Em plena Guerra das Malvinas, o presidente brasileiro João Baptista Figueiredo autorizou duas operações sigilosas, avaliadas em US$ 8 milhões, para que peças de armamentos fabricadas na Bélgica passassem pelo Brasil antes de seguir à Argentina. Os despachos foram assinados em 31 de maio e 7 de junho de 1982, quando o governo argentino enfrentava um embargo europeu sobre equipamentos militares.
Os detalhes aparecem em documentos desclassificados do Arquivo Nacional analisados em investigação publicada pelo Infobae em 10 de junho de 2026. O plano envolvia a belga FN Herstal, sua subsidiária em Valença, no interior do Rio de Janeiro, e o abastecimento de fábricas militares argentinas.
O aval passou pelo Itamaraty, pelo Exército, por órgãos de comércio exterior e pelo Conselho de Segurança Nacional. A documentação permite comprovar as autorizações presidenciais; a chegada efetiva desses lotes à Argentina ainda não foi demonstrada pelos registros examinados.
Embargo europeu interrompeu o fornecimento de peças às fábricas argentinas
Depois do desembarque argentino nas ilhas, em 2 de abril de 1982, países europeus suspenderam a exportação de armas e componentes militares para Buenos Aires. Uma resposta registrada no Parlamento britânico em 26 de abril confirmou que nenhum dos integrantes da Comunidade Econômica Europeia continuava autorizado a exportar armamentos, munições e peças militares ao país.
A Argentina fabricava ou montava sob licença armamentos da FN Herstal, incluindo os fuzis FAL de 7,62 mm, as metralhadoras MAG e pistolas Browning GP de 9 mm. A produção na Fábrica Militar Fray Luis Beltrán, na província de Santa Fé, dependia de componentes que vinham do exterior.
Correspondências reproduzidas pela investigação indicam que as linhas argentinas enfrentavam falta de peças e que os pedidos enviados à fabricante belga tinham caráter urgente. A saída negociada colocaria o Brasil entre o fornecedor europeu e o comprador sul-americano.

Primeiro pedido reunia 177.500 peças para fuzis e mais 16 mil componentes de pistolas
Em 4 de maio de 1982, a FN do Brasil apresentou ao Itamaraty uma solicitação identificada como FN-82/055. O pacote de US$ 5,5 milhões incluía 177.500 unidades de componentes para o FAL e outras 16 mil armações semielaboradas para pistolas Browning.
Entre os itens destinados aos fuzis apareciam 50 mil carregadores, 23 mil caixas de mecanismo semielaboradas, tubos metálicos, peças obtidas por microfusão e 35 mil baionetas. Eram componentes relacionados à fabricação, montagem e manutenção das armas utilizadas pelas forças argentinas.
O pagamento seria feito à vista, por carta de crédito irrevogável. O desenho comercial previa que o material chegasse primeiro à unidade brasileira, onde passaria por um processamento final antes da reexportação.
Segundo lote acrescentava 209 mil peças de FAL e componentes de metralhadoras MAG
Uma segunda proposta, datada de 12 de maio e registrada como FN-82/057, acrescentou US$ 2,5 milhões à negociação. Ela reunia 209 mil peças para fuzis FAL e 5.780 conjuntos de subconjuntos e componentes para metralhadoras MAG, tanto na versão de infantaria quanto na utilizada em veículos blindados.
Os novos pedidos incluíam 150 mil carregadores de FAL, além de molas recuperadoras, guarda-matos, parafusos e freios de boca. Somados, os dois processos envolveram 386.500 unidades de componentes de FAL, além dos materiais para pistolas e metralhadoras.
Fábrica de Valença serviria de caminho alternativo para material vindo da Bélgica
A proposta utilizava o mecanismo aduaneiro de drawback, que permite importar insumos com suspensão de determinados tributos quando o produto é processado e posteriormente reexportado. As peças seriam embarcadas da Bélgica para a FN do Brasil, em Valença (RJ), receberiam um tratamento final e seguiriam à Argentina.
Com a filial brasileira inserida na cadeia, a FN Herstal poderia atender os contratos argentinos por uma rota indireta. O expediente previa margem comercial para a operação no Brasil, enquanto a fabricante belga ajustaria preços para limitar o custo ao comprador.
Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
A negociação dependia de permissão estatal brasileira por envolver material de emprego militar. A tramitação ocorreu sob sigilo, embora utilizasse órgãos e procedimentos oficiais de exportação.
Figueiredo escreveu “Aprovo” após aval do Itamaraty, do Exército e da CACEX
O Itamaraty deu parecer favorável em 14 de maio de 1982. Cinco dias depois, o general Danilo Venturini, secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional, encaminhou a consulta ao Ministério do Exército e à Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil, a CACEX.
A CACEX informou, em 24 de maio, que não apresentava objeções. O Ministério do Exército concordou no dia 28. Com essas manifestações, Venturini enviou à Presidência a Exposição de Motivos 043/82, classificada como secreta.
Figueiredo registrou de próprio punho no expediente: “Aprovo. Em 31/5/82”. Para a segunda solicitação, a autorização presidencial veio em 7 de junho. Assim, as duas operações receberam aval do mais alto nível do governo brasileiro durante os combates.

Memorando secreto revelava a posição brasileira diante de Londres e Buenos Aires
Um memorando do Conselho de Segurança Nacional, de 19 de abril de 1982, descrevia a postura do Brasil como de “não-engajamento ostensivo”. O país mantinha contatos com Londres e assumira a representação dos interesses argentinos no Reino Unido, ao mesmo tempo que apoiava historicamente a reivindicação de Buenos Aires sobre as ilhas.
O mesmo memorando examinava possibilidades de aproximação comercial e industrial entre Brasil e Argentina. Na área de armamentos, o mercado argentino recorria tradicionalmente a fornecedores de fora da América do Sul, e a guerra abriu espaço para iniciativas envolvendo empresas instaladas no Brasil.
Brasil também cedeu aviões de patrulha, enquanto bombardeiro britânico pousava no Rio
Em uma iniciativa separada, o Brasil também disponibilizou aeronaves aos argentinos. Durante o conflito, dois aviões EMB-111 Bandeirante Patrulha foram disponibilizados à Argentina, episódio mencionado em estudos históricos e confirmado em registros da Força Aérea Brasileira.
Em 3 de junho de 1982, um bombardeiro britânico Avro Vulcan precisou realizar um pouso de emergência no Rio de Janeiro. Um estudo acadêmico publicado na revista Topoi analisou esse incidente e descreveu a neutralidade brasileira como favorável à Argentina em diferentes iniciativas diplomáticas e logísticas.
Autorizações foram confirmadas, mas entrega dos US$ 8 milhões permanece sem prova
A Argentina se rendeu nas Malvinas em 14 de junho de 1982, apenas uma semana depois da segunda aprovação de Figueiredo. As propostas comerciais apresentavam prazos de fornecimento que variavam de 15 dias a dois meses.
Os papéis divulgados em junho de 2026 permitem reconstruir os pedidos, os valores, os itens e as assinaturas que autorizaram a triangulação. Ainda faltam comprovantes de embarque e recebimento para determinar quais componentes foram efetivamente transportados e se algum lote chegou a tempo de ser utilizado durante a guerra.
Mesmo com essa lacuna, os despachos de 31 de maio e 7 de junho registram uma decisão concreta: o governo Figueiredo aceitou abrir uma rota brasileira para o fornecimento indireto de armamentos à Argentina em meio ao embargo europeu.