Ministro britânico já admitiu que não há prazo para o substituto; a Argentina mantém o Irízar, que rompe gelo duas vezes mais grosso, e o Brasil opera navios polares sem quebra-gelo.
O Reino Unido está sem o único navio quebra-gelo da Royal Navy, o que patrulha o Atlântico Sul e a Antártica a partir da região das Malvinas. O HMS Protector, de 25 anos, entrou em Devonport, em Plymouth, puxado por rebocadores depois de sofrer, na manhã de terça-feira, 13 de outubro, o que o jornal britânico The Telegraph chamou de “defeito duplo de motor”.
A Marinha britânica não explica o que quebrou nem diz se o conserto compensa. Em nota dada ao Telegraph e reproduzida pelo jornal The News, de Portsmouth, ela afirma apenas que o navio voltou ao porto-sede “enquanto são feitas investigações sobre um defeito” e que decisões sobre o futuro imediato dele “serão tomadas no devido tempo”.
Como o navio chegou a Devonport
Segundo o Telegraph, a pane aconteceu quando o Protector tentava deixar águas britânicas. O site Navy Lookout informa que o navio não conseguiu sair com propulsão própria e fez todo o trajeto desde Teesside, no nordeste da Inglaterra, a reboque.
Rebocadores comerciais puxaram o casco durante a viagem, e os da Serco Marine Services assumiram a manobra perto do porto, relata o site gCaptain. Uma fonte da Royal Navy ouvida pelo Telegraph sem se identificar descreveu o caso como “falha catastrófica”, termo que a Marinha não repete na nota.
O texto oficial mantém o navio na ativa. “Ele continua parte da frota”, diz a Royal Navy, que no mesmo parágrafo anuncia que o Protector será trocado por “uma variante mais moderna para manter a capacidade de patrulha de gelo”.
Por que o momento pesa no Atlântico Sul
O ex-oficial da Royal Navy Tom Sharpe, que comandou o HMS Endurance, antecessor do Protector, disse ao Telegraph que tirar a patrulha de gelo do Atlântico Sul agora é “má escolha de momento”. A crítica vem, nas palavras dele, num período de renovada bravata argentina sobre as Malvinas, segundo o The News.
O antecessor deixa um precedente. O Endurance ficou fora de combate depois de um alagamento acidental na costa do Chile, em dezembro de 2008, e nenhum navio de patrulha de gelo britânico foi ao sul nas duas temporadas seguintes, registra o Navy Lookout. Em 2013, o Ministério da Defesa admitiu que o reparo não compensava, e o casco foi rebocado para desmanche na Turquia em 2016.
Um navio norueguês alugado às pressas
O Protector nasceu civil. Foi concluído em outubro de 2001 como MV Polarbjørn, navio de pesquisa polar e apoio submarino da norueguesa GC Rieber Shipping, e chegou à Royal Navy em abril de 2011 como solução temporária de três anos para cobrir a falta do Endurance, informa o Navy Lookout.
O aluguel custava £ 8,7 milhões por ano, segundo o MercoPress, perto de R$ 58,3 milhões em valores nominais. A compra veio em 2013, e o preço registrado varia: £ 51 milhões para o MercoPress e o gCaptain, ou £ 54 milhões com um ano de suporte incluído, para o Navy Lookout.
Na PTAX de venda de 15 de outubro de 2026, de R$ 6,6971 por libra, a compra equivale a R$ 341,6 milhões ou R$ 361,6 milhões, em valores da época. O navio tem classe de gelo DNV 05 e navega em gelo do primeiro ano de até 0,5 metro, com tripulação habitual de 88 pessoas, diz o Maritime Executive.
Quanto o navio já parou
Não é a primeira pane grave. Em 2019, um defeito de propulsão no Caribe levou a uma reforma de dez meses em Teesside, ao custo de £ 14 milhões, cerca de R$ 93,8 milhões nominais, e o navio perdeu a temporada antártica de 2020-21, segundo o Navy Lookout.
A sequência recente é mais longa. O Protector entrou em dique seco em Teesside em maio de 2025 para a docagem obrigatória a cada cinco anos, saiu em agosto e chegou a Devonport em 12 de dezembro para testes. Não foi para o sul na temporada 2025-26 e passou boa parte de 2026 de volta a Teesside.
A conta é esta: a última temporada do navio na Antártica terminou em fevereiro de 2025, em Punta Arenas, no Chile, há 20 meses. O Navy Lookout afirma que 25 anos costumam ser o limite de vida útil para navios do tipo e avalia que o Protector provavelmente não vale mais o conserto.
Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
Para que serve a patrulha de gelo
Na prática, o navio fazia o trabalho do Estado britânico no gelo. Observava estações estrangeiras com base no Tratado da Antártida, inspecionava a pesca no Oceano Austral e fazia levantamentos hidrográficos, segundo o Navy Lookout. Em 2017, participou das buscas pelo submarino argentino ARA San Juan.
O navio de pesquisa RRS Sir David Attenborough, do British Antarctic Survey, segue abastecendo as bases científicas, mas não cumpre as tarefas de patrulha, levantamento e inspeção, diz o gCaptain. O Ministério da Defesa sustenta que sobrevoos ocasionais da RAF a partir das Malvinas bastam para as obrigações de soberania e do tratado, registra o Navy Lookout.
Quando chega o substituto
O Plano de Investimento em Defesa, publicado em 30 de junho de 2026, prevê trocar o Protector por uma variante mais moderna, para o Ártico e a Antártica. Em 8 de julho, o ministro Luke Pollard respondeu por escrito ao deputado conservador Ben Obese-Jecty que há dinheiro reservado, mas que o prazo depende do modelo de compra, “ainda não decidido”, mostra o registro do Parlamento britânico.
O deputado voltou a perguntar em setembro. Na resposta de 15 de setembro, Pollard escreveu que as decisões sobre o método de compra e o cronograma exato “serão tomadas no devido tempo”. O The News estima que, se o Protector sair de vez, o substituto pode chegar só nos anos 2030.
Como Argentina e Brasil vão ao gelo
Argentina e Chile mandam quebra-gelos navais ao sul em todas as temporadas, informa o Navy Lookout. O quebra-gelo ARA Almirante Irízar, da Armada Argentina, desloca 14.140 toneladas a plena carga e tem 121,3 metros, segundo a ficha oficial da Armada.
O Irízar navega em gelo contínuo de até 1 metro, o dobro do que o Protector enfrenta, e rompe placas de 5 a 6 metros ao avançar sobre elas. Leva 312 tripulantes, tem autonomia de 60 dias e foi construído pela Wärtsilä, na Finlândia, em 1977, com entrega em 15 de dezembro de 1978.
O Brasil não tem quebra-gelo. O Almirante Maximiano é navio polar, incorporado à Marinha em 3 de fevereiro de 2009, com 93,4 metros, lugar para 35 pesquisadores e cinco laboratórios, segundo o plano de ação 2007-2010 do Ministério da Ciência e Tecnologia. Ele e o Ary Rongel partiram em 4 de outubro para a Operação Antártica XLV, com volta prevista para abril de 2027.
O substituto do Ary Rongel, o navio de apoio antártico Almirante Saldanha, está em construção no Estaleiro Jurong Aracruz, no Espírito Santo. A quilha foi batida em outubro de 2023, diz a Janes, que descreve 103,16 metros, 6.804 toneladas e contrato de cerca de US$ 150 milhões, perto de R$ 757,8 milhões pela PTAX de 15 de outubro (R$ 5,0521).
Devonport decide se o Protector volta ao mar
A temporada antártica 2026-27 já começou para os vizinhos sul-americanos, com os dois navios brasileiros a caminho do continente gelado. O Saldanha tinha incorporação prevista para o segundo semestre de 2025, segundo a Janes, e não está entre os que partiram neste mês.
Para o Reino Unido, o próximo passo é o resultado da investigação do defeito em Devonport, que a Royal Navy não tem data para divulgar. Até lá, o país segue sem navio de patrulha de gelo no Atlântico Sul e sem prazo para o substituto que o ministro Pollard já disse ter dinheiro para comprar.