Rondon teve dez indicações formais, em 1953 e 1957, e nenhuma delas é a carta do físico, que o arquivo do Nobel não registra.
Pelo menos quatro ganhadores do Nobel da Paz vestiram farda de exército regular antes do prêmio, segundo as biografias publicadas pela Fundação Nobel: o dinamarquês Fredrik Bajer, em 1908, o general americano George Marshall, em 1953, o egípcio Anwar Sadat, em 1978, e o israelense Yitzhak Rabin, em 1994. Um militar brasileiro chegou perto: o marechal Cândido Rondon recebeu dez indicações, em 1953 e 1957, e uma recomendação de Albert Einstein, mas nunca levou o prêmio.
O assunto volta nesta semana: a Fundação Nobel anuncia os prêmios de 2026 entre 5 e 12 de outubro, e o da Paz sai em Oslo. Nenhum brasileiro ganhou o Nobel da Paz até hoje.
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Farda de exército regular na biografia oficial
O critério usado aqui é simples: entra quem tem, na biografia publicada pela própria Fundação Nobel, serviço como oficial ou combatente de um exército regular. Cargo civil ligado à defesa, como ministro, não conta, e milícia clandestina também fica de fora.
Por essa régua, quatro laureados da Paz passam sem dúvida: George Marshall, Anwar al-Sadat, Yitzhak Rabin e Fredrik Bajer. Outros três laureados, Menachem Begin, Theodore Roosevelt e Juan Manuel Santos, foram avaliados e ficaram de fora, pelos motivos explicados adiante.
A régua também deixa de fora quem chefiou governo em tempo de guerra sem ter servido em armas e quem tem passagem militar que a biografia oficial do prêmio não registra. Cada caso abaixo traz o posto, a guerra e o motivo do prêmio tal como a Fundação Nobel os descreve.
Os capacetes azuis premiados em 1988, com brasileiros no Sinai
Antes dos indivíduos, há um prêmio coletivo. Em 1988 o Nobel da Paz foi para as Forças de Paz das Nações Unidas, “por evitar confrontos armados e criar condições para negociações”, e o comitê disse que premiava os militares que serviram como observadores e soldados da ONU. Entre 1948 e 1988, mais de 500 mil pessoas de 53 países participaram dessas missões, e 733 morreram, segundo a Fundação Nobel.
Até 1988, essas forças tinham ido ao Oriente Médio, à Caxemira, a Chipre, ao Congo e à Nova Guiné Ocidental. Ficavam sob o comando do secretário-geral da ONU, eram cedidas voluntariamente pelos países e, exceto no Congo, levavam só armas leves de autodefesa. A tarefa era informar sobre as áreas de crise, criar zonas de separação, manter contato entre as partes e fiscalizar armistícios, segundo a fundação.
A Fundação Nobel não publica a lista dos 53 países. No Oriente Médio, o Brasil manteve o Batalhão Suez entre 1957 e 1967, na força da ONU que separava egípcios e israelenses.
Em janeiro de 1957, o primeiro grupo brasileiro a embarcar para Gaza era formado por oitenta desminadores. Pelo critério do comitê, eles e os contingentes que vieram depois estão entre os homenageados de 1988.
George Marshall, o general do Plano Marshall
O caso mais claro é o do general George Marshall, do Exército dos Estados Unidos, Nobel da Paz de 1953 “por propor e supervisionar o plano de recuperação econômica da Europa”. Segundo a Fundação Nobel, ele começou a carreira em 1902, nas forças americanas de ocupação nas Filipinas, e treinou tropas na Europa durante a Primeira Guerra Mundial.
O presidente Franklin Roosevelt o nomeou chefe do Estado-Maior em 1939. Na Segunda Guerra, Marshall foi o principal responsável pelo planejamento americano, idealizou a invasão da Normandia, em 1944, e deu as ordens para o uso das bombas atômicas no Japão depois do aval do presidente Harry Truman.
Como secretário de Estado, a partir de 1947, desenhou com Truman o socorro econômico à Europa. Encerrou cinquenta anos de serviço público como secretário de Defesa, em 1951, dois anos antes do prêmio.
Bajer, o oficial dinamarquês que largou a farda
O primeiro militar da lista é bem mais antigo. Filho de pastor, o dinamarquês Fredrik Bajer decidiu cedo seguir a carreira de oficial e lutou na guerra entre Dinamarca e Alemanha, em 1864, segundo a Fundação Nobel.
Deixou as forças no ano seguinte, desiludido com a vida militar, e passou a se dedicar à causa da paz como deputado. A fundação credita a ele a criação do Bureau Internacional da Paz, em 1891, e ele dividiu o Nobel de 1908.
Sadat foi premiado com Begin, que fica fora da lista
O egípcio Anwar al-Sadat teve formação militar, lutou contra o domínio britânico durante a Segunda Guerra e passou anos preso. Depois do conflito, juntou-se aos oficiais que, liderados por Gamal Abdel Nasser, derrubaram o rei Farouk em 1952, segundo a Fundação Nobel.
Presidente do Egito, dividiu o Nobel de 1978 com o primeiro-ministro israelense Menachem Begin, pelo acordo de paz entre os dois países. Sadat foi assassinado no Cairo em 6 de outubro de 1981, há exatos 45 anos, por opositores da reconciliação com Israel.
Begin não entra na conta. Antes de Israel existir, ele liderou a Irgun, organização que, segundo a biografia oficial, recorreu ao terror contra as autoridades britânicas e contra árabes da Palestina e chegou a combater o exército israelense.
Rabin chegou a chefe do Estado-Maior de Israel
Yitzhak Rabin é descrito pela Fundação Nobel como “o soldado que se tornou primeiro-ministro”. Nascido em Jerusalém em 1922, lutou ao lado dos britânicos na Segunda Guerra, combateu na guerra de 1948 e terminou a carreira como chefe do Estado-Maior do exército israelense.
Primeiro-ministro desde 1992, aprovou os Acordos de Oslo e dividiu o Nobel de 1994 com Shimon Peres e Yasser Arafat. Foi assassinado em novembro de 1995 por um extremista religioso que via o acordo como traição.
Roosevelt e Santos ficam de fora pelo critério
O americano Theodore Roosevelt ganhou em 1906 por mediar o fim da guerra entre Rússia e Japão. A biografia oficial não registra posto militar e diz apenas que ele tentou, sem sucesso, servir como oficial na Primeira Guerra Mundial.
O colombiano Juan Manuel Santos, Nobel de 2016 pelo acordo com as Farc, foi ministro da Defesa e intensificou a guerra contra a guerrilha, segundo a fundação. Ministro é cargo civil, e a página oficial não menciona serviço em armas.
Dez indicações para o general brasileiro
O arquivo da Fundação Nobel registra Rondon como “general e filantropo brasileiro”, nascido em 1865 e morto em 1958. As quatro indicações de 1953 vieram de Emily Greene Balch, Alvaro de Souza Lima, Damião Peres e Jean Silvandre, justamente no ano em que Marshall levou o prêmio.
Em 1957 foram seis, assinadas por Nerev Ramos, Mario Faria, Henry de Vries, Raul Bittencourt, de novo Damião Peres, e Cesar Salaya, professor de Direito da Universidade de Havana. A indicação de Salaya cita o trabalho humanitário com os povos indígenas e o esforço para restabelecer a paz no conflito de Letícia, entre Peru e Colômbia.
A trajetória do militar que saiu do sertão até essas indicações não muda com o arquivo. O que ele acrescenta são os nomes de quem assinou e o fato de que todas as indicações formais são da década de 1950.
A carta de Einstein que o arquivo não conta
Einstein passou pelo Brasil em 1925 e, segundo o estudo “Rondon, Einstein’s Letter and the Nobel Peace Prize”, escreveu ao Comitê Nobel norueguês para recomendar Rondon pelo trabalho de pacificação com os indígenas. A carta não aparece entre as dez indicações do arquivo, que não tem nenhum registro de Rondon em 1925.
Por isso o verbo seguro é recomendar. O mesmo estudo conclui que Rondon teve indicações suficientes para ser premiado mesmo sem contar a carta de Einstein, e que o físico indicou outros onze cientistas ao Nobel, todos depois laureados.
O brasileiro morreu em 1958 sem o prêmio que Marshall, Sadat, Rabin e Bajer receberam. Das dez assinaturas guardadas em Oslo, nenhuma é a de Einstein.