Drones comerciais adaptados para carregar granadas e explosivos deixaram de ser uma ameaça distante na América do Sul. Na Colômbia, grupos armados já realizaram centenas de ataques desse tipo em 2026 contra instalações e integrantes da força pública. No Brasil, o Exército começou a testar uma resposta em camadas que reúne blindados Gepard, Guarani com metralhadoras .50, radares nacionais, guerra eletrônica e até drones destinados a interceptar outros drones.
A diferença entre os dois cenários é importante. Na Colômbia, a ameaça já aparece em operações reais e produz mortos e feridos. No Brasil, as Forças Armadas ainda trabalham principalmente em exercícios, testes tecnológicos e desenvolvimento de doutrina para enfrentar esse tipo de ataque.
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Os números colombianos ajudam a explicar por que o tema passou a ocupar espaço crescente nos planejamentos militares da região.
Um levantamento divulgado pelo Infobae apontou 292 ataques envolvendo drones em território colombiano entre janeiro e 15 de setembro de 2026. Em todo o ano anterior haviam sido registrados 277 casos.
Entre os episódios atribuídos a grupos armados aparecem ações das estruturas ligadas a Iván Mordisco, do ELN e de outras dissidências. Somente as organizações associadas a Iván Mordisco foram relacionadas a 145 casos neste ano, enquanto o ELN apareceu em outros 119.
Drones passaram a lançar explosivos sobre policiais e soldados
O que torna esses números especialmente preocupantes é a simplicidade da arma.
Em muitos casos, não são grandes aeronaves militares não tripuladas. São drones relativamente pequenos, adaptados para transportar explosivos e atacar tropas, postos policiais e instalações.
No fim de setembro, dois episódios ocorreram em departamentos diferentes da Colômbia.
Em Tunía, no Cauca, um ataque contra um posto de controle deixou sete policiais feridos. Em Condoto, no Chocó, outro drone lançou explosivos e deixou pelo menos mais um integrante da polícia ferido. Os dois casos foram relatados pelo Noticias RCN e ocorreram separados por centenas de quilômetros.
Poucas semanas antes, a escalada havia produzido um episódio ainda mais grave.
Em setembro, drones carregados com explosivos atingiram uma instalação militar em Ocaña, no departamento de Norte de Santander. O ataque, atribuído pelas autoridades ao ELN, terminou com três militares mortos e outros feridos. O próprio Ministério da Defesa colombiano confirmou que aeronaves não tripuladas modificadas com artefatos explosivos foram empregadas contra a unidade.
A utilização desses equipamentos cresceu rapidamente.
Dados divulgados pela Polícia colombiana em maio apontavam 418 ataques com drones carregados com explosivos entre abril de 2024 e fevereiro de 2026, período em que foram lançadas centenas de granadas e registradas vítimas entre militares, policiais e civis.
O drone passou, portanto, de ferramenta de reconhecimento para uma espécie de plataforma aérea improvisada capaz de colocar explosivos sobre um alvo sem expor diretamente quem realiza o ataque.
No Brasil, a resposta começou a ganhar uma estrutura própria
Enquanto a Colômbia enfrenta esse problema no terreno, o Exército Brasileiro passou a testar uma organização especificamente voltada ao combate de aeronaves remotamente pilotadas.
Em agosto, o Exercício Sagitta Primus 2026, realizado no Campo de Instrução de Formosa, em Goiás, reuniu mais de 500 militares de 23 organizações da Força Terrestre, além de meios da Força Aérea.
Foi nessa atividade que ocorreu a primeira experimentação doutrinária de uma seção anti-SARP dentro de uma edição do exercício.
SARP é a sigla militar utilizada para Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas.
A ideia foi testar não apenas uma arma capaz de derrubar um drone, mas diferentes camadas de defesa funcionando juntas.
Gepard e Guarani entram na camada que atira
Uma das alternativas é destruir fisicamente a aeronave.
Durante o exercício foram realizados disparos com o blindado antiaéreo Gepard 1A2, equipado com canhões automáticos, e com metralhadoras calibre .50 embarcadas em viaturas blindadas Guarani.
São soluções originalmente concebidas para funções mais amplas de defesa antiaérea ou apoio terrestre, mas que também podem participar de uma arquitetura contra drones quando o alvo é identificado e acompanhado.
Esse tipo de resposta representa a parte chamada de cinética: atingir fisicamente a ameaça antes que ela alcance tropas, instalações ou equipamentos protegidos.
Só que atirar é apenas a última parte do problema.
Primeiro é necessário descobrir que um objeto pequeno está chegando.
Radares precisam enxergar alvos muito menores
Para isso, o Exército empregou os radares SABER M60 e SABER M200, além de Centros de Operações Antiaéreas Eletrônicos.
Pequenos drones representam um desafio particular para radares porque apresentam dimensões e assinaturas muito inferiores às de aviões e helicópteros convencionais.
Durante experimentos realizados no Sagitta Primus, o SABER M200 Vigilante chegou a detectar microdrones de categoria 0 a até oito quilômetros, após receber um modo de operação desenvolvido especificamente para esse tipo de alvo.
A distância importa porque cada quilômetro adicional significa mais tempo para identificar o objeto, classificá-lo como ameaça e decidir qual sistema será utilizado.
Em alguns casos, porém, a opção pode ser não disparar absolutamente nada.
Bloquear o drone antes de usar munição
A segunda camada testada pelo Exército foi a guerra eletrônica.
Foram empregados os sistemas SCE 0100, desenvolvido pela IACIT, e SCJ 2000M, da AICOX, operados por militares do 1º Batalhão de Guerra Eletrônica.
Esses equipamentos buscam interferir nas frequências utilizadas para controlar determinados drones.
Na prática, a tentativa é interromper ou degradar o enlace entre a aeronave e seu operador antes que seja necessário destruí-la com um canhão ou metralhadora.
Esse método possui vantagens especialmente em áreas onde disparar munição antiaérea pode gerar outro problema, como queda de projéteis e fragmentos sobre tropas ou regiões ocupadas.
Ele também tem limitações. Um drone programado para voar autonomamente por uma rota previamente definida pode continuar a missão mesmo sem receber comandos externos.
Por isso o exercício brasileiro não concentrou a resposta em apenas uma tecnologia.
Drone contra drone também entrou nos testes
Empresas da Base Industrial de Defesa foram convidadas a apresentar outras soluções durante o Sagitta Primus.
Entre os equipamentos demonstrados estavam torres de identificação e análise de sinais, fuzis de interceptação de frequência e drones de combate desenvolvidos para interceptação cinética de outros drones.
O objetivo era justamente observar alternativas capazes de preencher os espaços entre detecção, interferência eletrônica e destruição física.
A experiência colombiana mostra por que esse tipo de combinação ganhou urgência.
Um drone pequeno pode ser relativamente barato quando comparado a um míssil antiaéreo convencional, mas ainda assim transportar explosivos suficientes para ferir tropas, danificar instalações ou obrigar uma unidade inteira a mudar sua rotina de segurança.
E ele não precisa aparecer sozinho.
Ataques recentes na Colômbia já envolveram múltiplas aeronaves empregadas contra o mesmo objetivo, aumentando a dificuldade de detectar, acompanhar e neutralizar todas elas antes da aproximação.
No Brasil, a seção anti-SARP testada em Formosa ainda faz parte de um processo de experimentação doutrinária. O próximo passo será transformar os resultados desses exercícios em organização, equipamentos e procedimentos permanentes capazes de acompanhar uma ameaça que, a poucos quilômetros das fronteiras brasileiras, já deixou de ser experimental.