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Caminhonete tenta cruzar ilegalmente a fronteira entre Chile e Peru durante a madrugada, invade campo minado da era Pinochet e acaba destruída por duas minas antitanque

Ford F-150 foi destruída por duas minas antitanque a 280 metros da fronteira Chile-Peru em 13 de setembro. Uma pessoa morreu, e investigadores apuram transporte de cobre e rotas clandestinas por áreas minadas dos anos 1970.

Marcos
Por Marcos 28/10/2026 às 12:16
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Caminhonete tenta cruzar ilegalmente a fronteira entre Chile e Peru durante a madrugada, invade campo minado da era Pinochet e acaba destruída por duas minas antitanque

Uma caminhonete Ford F-150 carregada com cátodos de cobre entrou em um campo minado na fronteira entre Chile e Peru, acionou duas minas antitanque e foi destruída por explosões seguidas de incêndio. O episódio aconteceu na noite de 13 de setembro de 2026, perto do marco fronteiriço 16, a aproximadamente 280 metros da divisa internacional. Uma pessoa morreu.

A investigação chilena passou a examinar uma possível rota clandestina de contrabando que atravessaria áreas com explosivos instalados décadas atrás. A reportagem investigativa do BioBioChile, publicada em 29 de setembro, reuniu detalhes sobre a carga, o percurso dos ocupantes e a alteração de barreiras nas proximidades do campo minado.

O veículo tinha placa chilena e passou por um trecho sinalizado como área de risco. Na apuração divulgada em setembro, a Polícia de Investigações do Chile (PDI), o Exército e o Ministério Público procuravam esclarecer por que a caminhonete saiu das passagens regulares e quem transportava o material encontrado entre os destroços.

Primeira mina lançou a caminhonete e uma segunda detonou na queda

A explosão ocorreu por volta das 23h30, em uma área desértica próxima à cidade chilena de Arica. Segundo fontes consultadas pela investigação do BioBioChile, a primeira mina atingida teria lançado a Ford F-150 para cima. Ao cair, o veículo teria acionado outro explosivo enterrado.

As minas daquela região foram distribuídas em conjuntos descritos pelos investigadores como semelhantes a um trevo, com artefatos próximos uns dos outros. A concentração aumenta o perigo para quem invade áreas interditadas, sobretudo à noite e fora dos corredores autorizados.

Operadores do sistema chileno de vigilância de fronteira detectaram a explosão e identificaram o veículo em chamas. Um drone com câmera térmica foi acionado para observar a região, enquanto equipes especializadas aguardavam condições seguras para entrar. O acesso ao local e a retirada dos restos mortais exigiram atuação de militares treinados para trabalhar em áreas minadas.

Militares e especialistas em desminagem inspecionam a área onde uma caminhonete carregada com cobre foi destruída após detonar minas antitanque na fronteira entre Chile e Peru. Ao fundo, os destroços do veículo após a explosão que deixou uma pessoa morta. Imagem: DPR Arica.

Dois peruanos entraram legalmente no Chile antes da tragédia

Os registros analisados pela investigação indicaram que dois cidadãos peruanos atravessaram o complexo fronteiriço de Chacalluta de forma regular no dia anterior. Um deles retornou em direção à cidade peruana de Tacna, em outro veículo, enquanto o segundo é apontado como possível ocupante que morreu na explosão.

O homem que retornou foi localizado e ouvido como testemunha. Conforme o BioBioChile, afirmou que a caminhonete teria sido emprestada para testes mecânicos antes de uma possível compra. A polícia examinou diferenças entre esse relato e os registros de viagem, inclusive a afirmação de que ele não conhecia o outro homem com quem havia cruzado a fronteira.

A Ford F-150 estava registrada em nome de uma mulher de Alto Hospicio, no norte chileno, e não constava como veículo roubado no momento do episódio. Os investigadores também buscaram imagens de câmeras nos postos fronteiriços dos dois países para reconstruir os deslocamentos.

Carga com cobre e materiais de mineração direcionou a investigação

Entre os restos da caminhonete foram encontrados cátodos de cobre, peças metálicas utilizadas na cadeia industrial do mineral, além de filtros e máscaras de proteção empregados em atividades de mineração. O conteúdo da carga levou a Promotoria de Arica a investigar um possível transporte clandestino desses produtos em direção ao Peru.

O material não tinha origem esclarecida no levantamento divulgado em setembro. Os agentes procuravam números de série e outros sinais capazes de identificar empresas proprietárias dos itens. Entre as hipóteses examinadas está a subtração de mercadorias transportadas por empresas da região, inclusive em rotas ferroviárias.

Em declarações reproduzidas pelo jornal Emol, a promotora Paulina Brito Doerr relatou a dificuldade de recuperar vestígios após a temperatura elevada provocada pelas detonações e pelo incêndio. A identificação da vítima também enfrentava obstáculos: o material humano recuperado estava extremamente carbonizado e dependeria de perícia genética.

Valas e barreiras de concreto teriam deslocado rotas clandestinas

O levantamento do BioBioChile relaciona a circulação irregular pela região a obras de bloqueio realizadas pelo Estado chileno. Valas e grandes blocos de concreto, conhecidos localmente como tetrápodes, passaram a dificultar antigas passagens usadas por contrabandistas.

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Fontes familiarizadas com a investigação apontaram a abertura de trajetos alternativos entre os marcos 14 e 20, justamente em uma faixa onde ainda existem minas antitanque. Em um desses pontos, partes de cercas e obstáculos teriam sido deslocadas para permitir que veículos passassem perto do perímetro militar.

O caminho improvisado ficaria a poucos metros da área com explosivos. Uma saída da trilha durante a noite é uma das explicações investigadas para a entrada da F-150 no campo minado. As autoridades ainda precisam determinar as circunstâncias exatas do trajeto e a eventual responsabilidade de outras pessoas.

Explosivos da era Pinochet permaneceram após o desminado de 2020

As minas foram instaladas a partir dos anos 1970, durante a ditadura de Augusto Pinochet, quando o Chile mantinha planos de defesa diante de tensões com países vizinhos. Estima-se que cerca de 180 mil artefatos, de diferentes tipos, tenham sido espalhados por áreas do deserto e do altiplano.

O Chile concluiu em 2020 a remoção das minas antipessoais exigida pela Convenção de Ottawa. Segundo o comunicado oficial da convenção, a operação de desminagem alcançou 195 áreas e destruiu 177.725 minas. A proibição internacional é direcionada às minas antipessoais; as minas antitanque obedecem a outro regime e seguem presentes em determinadas zonas militares.

As minas antitanque são projetadas para reagir a cargas maiores, como a passagem de veículos. O BioBioChile relatou acidentes anteriores na região, incluindo um episódio com vítimas em 2024 e outro que deixou seis militares feridos em 2023. O terreno do marco 16 tinha cercas e placas de advertência, mas havia sinais de alterações feitas nas barreiras de acesso.

Investigação tenta identificar a vítima e reconstruir a rota da F-150

O incêndio consumiu praticamente toda a caminhonete e dificultou a análise de seus ocupantes e da carga. Até a investigação divulgada em 29 de setembro, a identidade da pessoa morta ainda não havia sido confirmada, e a origem dos produtos encontrados dependia de novos exames e rastreamento de mercadorias.

As diligências conhecidas até setembro buscavam reconstituir o trajeto da F-150, a origem do cobre e a passagem por uma faixa minada protegida pelo Exército chileno. A área segue sujeita a restrições de acesso porque os artefatos antitanque enterrados no deserto ainda oferecem risco a veículos.

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