Incorporados em 1938, os Fiat-Ansaldo CV 3-35 ajudaram o Exército Brasileiro a formar pessoal para suas unidades mecanizadas e permaneceram em uso durante a chegada dos blindados americanos na Segunda Guerra Mundial.
O Exército Brasileiro adquiriu 23 blindados italianos Fiat-Ansaldo CV 3-35, incorporados em 1938, para uma etapa de organização e formação de suas tropas mecanizadas. Com aproximadamente 3,1 toneladas e espaço para dois militares, esses pequenos veículos sobre lagartas participaram do aprendizado que acompanhou a expansão dos blindados no país.
O registro está na publicação sobre o equipamento do Museu Militar Conde de Linhares, instituição dedicada à preservação da história militar brasileira. Armados com metralhadoras, os carros foram empregados na instrução e continuaram em serviço depois que o Brasil começou a receber material americano, a partir de 1941.
Fiat-Ansaldo CV 3-35 levava motorista e artilheiro em uma estrutura de baixa altura
O tamanho era uma das características do modelo: 3,15 metros de comprimento, 1,40 metro de largura e 1,28 metro de altura, segundo a descrição do museu. A tripulação era formada por motorista e artilheiro, acomodados em um veículo classificado como tankette, denominação associada a pequenos blindados sobre lagartas.
A ficha brasileira registra duas possibilidades de armamento: duas metralhadoras Madsen de 7 mm ou uma Breda de 13,2 mm. Essa configuração diferenciava o veículo dos carros armados com canhões que posteriormente equipariam as unidades brasileiras.
A compra ocorreu quando o Exército discutia como mecanizar a Cavalaria
A aquisição fazia parte de um debate sobre a substituição e a organização dos meios militares. O Brasil já havia incorporado carros Renault em 1921, mas, na década seguinte, esses equipamentos estavam envelhecidos e precisavam ser substituídos.
O estudo “Cultura militar e inovação na Cavalaria do Exército Brasileiro”, publicado na Revista Brasileira de Estudos Estratégicos, da Universidade Federal Fluminense, descreve propostas de mecanização gradual. Uma delas previa unidades de cavalaria mista, com elementos a cavalo e mecanizados.
Nesse processo, o general Waldomiro Castilho de Lima, após observar tropas italianas na Abissínia, recomendou a aquisição dos carros leves. Uma comissão examinou a proposta, com participação do então capitão Carlos Flores de Paiva Chaves, que se posicionou favoravelmente à compra.
Paiva Chaves participou da organização da unidade que recebeu os carros
A trajetória dos Fiat-Ansaldo no Brasil está ligada à atuação de Paiva Chaves. Sua experiência na França, onde estudou na Escola de Cavalaria de Saumur, antecedeu a participação nos trabalhos brasileiros de mecanização.
A apresentação da pesquisa histórica “Esquadrão de Auto-Metralhadoras Fiat-Ansaldo CV-3 35 II no Exército Brasileiro 1938–1942”, disponível no portal especializado ECSB Defesa, registra a compra das 23 viaturas e sua apresentação às autoridades na parada de 7 de setembro de 1938.

O lote equipou o Esquadrão de Auto-Metralhadoras de Reconhecimento. A organização dessa unidade abriu espaço para estabelecer uma estrutura de ensino voltada ao emprego dos veículos, enquanto o Exército desenvolvia sua experiência com tropas mecanizadas.
Centro de instrução deu continuidade ao aprendizado com os blindados italianos
Em 21 de janeiro de 1939, foi criado, no Rio de Janeiro, o Centro de Instrução de Motorização e Mecanização – CIMM. Conforme o histórico apresentado pela ECSB Defesa, o major Durval de Magalhães Coelho assumiu o comando, tendo Paiva Chaves como subcomandante.
O centro também recebeu cinco Renault remanescentes. A presença desses equipamentos e dos carros italianos permitiu dar continuidade à instrução e às manobras durante a transição entre diferentes gerações de blindados utilizados pelo Exército.
Parte dos veículos seguiu para Recife e depois teve emprego policial
Segundo o Museu Militar Conde de Linhares, alguns Fiat-Ansaldo foram enviados a Recife em 1942, para o Esquadrão de Reconhecimento da Ala Motomecanizada do 7º Regimento de Cavalaria Divisionário. A unidade estava sob o comando do então primeiro-tenente Plínio Pitaluga, que posteriormente comandaria o esquadrão de reconhecimento da FEB na Itália.
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Os carros retornaram ao Rio de Janeiro e tiveram utilização militar até 1945. Depois, parte passou à Polícia Militar do então Distrito Federal, onde operou até os anos 1950. Outros exemplares terminaram como alvos de exercícios.
A trajetória do lote atravessou, portanto, a organização de uma unidade de reconhecimento, a formação de pessoal e a chegada de equipamentos americanos durante a guerra.
Esses pequenos carros italianos ocuparam uma etapa definida da mecanização brasileira: o período em que a aquisição de veículos caminhava junto com a criação das estruturas destinadas a ensinar seu emprego.
Que peso a formação das tripulações deve ter na avaliação de uma compra de blindados? Comente como esse aprendizado influencia a capacidade de uma força militar.