A primeira mulher a alcançar o posto de capitão nas Forças Armadas brasileiras chegou à Segunda Guerra Mundial como enfermeira voluntária, cuidou de soldados feridos na Itália e enfrentou discriminação racial nos hospitais dos aliados. O posto de Zilda Nogueira Rodrigues foi reconhecido em dezembro de 1954, quando a veterana já estava reformada por problemas de saúde. Entre a guerra e a promoção, viveu uma história de coragem, conflitos e reconhecimento tardio.
Viúva aos 23 anos, mãe de um menino e formada em enfermagem obstétrica, Zilda integrou a Força Expedicionária Brasileira (FEB) em 1944. Atuou em hospitais norte-americanos, recebeu elogios pelo trabalho em operações e chegou a chefiar uma seção hospitalar brasileira na Itália. De volta ao Rio de Janeiro, porém, passou por tratamentos e avaliações médicas que a afastaram do serviço ativo.
Uma pesquisa publicada em 31 de agosto de 2026 pelo Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, escrita por Daniel Mata Roque e Fernando Porto, recuperou sua trajetória com documentos militares, registros médicos, material universitário e jornais da época. É uma história dos anos 1940 e 1950 que ganhou nova documentação em 2026, e não uma promoção militar ocorrida agora.
Da vida como parteira no Rio de Janeiro à guerra na Itália, Zilda enfrentou grandes mudanças
Nascida em 29 de janeiro de 1919, no então Distrito Federal, Zilda começou a ajudar mulheres a dar à luz ainda jovem. Em 1942, perdeu o marido e ficou viúva com um filho pequeno. Buscou a formação profissional e, no ano seguinte, ingressou no curso de enfermagem obstétrica do Instituto Hahnemanniano do Brasil.

Naquele período, o Brasil preparava o envio de tropas para a campanha da Itália. Hospitais ligados aos aliados precisavam de profissionais que falassem português para atender os militares brasileiros. Zilda voluntariou-se, passou pelo Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército e antecipou sua formatura para poder embarcar.
Em 29 de outubro de 1944, partiu do Rio de Janeiro por via aérea, fez escalas no Nordeste e no norte da África e chegou a Nápoles. Ela integrou o grupo de 67 enfermeiras brasileiras do Exército que atuaram com a FEB, marcando o ingresso feminino nas Forças Armadas. O Museu Virtual da Força Expedicionária Brasileira, do próprio Exército, registra a importância pioneira do Serviço de Saúde e dessas voluntárias.
Racismo em hospitais dos Estados Unidos: relato histórico aponta discriminação contra a brasileira
Zilda trabalhou no 7º Station Hospital, em Livorno, e no 45º General Hospital, em Nápoles. Os locais eram administrados por norte-americanos, enquanto enfermeiras e médicos da FEB prestavam assistência aos brasileiros e a outros militares feridos.
A estrutura aliada mantinha uma contradição: os Estados Unidos combatiam as forças nazistas, mas suas próprias instituições militares ainda praticavam segregação racial. Segundo relatos da enfermeira veterana Elza Cansanção Medeiros recuperados pelos pesquisadores, Zilda sofreu resistência de militares e enfermeiras norte-americanos por ser identificada como parda.
O trabalho acadêmico ressalta que havia diferenças entre os registros da época. Algumas fichas brasileiras descreviam Zilda como branca, embora testemunhos de colegas a situem entre mulheres atingidas pelo preconceito. Os historiadores analisam esse desencontro de classificações e a experiência de discriminação sem transformar documentos históricos em uma identificação racial absoluta.
Também ocorreram conflitos disciplinares. Em fevereiro de 1945, ela recebeu uma punição por ausência ao serviço, episódio que aparece em relatos de outras militares. Transferida para outra unidade, ganhou posteriormente uma função que demonstraria seu preparo profissional.
Enfermeira-chefe em Nápoles, recebeu elogio militar pelo trabalho em cirurgias e anestesia
Em 10 de junho de 1945, Zilda assumiu a chefia da Seção Brasileira de Hospitalização do 45º General Hospital. Quinze dias depois, o major médico Azais de Freitas Duarte registrou elogio formal ao seu trabalho nas salas de operações, anestesia e enfermagem, destacando sua organização e dedicação.

Durante a campanha, ela havia sido elevada ao posto de segundo-tenente, em novembro de 1944. Entretanto, as enfermeiras continuavam recebendo remuneração equiparada à de sargentos. Essa diferença entre reconhecimento militar, posto e direitos reapareceria quando as veteranas fossem desmobilizadas.
Zilda voltou ao Brasil em 7 de julho de 1945, depois do encerramento da guerra na Europa. Foi condecorada com as medalhas de Campanha e de Guerra. A veterana que cuidara de feridos e coordenara enfermeiras, contudo, ainda enfrentaria dificuldades que não tinham desaparecido com o armistício.
Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
O retorno da guerra trouxe problemas de saúde e a reforma do Exército aos 31 anos
De volta ao Rio, Zilda apresentou sintomas como insônia, pesadelos e crises de angústia, de acordo com registros clínicos analisados pela pesquisa. Recebeu cuidados no Hospital Central do Exército e buscou continuar sua vida profissional, inclusive em uma função civil naquele hospital.
Em 1949, os médicos militares avaliaram sua condição de saúde e reconheceram dificuldades para trabalhar. As juntas de saúde passaram a relacionar parte do adoecimento às experiências da campanha. A pesquisa, porém, preserva uma ressalva importante: certos laudos também consideravam a possibilidade de dificuldades preexistentes terem sido agravadas pela guerra.
Em 23 de novembro de 1950, aos 31 anos, Zilda foi reformada como primeira-tenente, considerada definitivamente incapaz para o serviço do Exército. O posto de capitão ainda não havia chegado. Esse reconhecimento viria mais tarde, por meio das regras de proteção aos veteranos.
Decreto de 1954 fez de Zilda a primeira mulher capitão das Forças Armadas brasileiras
Quatro anos após a reforma, em 14 de dezembro de 1954, um decreto presidencial concedeu a Zilda a patente de capitão na reserva. Segundo os registros localizados pelos historiadores, ela foi a primeira mulher a atingir esse posto nas Forças Armadas brasileiras.
Não foi uma promoção recebida durante a campanha na Itália nem um retorno ao serviço ativo. A conquista ocorreu depois que a militar já estava reformada, apoiada em legislações de amparo a veteranos da Segunda Guerra e em entendimentos que permitiam novas promoções na inatividade.
O ineditismo aparece até na linguagem da época. Documentos oficiais registravam a profissional como “capitão” e, por vezes, flexionavam no masculino a própria função de enfermagem. Zilda passou a ser conhecida como Capitão Zilda, denominação preservada por associações de veteranos e pela documentação histórica.
Depois de deixar a ativa, ela continuou lutando pelos direitos das mulheres que serviram na FEB
A vida pública de Zilda não terminou com a reforma. Ela atuou em associações de ex-combatentes, integrou diretorias da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil e da Associação Nacional dos Veteranos da FEB e ajudou a criar o Clube de Oficiais Enfermeiras de Guerra. As entidades organizavam homenagens, assistência e ações para preservar a memória das mulheres que trabalharam nos hospitais da Itália.
Outra frente de atuação foi a defesa das obstetrizes. Zilda presidiu a Associação Brasileira de Obstetrizes entre 1967 e 1992, representando a profissão que exercia antes de ingressar no Exército. Sua trajetória ligou a defesa das veteranas ao reconhecimento profissional de mulheres na saúde.
Em 1992, ela e outras ex-enfermeiras da FEB moveram uma ação judicial por considerarem ofensiva uma passagem do romance Panteros, de Décio Pignatari. O processo terminou em 1995 depois de uma manifestação do autor que a Justiça considerou suficiente como retratação. A disputa mostra que a luta pelo respeito às enfermeiras se prolongou por quase meio século depois do fim da campanha.
Pesquisa publicada em 2026 resgata a vida de uma pioneira pouco lembrada
Zilda Nogueira Rodrigues morreu no Rio de Janeiro em 22 de junho de 2006, aos 87 anos. Décadas depois, documentos sobre sua carreira e os problemas vividos no pós-guerra ajudaram os historiadores a reconstruir o que significou aquela primeira promoção de uma mulher ao posto de capitão.
O Exército Brasileiro mantém estudos sobre as enfermeiras da FEB, reconhecendo sua incorporação como marco da presença feminina na instituição. O artigo acadêmico de 2026 acrescenta a história pessoal de Zilda: uma mulher que superou barreiras de gênero, suportou discriminação e se dedicou a salvar vidas em meio à guerra.
A primeira capitã das Forças Armadas brasileiras não ficou conhecida por comandar tropas em combate, mas pelo trabalho nos hospitais e pela defesa da memória de quem também serviu. Você já conhecia essa história? Compartilhe a reportagem e conte nos comentários que outras mulheres e veteranos brasileiros da Segunda Guerra merecem ser lembrados.