O edital, aberto em 15 de outubro com parceria australiana, exige 72 horas de energia silenciosa no posto de comando e recebe propostas até 10 de novembro.
Os soldados de uma companhia britânica em campo podem deixar de depender só de geradores a diesel, pesados e barulhentos, para carregar rádio, drone e visor térmico. O UK Defence Innovation, braço de inovação da Defesa do Reino Unido, abriu em 15 de outubro um edital do Exército com £ 2,45 milhões, cerca de R$ 16,6 milhões, para quem desenvolver energia silenciosa de campanha, e deixou de fora qualquer solução baseada em bateria de lítio-íon.
O documento não explica o veto ao lítio e pede apenas química de bateria “com alta segurança inerente”. No Brasil, unidades do Exército ainda compram gerador a diesel uma a uma: em maio, o 20º Grupo de Artilharia de Campanha, em Barueri (SP), homologou por R$ 5.090,86 a compra de um aparelho de 5,5 kVA que faz 79 decibéis a 7 metros, segundo o Portal Nacional de Contratações Públicas.
Por que o Exército quer trocar o gerador
O edital é direto sobre o problema. Os sistemas em uso nos exércitos britânico e australiano “dependem apenas de combustíveis”, são “pesados, volumosos e barulhentos” e não acompanham o aumento do consumo, diz o texto. A energia guardada, quando existe, vem de carregadores portáteis comprados avulsos no comércio, sem cadeia de reposição.
Os testes feitos pelos dois exércitos mostraram outro gargalo. Depois de pouco tempo de ação, a bateria pode precisar de até 12 horas de recarga, o que o documento chama de impraticável, e os geradores não funcionam com a tropa em movimento.
Quanto consome uma companhia de 110 militares
Na prática, o edital mede a demanda por degrau. Cada soldado precisa de 180 Wh a cada 24 horas e deve aguentar 48 horas sem passar pela central da companhia, e um pelotão de cerca de 30 militares consome 69 kWh por dia. A companhia inteira chega a 260 kWh diários, e só o posto de comando responde por 50 kWh, quase um quinto do total.
O posto de comando tem a exigência mais dura: 72 horas de energia silenciosa sem recorrer ao sistema central. Ali ficam rádios, computadores e terminal Starlink, com demanda de 2 a 3 kW, segundo a tabela de equipamentos do edital.
A mesma tabela mostra o tamanho da conta na ponta. Um rádio individual gasta cerca de 1 kWh por dia, um drone de 2 a 3 kWh e os sistemas antidrone outros 2 a 3 kWh. Equipamentos de guerra eletrônica pedem de 5 a 10 kW, e um radar de contrabateria, de 10 a 20 kW.
Lítio fora, diesel ainda dentro
Na lista do que não interessa, o edital põe em primeiro lugar as soluções baseadas em baterias de lítio-íon. Também ficam de fora sistemas de energia montados em veículos terrestres não tripulados e soluções que prendam o Exército a um único fornecedor de bateria, armazenamento ou software.
O documento não dá a razão do veto. Os requisitos pedem baterias de química com alta segurança inerente, que operem de 10 graus negativos a 40 graus, e a lista de inovações procuradas começa por “química mais segura” com densidade de energia igual ou maior.
O combustível continua no jogo. O edital prefere geração a partir do diesel militar F-54, com mínimo de 3 kW contínuos e 6 kW de pico no nível da companhia, e aceita alternativas se o ganho compensar o peso logístico.
Caber num reboque e montar em dez minutos
O sistema inteiro tem de gerar e gerenciar energia dentro da área de um reboque Otan de 1,2 tonelada. Nenhuma peça pode passar de 80 kg, os módulos de armazenamento ficam abaixo de 20 kg e o que vai no corpo do soldado, abaixo de 5 kg.
A montagem precisa ser feita sem ferramentas em menos de 10 minutos. O equipamento deve resistir a lama, areia, imersão e choque de transporte, durar pelo menos 1.000 ciclos de recarga e ter vida útil de cinco anos.
A saída tem de servir ao que a tropa já usa: tomada de 230 V, corrente contínua de 24 V e 12 V e USB-C de 60 W, com meta de 100 W. O texto pede ainda que o conjunto seja operado por não especialistas e seguro desde o projeto.
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Quem pode concorrer e quanto há para dividir
Só entram empresas registradas no Reino Unido, na Companies House, com o trabalho feito em território britânico. A tecnologia já precisa estar no nível 4 de maturidade, numa escala que vai até 9, e cada empresa pode mandar até três propostas.
Os £ 2,45 milhões, sem o imposto sobre valor agregado, equivalem a R$ 16,6 milhões pela PTAX de venda de 16 de outubro, de R$ 6,7756 por libra, segundo o Banco Central. O edital avisa que o valor pode ser dividido entre várias propostas.
O mesmo formulário abre uma segunda frente, sem dinheiro prometido. Chamada de Problema de Energia Imediato, ela procura produtos que possam chegar ao mercado em até 12 meses, e os mais promissores podem ser chamados para uma demonstração, provavelmente em Warminster, no condado de Wiltshire.
Uma frota de mais de 4 mil geradores
O gerador de campanha em uso no Exército britânico, o Lightweight Field Generator, tem requisito de frota de mais de 4 mil unidades, informa o edital. O texto liga o desafio às atualizações de fim de vida desse equipamento e fala em intenção de uma compra significativa em 2027, ainda que não nessa escala.
Os resultados vão para a equipe de compras rápidas do Exército, o Project Rapstone, e para a dos Royal Marines. O documento cita como destino as tropas desdobradas pelo mundo, especialmente na Europa continental.
Austrália e Estados Unidos acompanham
O edital é tocado em parceria com o Advanced Strategic Capabilities Accelerator, o acelerador de capacidades estratégicas da Austrália. As propostas podem ser compartilhadas com o governo australiano, e os resultados dos projetos financiados, também com o dos Estados Unidos.
Representantes dos dois países podem assistir às demonstrações. A apresentação final tem de acontecer até o fim de fevereiro de 2028, provavelmente no Reino Unido, e as empresas precisam orçar também até duas semanas de demonstração na Austrália.
Como é no Brasil
No Exército Brasileiro, os registros públicos mostram compras pontuais de geradores a diesel feitas pelas próprias unidades, por dispensa de licitação. Em Criciúma (SC), o 28º Grupo de Artilharia de Campanha homologou em maio a compra de oito geradores a diesel de 8 kVA por R$ 55.111,92, para garantir energia em emergências ou em locais sem rede elétrica, segundo o PNCP.
Em Santa Maria (RS), o 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado abriu em 8 de outubro a contratação da manutenção corretiva de cinco grupos geradores móveis, estimada em R$ 17.897,50. Nenhum dos três registros trata de energia silenciosa ou de armazenamento para a tropa em movimento.
A experiência brasileira mais próxima de uma rede híbrida está longe dos quartéis. Na Estação Antártica Comandante Ferraz, aerogeradores e painéis solares trabalham ao lado dos geradores a diesel.
Os próximos prazos até 2028
As dúvidas da primeira etapa devem chegar até 4 de novembro para ter resposta a tempo, e as respostas serão publicadas na página do edital no site do governo britânico. Seis dias depois, ao meio-dia de 10 de novembro, no horário de Greenwich, fecha o prazo das propostas.
Quem passar recebe o convite para a segunda etapa em 17 de novembro e entrega o projeto completo até 15 de dezembro. O retorno sai até 23 de fevereiro de 2027, a meta é começar os contratos em março e os projetos têm de terminar até 31 de março de 2028.