Um general da reserva do Exército argentino sugeriu usar um suposto corte de gás para enfraquecer Puerto Williams, cidade chilena situada diante de Ushuaia, no extremo sul da América do Sul. A proposta, feita por Edgar Fernando Calandín durante um podcast sobre a Antártica, provocou reação no Chile. O prefeito local respondeu com um dado decisivo: o abastecimento da cidade vem do próprio território chileno, por via marítima.
Na sexta-feira, 23 de outubro de 2026, o prefeito de Cabo de Hornos, Patricio Fernández, cobrou uma resposta da diplomacia chilena e rejeitou o uso de serviços essenciais como instrumento de pressão. No sábado, parlamentares chilenos também exigiram uma manifestação sobre as declarações.
Calandín é general de brigada da reserva e ex-comandante do Comando Conjunto Antártico argentino. Sua fala foi uma proposta pessoal apresentada numa entrevista, e não uma medida anunciada pelo governo ou pelas Forças Armadas da Argentina.
Ex-general argentino sugeriu fechar o gás para tirar Puerto Williams da disputa antártica
A afirmação surgiu no programa El Tablero, da La Fábrica del Podcast, em conversa sobre o papel da Argentina no continente gelado. Calandín defendeu transformar Ushuaia numa base de referência para ciência, logística e atividades relacionadas à Antártica, apontando vantagens geográficas da cidade argentina.
Ao comparar Ushuaia com Punta Arenas e Puerto Williams, no Chile, ele reconheceu que os chilenos avançaram mais depressa na estruturação de centros ligados às atividades antárticas. Em seguida, afirmou que a Argentina poderia usar o gás para “eliminar” Puerto Williams como concorrente e sugeriu condicionar o fornecimento a vantagens estratégicas.
A declaração foi repercutida pela imprensa chilena depois da entrevista. Calandín usou o verbo “eliminar” ao discutir a posição competitiva de Puerto Williams; a fala não integrou uma ordem oficial de operação militar.

Prefeito desmonta premissa do corte: o gás chega do Chile pelo mar
Patricio Fernández contestou diretamente o argumento de Calandín. De acordo com o comunicado divulgado integralmente pelo Infogate, Puerto Williams utiliza gás liquefeito de origem chilena, transportado de navio desde Magallanes e distribuído por uma instalação de armazenamento situada na própria comuna.
O município fica na ilha Navarino, ao sul do canal Beagle. Embora Ushuaia esteja próxima, do outro lado do canal, a estrutura de abastecimento descrita pelo prefeito não depende de uma válvula ou de um gasoduto controlado pela Argentina. A autoridade chilena afastou, assim, a possibilidade específica de interrupção sugerida pelo militar aposentado.
Fernández também rejeitou qualquer tentativa de transformar o fornecimento energético em moeda de troca por vantagens territoriais. Em sua resposta, pediu que o governo nacional proteja tanto os acordos internacionais quanto as condições de vida da população da região.

Chile constrói nova planta com cinco tanques para reforçar abastecimento na ilha Navarino
A rota chilena de gás tem um novo investimento em andamento. Em 19 de junho de 2026, o Ministério da Energia do Chile informou que a GASCO Magallanes construía uma instalação de gás liquefeito de petróleo na zona leste de Puerto Williams, ao lado da estrada Y-905.
O projeto prevê cinco reservatórios de 65 metros cúbicos cada, somando 325 metros cúbicos de capacidade nominal de armazenamento. A primeira etapa foi planejada para atender ao fornecimento industrial e à geração de eletricidade, reduzindo o uso de diesel; a segunda contempla consumidores residenciais e comerciais, sujeita à obtenção de financiamento específico.
O relatório do ministério chileno descreve ainda a intenção de transferir a atual operação de armazenagem, situada na área da Costanera, para a nova planta. Em junho, a instalação ainda estava em construção; o anúncio não estabeleceu sua conclusão em outubro.
Ushuaia e Puerto Williams disputam espaço como portas de entrada para a Antártica
Calandín discutia a posição da Argentina nos negócios, pesquisas e operações logísticas ligados ao continente antártico quando mencionou o gás. Na entrevista, criticou o ritmo da política antártica argentina e comparou o avanço de Ushuaia ao desenvolvimento de Punta Arenas e Puerto Williams.
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Essas localidades fazem parte das rotas austrais utilizadas para transporte, turismo e apoio a atividades no extremo sul. Para o ex-comandante, Ushuaia tem condições geográficas favoráveis, mas o Chile estaria aproveitando melhor o planejamento de longo prazo e a presença institucional em suas cidades.
O debate envolve infraestrutura portuária, abastecimento, conectividade e capacidade de receber operações ligadas à Antártica. Os comentários de Calandín expressam sua avaliação estratégica pessoal; a proposta de usar gás como pressão não veio acompanhada de qualquer anúncio operacional do governo argentino.
Tratado de 1984 estabelece regras para a convivência dos dois países no canal Beagle
Na resposta, Fernández lembrou que Puerto Williams é uma cidade chilena da ilha Navarino e que a relação fronteiriça entre Chile e Argentina é regulada por acordos internacionais. Entre eles está o Tratado de Paz e Amizade de 29 de novembro de 1984, firmado no Vaticano após a mediação papal na disputa austral.
O acordo foi aprovado pela Argentina por meio da Lei 23.172, de 1985. Seus primeiros artigos estabelecem compromissos de paz, amizade e solução pacífica das controvérsias entre os dois países. Fernández invocou esse marco ao pedir respeito à soberania chilena e às comunidades que vivem nas duas margens do Beagle.
O prefeito ressaltou os laços familiares, culturais e profissionais que ligam Puerto Williams a Ushuaia, afirmando que as declarações de um militar retirado não devem ser confundidas com a opinião da sociedade argentina.
Deputados chilenos cobram posição da chancelaria e resposta das autoridades argentinas
A controvérsia alcançou também o Congresso do Chile. Em 24 de outubro, parlamentares citados pelo Infogate, entre eles Álvaro Carter, Alejandro Riquelme e Sebastián Zamora, criticaram a declaração e defenderam uma reação institucional.
Zamora pediu que a chancelaria manifeste rejeição às falas e solicite às autoridades argentinas que se afastem publicamente da proposta. A deputada Catalina del Real também contestou a ideia de que Puerto Williams dependa do fornecimento argentino e classificou como inaceitável a hipótese de pressionar uma cidade por meio de energia.
As cobranças parlamentares são pedidos de posicionamento diplomático. A notícia verificada até sábado diz respeito às declarações, à resposta municipal e à reação política, sem registro de uma interrupção efetiva do abastecimento de gás de Puerto Williams.
Prefeito exige investimentos para manter população e serviços no extremo sul do Chile
Fernández aproveitou a polêmica para cobrar medidas dentro do próprio Chile. Entre as prioridades apontadas estão infraestrutura, conectividade, segurança energética, serviços públicos e um programa permanente de desenvolvimento para Puerto Williams e a província Antártica Chilena.
O prefeito defendeu mais recursos para a população da ilha, a proteção diplomática dos tratados e a continuidade da cooperação cotidiana com Ushuaia, apesar do conflito verbal provocado pelo ex-general.
O próximo movimento esperado pelos representantes municipais e parlamentares é uma resposta oficial da chancelaria chilena. Você considera que declarações de militares da reserva sobre pressão a cidades vizinhas exigem uma resposta diplomática? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe a reportagem.