Uma caminhonete Ford F-150 carregada com cátodos de cobre entrou em um campo minado na fronteira entre Chile e Peru, acionou duas minas antitanque e foi destruída por explosões seguidas de incêndio. O episódio aconteceu na noite de 13 de setembro de 2026, perto do marco fronteiriço 16, a aproximadamente 280 metros da divisa internacional. Uma pessoa morreu.
A investigação chilena passou a examinar uma possível rota clandestina de contrabando que atravessaria áreas com explosivos instalados décadas atrás. A reportagem investigativa do BioBioChile, publicada em 29 de setembro, reuniu detalhes sobre a carga, o percurso dos ocupantes e a alteração de barreiras nas proximidades do campo minado.
O veículo tinha placa chilena e passou por um trecho sinalizado como área de risco. Na apuração divulgada em setembro, a Polícia de Investigações do Chile (PDI), o Exército e o Ministério Público procuravam esclarecer por que a caminhonete saiu das passagens regulares e quem transportava o material encontrado entre os destroços.
Primeira mina lançou a caminhonete e uma segunda detonou na queda
A explosão ocorreu por volta das 23h30, em uma área desértica próxima à cidade chilena de Arica. Segundo fontes consultadas pela investigação do BioBioChile, a primeira mina atingida teria lançado a Ford F-150 para cima. Ao cair, o veículo teria acionado outro explosivo enterrado.
As minas daquela região foram distribuídas em conjuntos descritos pelos investigadores como semelhantes a um trevo, com artefatos próximos uns dos outros. A concentração aumenta o perigo para quem invade áreas interditadas, sobretudo à noite e fora dos corredores autorizados.
Operadores do sistema chileno de vigilância de fronteira detectaram a explosão e identificaram o veículo em chamas. Um drone com câmera térmica foi acionado para observar a região, enquanto equipes especializadas aguardavam condições seguras para entrar. O acesso ao local e a retirada dos restos mortais exigiram atuação de militares treinados para trabalhar em áreas minadas.

Dois peruanos entraram legalmente no Chile antes da tragédia
Os registros analisados pela investigação indicaram que dois cidadãos peruanos atravessaram o complexo fronteiriço de Chacalluta de forma regular no dia anterior. Um deles retornou em direção à cidade peruana de Tacna, em outro veículo, enquanto o segundo é apontado como possível ocupante que morreu na explosão.
O homem que retornou foi localizado e ouvido como testemunha. Conforme o BioBioChile, afirmou que a caminhonete teria sido emprestada para testes mecânicos antes de uma possível compra. A polícia examinou diferenças entre esse relato e os registros de viagem, inclusive a afirmação de que ele não conhecia o outro homem com quem havia cruzado a fronteira.
A Ford F-150 estava registrada em nome de uma mulher de Alto Hospicio, no norte chileno, e não constava como veículo roubado no momento do episódio. Os investigadores também buscaram imagens de câmeras nos postos fronteiriços dos dois países para reconstruir os deslocamentos.
Carga com cobre e materiais de mineração direcionou a investigação
Entre os restos da caminhonete foram encontrados cátodos de cobre, peças metálicas utilizadas na cadeia industrial do mineral, além de filtros e máscaras de proteção empregados em atividades de mineração. O conteúdo da carga levou a Promotoria de Arica a investigar um possível transporte clandestino desses produtos em direção ao Peru.
O material não tinha origem esclarecida no levantamento divulgado em setembro. Os agentes procuravam números de série e outros sinais capazes de identificar empresas proprietárias dos itens. Entre as hipóteses examinadas está a subtração de mercadorias transportadas por empresas da região, inclusive em rotas ferroviárias.
Em declarações reproduzidas pelo jornal Emol, a promotora Paulina Brito Doerr relatou a dificuldade de recuperar vestígios após a temperatura elevada provocada pelas detonações e pelo incêndio. A identificação da vítima também enfrentava obstáculos: o material humano recuperado estava extremamente carbonizado e dependeria de perícia genética.
Valas e barreiras de concreto teriam deslocado rotas clandestinas
O levantamento do BioBioChile relaciona a circulação irregular pela região a obras de bloqueio realizadas pelo Estado chileno. Valas e grandes blocos de concreto, conhecidos localmente como tetrápodes, passaram a dificultar antigas passagens usadas por contrabandistas.
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Fontes familiarizadas com a investigação apontaram a abertura de trajetos alternativos entre os marcos 14 e 20, justamente em uma faixa onde ainda existem minas antitanque. Em um desses pontos, partes de cercas e obstáculos teriam sido deslocadas para permitir que veículos passassem perto do perímetro militar.
O caminho improvisado ficaria a poucos metros da área com explosivos. Uma saída da trilha durante a noite é uma das explicações investigadas para a entrada da F-150 no campo minado. As autoridades ainda precisam determinar as circunstâncias exatas do trajeto e a eventual responsabilidade de outras pessoas.
Explosivos da era Pinochet permaneceram após o desminado de 2020
As minas foram instaladas a partir dos anos 1970, durante a ditadura de Augusto Pinochet, quando o Chile mantinha planos de defesa diante de tensões com países vizinhos. Estima-se que cerca de 180 mil artefatos, de diferentes tipos, tenham sido espalhados por áreas do deserto e do altiplano.
O Chile concluiu em 2020 a remoção das minas antipessoais exigida pela Convenção de Ottawa. Segundo o comunicado oficial da convenção, a operação de desminagem alcançou 195 áreas e destruiu 177.725 minas. A proibição internacional é direcionada às minas antipessoais; as minas antitanque obedecem a outro regime e seguem presentes em determinadas zonas militares.
As minas antitanque são projetadas para reagir a cargas maiores, como a passagem de veículos. O BioBioChile relatou acidentes anteriores na região, incluindo um episódio com vítimas em 2024 e outro que deixou seis militares feridos em 2023. O terreno do marco 16 tinha cercas e placas de advertência, mas havia sinais de alterações feitas nas barreiras de acesso.
Investigação tenta identificar a vítima e reconstruir a rota da F-150
O incêndio consumiu praticamente toda a caminhonete e dificultou a análise de seus ocupantes e da carga. Até a investigação divulgada em 29 de setembro, a identidade da pessoa morta ainda não havia sido confirmada, e a origem dos produtos encontrados dependia de novos exames e rastreamento de mercadorias.
As diligências conhecidas até setembro buscavam reconstituir o trajeto da F-150, a origem do cobre e a passagem por uma faixa minada protegida pelo Exército chileno. A área segue sujeita a restrições de acesso porque os artefatos antitanque enterrados no deserto ainda oferecem risco a veículos.