A Marinha do Brasil chegou a trabalhar com uma negociação que poderia render até US$ 300 milhões pela venda de dois submarinos construídos no país. Polônia, Peru e Argentina apareceram entre os interessados. Sete anos depois, o desfecho de uma das embarcações foi bem diferente: o casco do Timbira foi afundado pela própria Esquadra brasileira, em abril de 2026.
O plano envolvia o Timbira (S-32) e o Tapajó (S-33), dois submarinos da classe Tupi, baseados no projeto alemão IKL-209. O interesse na possível exportação ganhou força em 2019, durante a substituição gradual de meios antigos pelos novos submarinos da classe Riachuelo. Os valores divulgados naquela época eram estimativas de fontes navais, não receitas efetivamente recebidas.
Almirantado aprovou plano para negociar dois submarinos de fabricação brasileira
Em agosto de 2019, uma reportagem do Poder Naval, assinada por Roberto Lopes, informou que o Almirantado havia dado aval à transferência do Timbira e do Tapajó para a reserva, abrindo caminho para oferecê-los a marinhas estrangeiras.
Os dois submarinos foram construídos no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, com assistência técnica alemã. O Timbira entrou em serviço em 1996 e o Tapajó em 1999. Cada unidade possui 61,2 metros de comprimento e deslocamento de aproximadamente 1.440 toneladas quando submersa, segundo dados publicados pelo mesmo veículo.
Peru e Polônia estudavam compra enquanto argentinos visitavam a base da Marinha no Rio
As armadas peruana e polonesa figuravam entre as potenciais compradoras. A Argentina também estudava adquirir submarinos usados brasileiros para recuperar sua capacidade operacional, duramente atingida pelo naufrágio do ARA San Juan, em novembro de 2017, que matou 44 tripulantes.
Delegações argentinas visitaram instalações de treinamento da Força de Submarinos na Ilha de Mocanguê, em Niterói. Uma das comitivas conheceu o Tapajó por dentro, enquanto o Peru demonstrava interesse no sistema de combate AN/BYG-501, utilizado nos submarinos brasileiros e associado aos torpedos Mk.48.

Brasil chegou a estudar troca dos submarinos por navio construído no Peru
O negócio também poderia assumir um formato pouco comum: em setembro de 2019, o Poder Naval revelou tratativas sobre uma possível troca. O Brasil entregaria Timbira e Tapajó e receberia do estaleiro peruano SIMA um navio da classe Makassar, de projeto sul-coreano, adaptado para funcionar como navio-escola.
O Makassar considerado nesse estudo media cerca de 122 metros e podia deslocar aproximadamente 10.900 toneladas com carga máxima. A alternativa permitiria substituir o envelhecido Navio-Escola Brasil por uma plataforma com espaço para instrução anfíbia e atividades hospitalares. A proposta permaneceu no campo das negociações.

Estimativa inicial de US$ 300 milhões caiu durante as conversas com o Peru
Duas fontes navais ouvidas em agosto de 2019 estimavam uma arrecadação conjunta entre US$ 250 milhões e US$ 300 milhões. Em outubro daquele ano, a própria Marinha confirmou publicamente a intenção de estudar a transferência dos IKL-209 a forças interessadas, mas não apresentou um preço oficial nem anunciou contrato.
Em janeiro de 2020, outra apuração do Poder Naval relatou que os entendimentos com o Peru estavam avançados e aguardavam sinal verde do comprador. Naquela atualização, a expectativa financeira já havia caído para US$ 150 milhões a US$ 200 milhões, novamente com base em avaliações de oficiais consultados pelo veículo.
As cifras variaram ao longo das tratativas e permaneceram vinculadas a sondagens entre marinhas. Uma estimativa feita durante conversas diplomáticas e militares é diferente de um preço contratual, de uma obrigação de pagamento ou de uma venda concluída. Sem acordo assinado e anunciado, também seria incorreto contabilizar os valores projetados como receita que a Marinha deixou de receber.
Marinha retirou Timbira e Tapajó do serviço ativo em 2023
A trajetória dos dois submarinos terminou longe das marinhas estrangeiras citadas nas negociações. A Agência Marinha de Notícias confirmou que Timbira, Tapajó e Tamoio foram desativados em 2023, dentro de um processo mais amplo de renovação da frota.
Após a baixa, os cascos de Timbira e Tapajó passaram por retirada de equipamentos e componentes. Em março de 2026, os dois estavam no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, com pintura característica de alvos navais e destinação ligada ao treinamento da Esquadra.
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Em abril de 2026, Timbira acabou no fundo do mar como alvo da Esquadra
O destino do primeiro submarino foi confirmado pela própria Marinha. Durante a Operação ADEREX I/2026, realizada de 13 a 17 de abril entre o Rio de Janeiro e Cabo Frio, o casco desativado do Timbira foi afundado de forma controlada durante o emprego de armamentos de meios navais e aeronavais.
A mobilização reuniu aproximadamente 1.500 militares e envolveu fragatas, corveta, navios de apoio, aeronaves e o submarino Tikuna. O casco do Timbira, que havia servido à Marinha entre 1996 e 2023, cumpriu assim sua última função como alvo. Para o Tapajó, as fontes consultadas apontam a desativação e a preparação do casco, sem confirmação equivalente de afundamento até outubro de 2026.
Uma venda planejada virou reaproveitamento de peças e treinamento naval
A operação comercial estudada em 2019 poderia ter gerado recursos e até uma nova embarcação de treinamento. O que se confirmou foi a retirada dos submarinos da frota e o aproveitamento de componentes e cascos na transição para meios mais recentes. A Marinha segue renovando sua força submarina por meio do PROSUB e das unidades da classe Riachuelo.
Em 2019, o Timbira foi apontado como parte de uma venda potencial avaliada em até US$ 300 milhões. Em 2026, seu casco foi afundado em uma operação da própria Esquadra.