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Os militares que ganharam o Nobel da Paz e o marechal brasileiro que Einstein recomendou

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 06/10/2026 às 08:29
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Os militares que ganharam o Nobel da Paz e o marechal brasileiro que Einstein recomendou
Retrato do general George C. Marshall, do Exército dos Estados Unidos, de farda com as quatro estrelas de general. Acervo da Biblioteca do Congresso dos EUA, via Wikimedia Commons, domínio público.

Rondon teve dez indicações formais, em 1953 e 1957, e nenhuma delas é a carta do físico, que o arquivo do Nobel não registra.

Pelo menos quatro ganhadores do Nobel da Paz vestiram farda de exército regular antes do prêmio, segundo as biografias publicadas pela Fundação Nobel: o dinamarquês Fredrik Bajer, em 1908, o general americano George Marshall, em 1953, o egípcio Anwar Sadat, em 1978, e o israelense Yitzhak Rabin, em 1994. Um militar brasileiro chegou perto: o marechal Cândido Rondon recebeu dez indicações, em 1953 e 1957, e uma recomendação de Albert Einstein, mas nunca levou o prêmio.

O assunto volta nesta semana: a Fundação Nobel anuncia os prêmios de 2026 entre 5 e 12 de outubro, e o da Paz sai em Oslo. Nenhum brasileiro ganhou o Nobel da Paz até hoje.

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Farda de exército regular na biografia oficial

O critério usado aqui é simples: entra quem tem, na biografia publicada pela própria Fundação Nobel, serviço como oficial ou combatente de um exército regular. Cargo civil ligado à defesa, como ministro, não conta, e milícia clandestina também fica de fora.

Por essa régua, quatro laureados da Paz passam sem dúvida: George Marshall, Anwar al-Sadat, Yitzhak Rabin e Fredrik Bajer. Outros três laureados, Menachem Begin, Theodore Roosevelt e Juan Manuel Santos, foram avaliados e ficaram de fora, pelos motivos explicados adiante.

A régua também deixa de fora quem chefiou governo em tempo de guerra sem ter servido em armas e quem tem passagem militar que a biografia oficial do prêmio não registra. Cada caso abaixo traz o posto, a guerra e o motivo do prêmio tal como a Fundação Nobel os descreve.

Os capacetes azuis premiados em 1988, com brasileiros no Sinai

Antes dos indivíduos, há um prêmio coletivo. Em 1988 o Nobel da Paz foi para as Forças de Paz das Nações Unidas, “por evitar confrontos armados e criar condições para negociações”, e o comitê disse que premiava os militares que serviram como observadores e soldados da ONU. Entre 1948 e 1988, mais de 500 mil pessoas de 53 países participaram dessas missões, e 733 morreram, segundo a Fundação Nobel.

Até 1988, essas forças tinham ido ao Oriente Médio, à Caxemira, a Chipre, ao Congo e à Nova Guiné Ocidental. Ficavam sob o comando do secretário-geral da ONU, eram cedidas voluntariamente pelos países e, exceto no Congo, levavam só armas leves de autodefesa. A tarefa era informar sobre as áreas de crise, criar zonas de separação, manter contato entre as partes e fiscalizar armistícios, segundo a fundação.

A Fundação Nobel não publica a lista dos 53 países. No Oriente Médio, o Brasil manteve o Batalhão Suez entre 1957 e 1967, na força da ONU que separava egípcios e israelenses.

Em janeiro de 1957, o primeiro grupo brasileiro a embarcar para Gaza era formado por oitenta desminadores. Pelo critério do comitê, eles e os contingentes que vieram depois estão entre os homenageados de 1988.

George Marshall, o general do Plano Marshall

O caso mais claro é o do general George Marshall, do Exército dos Estados Unidos, Nobel da Paz de 1953 “por propor e supervisionar o plano de recuperação econômica da Europa”. Segundo a Fundação Nobel, ele começou a carreira em 1902, nas forças americanas de ocupação nas Filipinas, e treinou tropas na Europa durante a Primeira Guerra Mundial.

O presidente Franklin Roosevelt o nomeou chefe do Estado-Maior em 1939. Na Segunda Guerra, Marshall foi o principal responsável pelo planejamento americano, idealizou a invasão da Normandia, em 1944, e deu as ordens para o uso das bombas atômicas no Japão depois do aval do presidente Harry Truman.

Como secretário de Estado, a partir de 1947, desenhou com Truman o socorro econômico à Europa. Encerrou cinquenta anos de serviço público como secretário de Defesa, em 1951, dois anos antes do prêmio.

Bajer, o oficial dinamarquês que largou a farda

O primeiro militar da lista é bem mais antigo. Filho de pastor, o dinamarquês Fredrik Bajer decidiu cedo seguir a carreira de oficial e lutou na guerra entre Dinamarca e Alemanha, em 1864, segundo a Fundação Nobel.

Deixou as forças no ano seguinte, desiludido com a vida militar, e passou a se dedicar à causa da paz como deputado. A fundação credita a ele a criação do Bureau Internacional da Paz, em 1891, e ele dividiu o Nobel de 1908.

Sadat foi premiado com Begin, que fica fora da lista

O egípcio Anwar al-Sadat teve formação militar, lutou contra o domínio britânico durante a Segunda Guerra e passou anos preso. Depois do conflito, juntou-se aos oficiais que, liderados por Gamal Abdel Nasser, derrubaram o rei Farouk em 1952, segundo a Fundação Nobel.

Presidente do Egito, dividiu o Nobel de 1978 com o primeiro-ministro israelense Menachem Begin, pelo acordo de paz entre os dois países. Sadat foi assassinado no Cairo em 6 de outubro de 1981, há exatos 45 anos, por opositores da reconciliação com Israel.

Begin não entra na conta. Antes de Israel existir, ele liderou a Irgun, organização que, segundo a biografia oficial, recorreu ao terror contra as autoridades britânicas e contra árabes da Palestina e chegou a combater o exército israelense.

Rabin chegou a chefe do Estado-Maior de Israel

Yitzhak Rabin é descrito pela Fundação Nobel como “o soldado que se tornou primeiro-ministro”. Nascido em Jerusalém em 1922, lutou ao lado dos britânicos na Segunda Guerra, combateu na guerra de 1948 e terminou a carreira como chefe do Estado-Maior do exército israelense.

Primeiro-ministro desde 1992, aprovou os Acordos de Oslo e dividiu o Nobel de 1994 com Shimon Peres e Yasser Arafat. Foi assassinado em novembro de 1995 por um extremista religioso que via o acordo como traição.

Roosevelt e Santos ficam de fora pelo critério

O americano Theodore Roosevelt ganhou em 1906 por mediar o fim da guerra entre Rússia e Japão. A biografia oficial não registra posto militar e diz apenas que ele tentou, sem sucesso, servir como oficial na Primeira Guerra Mundial.

O colombiano Juan Manuel Santos, Nobel de 2016 pelo acordo com as Farc, foi ministro da Defesa e intensificou a guerra contra a guerrilha, segundo a fundação. Ministro é cargo civil, e a página oficial não menciona serviço em armas.

Dez indicações para o general brasileiro

O arquivo da Fundação Nobel registra Rondon como “general e filantropo brasileiro”, nascido em 1865 e morto em 1958. As quatro indicações de 1953 vieram de Emily Greene Balch, Alvaro de Souza Lima, Damião Peres e Jean Silvandre, justamente no ano em que Marshall levou o prêmio.

Em 1957 foram seis, assinadas por Nerev Ramos, Mario Faria, Henry de Vries, Raul Bittencourt, de novo Damião Peres, e Cesar Salaya, professor de Direito da Universidade de Havana. A indicação de Salaya cita o trabalho humanitário com os povos indígenas e o esforço para restabelecer a paz no conflito de Letícia, entre Peru e Colômbia.

A trajetória do militar que saiu do sertão até essas indicações não muda com o arquivo. O que ele acrescenta são os nomes de quem assinou e o fato de que todas as indicações formais são da década de 1950.

A carta de Einstein que o arquivo não conta

Einstein passou pelo Brasil em 1925 e, segundo o estudo “Rondon, Einstein’s Letter and the Nobel Peace Prize”, escreveu ao Comitê Nobel norueguês para recomendar Rondon pelo trabalho de pacificação com os indígenas. A carta não aparece entre as dez indicações do arquivo, que não tem nenhum registro de Rondon em 1925.

Por isso o verbo seguro é recomendar. O mesmo estudo conclui que Rondon teve indicações suficientes para ser premiado mesmo sem contar a carta de Einstein, e que o físico indicou outros onze cientistas ao Nobel, todos depois laureados.

O brasileiro morreu em 1958 sem o prêmio que Marshall, Sadat, Rabin e Bajer receberam. Das dez assinaturas guardadas em Oslo, nenhuma é a de Einstein.

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