Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

General argentino da reserva propõe cortar gás para pressionar cidade chilena e expõe rivalidade entre Argentina e Chile pela liderança dos portos, das rotas estratégicas e da logística de acesso à Antártica

Um general argentino da reserva sugeriu cortar o gás para pressionar Puerto Williams. Prefeito chileno rebateu a proposta com dados sobre o abastecimento marítimo e deputados cobraram uma resposta diplomática.

Noel Budeguer
Por Noel Budeguer 24/10/2026 às 15:28
Compartilhar
General argentino da reserva propõe cortar gás para pressionar cidade chilena e expõe rivalidade entre Argentina e Chile pela liderança dos portos, das rotas estratégicas e da logística de acesso à Antártica
Edgar Fernando Calandín, general argentino da reserva, durante entrevista sobre o papel de Ushuaia e Puerto Williams na Antártica. Crédito: La Fábrica del Podcast / reprodução BioBioChile (2026).

Um general da reserva do Exército argentino sugeriu usar um suposto corte de gás para enfraquecer Puerto Williams, cidade chilena situada diante de Ushuaia, no extremo sul da América do Sul. A proposta, feita por Edgar Fernando Calandín durante um podcast sobre a Antártica, provocou reação no Chile. O prefeito local respondeu com um dado decisivo: o abastecimento da cidade vem do próprio território chileno, por via marítima.

Na sexta-feira, 23 de outubro de 2026, o prefeito de Cabo de Hornos, Patricio Fernández, cobrou uma resposta da diplomacia chilena e rejeitou o uso de serviços essenciais como instrumento de pressão. No sábado, parlamentares chilenos também exigiram uma manifestação sobre as declarações.

Calandín é general de brigada da reserva e ex-comandante do Comando Conjunto Antártico argentino. Sua fala foi uma proposta pessoal apresentada numa entrevista, e não uma medida anunciada pelo governo ou pelas Forças Armadas da Argentina.

Ex-general argentino sugeriu fechar o gás para tirar Puerto Williams da disputa antártica

A afirmação surgiu no programa El Tablero, da La Fábrica del Podcast, em conversa sobre o papel da Argentina no continente gelado. Calandín defendeu transformar Ushuaia numa base de referência para ciência, logística e atividades relacionadas à Antártica, apontando vantagens geográficas da cidade argentina.

Ao comparar Ushuaia com Punta Arenas e Puerto Williams, no Chile, ele reconheceu que os chilenos avançaram mais depressa na estruturação de centros ligados às atividades antárticas. Em seguida, afirmou que a Argentina poderia usar o gás para “eliminar” Puerto Williams como concorrente e sugeriu condicionar o fornecimento a vantagens estratégicas.

A declaração foi repercutida pela imprensa chilena depois da entrevista. Calandín usou o verbo “eliminar” ao discutir a posição competitiva de Puerto Williams; a fala não integrou uma ordem oficial de operação militar.

General argentino Edgar Calandín, de uniforme militar, fala ao microfone em mesa com outros quatro participantes em seminário sobre a Antártica em 2023.
O general Edgar Calandín participa, em abril de 2023, de debate do Livro Branco da Defesa argentino sobre Antártica e Atlântico Sul, na Terra do Fogo. Crédito: Ministério da Defesa da Argentina / Divulgação (arquivo).

Prefeito desmonta premissa do corte: o gás chega do Chile pelo mar

Patricio Fernández contestou diretamente o argumento de Calandín. De acordo com o comunicado divulgado integralmente pelo Infogate, Puerto Williams utiliza gás liquefeito de origem chilena, transportado de navio desde Magallanes e distribuído por uma instalação de armazenamento situada na própria comuna.

O município fica na ilha Navarino, ao sul do canal Beagle. Embora Ushuaia esteja próxima, do outro lado do canal, a estrutura de abastecimento descrita pelo prefeito não depende de uma válvula ou de um gasoduto controlado pela Argentina. A autoridade chilena afastou, assim, a possibilidade específica de interrupção sugerida pelo militar aposentado.

Fernández também rejeitou qualquer tentativa de transformar o fornecimento energético em moeda de troca por vantagens territoriais. Em sua resposta, pediu que o governo nacional proteja tanto os acordos internacionais quanto as condições de vida da população da região.

Vista aérea de Puerto Williams, no Chile, com casas e ruas cobertas de neve e montanhas da ilha Navarino ao fundo.
Puerto Williams, na ilha Navarino, Chile, vista do alto durante período de neve em maio de 2025. Foto: Mat Austro / Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0.

Chile constrói nova planta com cinco tanques para reforçar abastecimento na ilha Navarino

A rota chilena de gás tem um novo investimento em andamento. Em 19 de junho de 2026, o Ministério da Energia do Chile informou que a GASCO Magallanes construía uma instalação de gás liquefeito de petróleo na zona leste de Puerto Williams, ao lado da estrada Y-905.

O projeto prevê cinco reservatórios de 65 metros cúbicos cada, somando 325 metros cúbicos de capacidade nominal de armazenamento. A primeira etapa foi planejada para atender ao fornecimento industrial e à geração de eletricidade, reduzindo o uso de diesel; a segunda contempla consumidores residenciais e comerciais, sujeita à obtenção de financiamento específico.

O relatório do ministério chileno descreve ainda a intenção de transferir a atual operação de armazenagem, situada na área da Costanera, para a nova planta. Em junho, a instalação ainda estava em construção; o anúncio não estabeleceu sua conclusão em outubro.

Ushuaia e Puerto Williams disputam espaço como portas de entrada para a Antártica

Calandín discutia a posição da Argentina nos negócios, pesquisas e operações logísticas ligados ao continente antártico quando mencionou o gás. Na entrevista, criticou o ritmo da política antártica argentina e comparou o avanço de Ushuaia ao desenvolvimento de Punta Arenas e Puerto Williams.

Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora

Entrar no grupo agora

Essas localidades fazem parte das rotas austrais utilizadas para transporte, turismo e apoio a atividades no extremo sul. Para o ex-comandante, Ushuaia tem condições geográficas favoráveis, mas o Chile estaria aproveitando melhor o planejamento de longo prazo e a presença institucional em suas cidades.

O debate envolve infraestrutura portuária, abastecimento, conectividade e capacidade de receber operações ligadas à Antártica. Os comentários de Calandín expressam sua avaliação estratégica pessoal; a proposta de usar gás como pressão não veio acompanhada de qualquer anúncio operacional do governo argentino.

Tratado de 1984 estabelece regras para a convivência dos dois países no canal Beagle

Na resposta, Fernández lembrou que Puerto Williams é uma cidade chilena da ilha Navarino e que a relação fronteiriça entre Chile e Argentina é regulada por acordos internacionais. Entre eles está o Tratado de Paz e Amizade de 29 de novembro de 1984, firmado no Vaticano após a mediação papal na disputa austral.

O acordo foi aprovado pela Argentina por meio da Lei 23.172, de 1985. Seus primeiros artigos estabelecem compromissos de paz, amizade e solução pacífica das controvérsias entre os dois países. Fernández invocou esse marco ao pedir respeito à soberania chilena e às comunidades que vivem nas duas margens do Beagle.

O prefeito ressaltou os laços familiares, culturais e profissionais que ligam Puerto Williams a Ushuaia, afirmando que as declarações de um militar retirado não devem ser confundidas com a opinião da sociedade argentina.

Deputados chilenos cobram posição da chancelaria e resposta das autoridades argentinas

A controvérsia alcançou também o Congresso do Chile. Em 24 de outubro, parlamentares citados pelo Infogate, entre eles Álvaro Carter, Alejandro Riquelme e Sebastián Zamora, criticaram a declaração e defenderam uma reação institucional.

Zamora pediu que a chancelaria manifeste rejeição às falas e solicite às autoridades argentinas que se afastem publicamente da proposta. A deputada Catalina del Real também contestou a ideia de que Puerto Williams dependa do fornecimento argentino e classificou como inaceitável a hipótese de pressionar uma cidade por meio de energia.

As cobranças parlamentares são pedidos de posicionamento diplomático. A notícia verificada até sábado diz respeito às declarações, à resposta municipal e à reação política, sem registro de uma interrupção efetiva do abastecimento de gás de Puerto Williams.

Prefeito exige investimentos para manter população e serviços no extremo sul do Chile

Fernández aproveitou a polêmica para cobrar medidas dentro do próprio Chile. Entre as prioridades apontadas estão infraestrutura, conectividade, segurança energética, serviços públicos e um programa permanente de desenvolvimento para Puerto Williams e a província Antártica Chilena.

O prefeito defendeu mais recursos para a população da ilha, a proteção diplomática dos tratados e a continuidade da cooperação cotidiana com Ushuaia, apesar do conflito verbal provocado pelo ex-general.

O próximo movimento esperado pelos representantes municipais e parlamentares é uma resposta oficial da chancelaria chilena. Você considera que declarações de militares da reserva sobre pressão a cidades vizinhas exigem uma resposta diplomática? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe a reportagem.

guest
0 Comentários