano, outro foi alvo de um míssil sobre Saada, e Riad disse que o caça voltou à base e pousou em segurança.
Em 26 de março de 2015, um F-15S caiu no Golfo de Áden no início da Operação Tempestade Decisiva. Os dois tripulantes se ejetaram e foram resgatados por um helicóptero HH-60G americano, e a causa ficou entre fogo inimigo e falha técnica.
O porta-voz militar houthi, Yahya Saree, falou em mais de 450 ataques de F-15 e Typhoon sauditas numa só semana, a partir de Khamis Mushait e Taif. Para a Army Recognition, rotas repetidas sobre Marib podem ter dado às equipes antiaéreas tempo para esperar o 5539, cujos dois tripulantes seguem sem notícia oficial.