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Independência militar do Brasil por satélite tem prazo de validade: EUA não podem limitar nossos drones hoje, mas o quadro pode mudar rapidamente

EUA limitaram drones ucranianos via Starshield. No Brasil, o satélite militar SGDC garante autonomia, mas tem cerca de seis anos de vida útil e ainda não tem substituto.

Robson Augusto
Por Robson Augusto 18/10/2026 às 12:28
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Independência militar do Brasil por satélite tem prazo de validade: EUA não podem limitar nossos drones hoje, mas o quadro pode mudar rapidamente
Drone RQ-900 operando em um ambiênte de guerra - imagem ilustrativa IA

O limite que os Estados Unidos impuseram em 14 de outubro aos terminais Starshield, a versão militar da Starlink usada pela Ucrânia, não alcança os drones das Forças Armadas brasileiras. A Força Aérea Brasileira (FAB), a Marinha e o Exército pilotam suas aeronaves remotas por enlace de visada direta ou pelo SGDC, o satélite militar controlado em Brasília. Essa autonomia, porém, tem data para acabar. O governo calcula que restam cerca de seis anos de vida útil ao SGDC, e o país não fabrica nem lança um substituto por conta própria.

Limite de 161 km/h atingiu drones ucranianos sem aviso

A restrição foi detectada na madrugada de 14 de outubro. O teto de 161 km/h se aplica à velocidade do terminal que carrega a antena de satélite, e não ao desempenho mecânico do drone nem à banda de internet. Quando o veículo passa do limite, o terminal perde a conexão. Fontes do Ministério da Defesa ucraniano relataram quedas entre cerca de 72 km/h e 161 km/h, conforme o equipamento e a unidade.

Os terminais da SpaceX orientam ataques de drones de longo alcance nas regiões ocupadas pela Rússia, no sul e no leste da Ucrânia, operações que vêm causando danos à logística russa. Serhii Beskrestnov, assessor de tecnologia do presidente Volodimir Zelenski, afirmou que as Forças Armadas não receberam aviso e que várias missões fracassaram. Zelenski disse ao jornalista britânico Piers Morgan esperar que fosse um erro ou um grande problema técnico.

Musk diz que a decisão é do presidente dos EUA

Elon Musk se eximiu da responsabilidade. Escreveu que limites de velocidade ou de uso são decididos pelos militares americanos e, em última instância, pelo presidente dos Estados Unidos. Ele separou o Starshield, que pertence ao governo americano e é controlado por ele, da Starlink civil, controlada pela SpaceX e que não pode ser usada em operações ofensivas.

O ex-ministro da Defesa ucraniano Mykhailo Fedorov informou depois que a conexão até 160 km/h estava sendo restabelecida. A Reuters noticiou, citando duas autoridades americanas, que a ordem partiu da Casa Branca. O jornal The Telegraph afirmou que Musk levou a ideia a Donald Trump. Trump negou em 16 de outubro que a Casa Branca tenha ordenado a restrição.

O episódio ocorreu enquanto Washington pressionava Kiev a suspender ataques a refinarias russas. Na mesma semana, Trump anunciou um acordo para ampliar a oferta de diesel russo e um cessar-fogo energético que nenhum dos lados vinha respeitando.

RQ-900 da FAB voa pelo satélite brasileiro

O maior drone militar do país é o RQ-900 Hermes 900, do Esquadrão Hórus. Na FAB, ele usa antena direcional para controle por visada direta. Também pode ser controlado por satélite através do Sistema de Comunicações Militares por Satélite, que roda sobre o SGDC. Por esse canal, a aeronave pode ser pilotada diretamente da estação do Comando de Operações Aeroespaciais (COMAE), em Brasília.

A Marinha opera o ScanEagle, da Insitu, subsidiária da Boeing. O alcance é de até 100 km, conforme a antena e o enlace com o centro de controle, e a velocidade de cruzeiro gira em torno de 110 km/h. O Exército usa o Nauru 1000C, da brasileira XMobots, e prevê obter versões armadas com mísseis até o fim do ciclo estratégico 2024-2027. Não há registro público de terminais Starlink ou Starshield nesses drones.

Satélite é operado por militares brasileiros em Brasília

O SGDC foi lançado em 2017. É operado pelo Centro de Operações Espaciais (COPE), em Brasília. Pela banda Ka, a Telebras fornece banda larga a programas do governo federal. Pela banda X, a FAB acompanha as operações de satélites militares junto com o Exército e a Marinha.

A banda X equivale a 30% da capacidade do satélite e é de uso exclusivo das Forças Armadas. O SGDC foi fabricado pela francesa Thales Alenia Space. Segundo a FAB, ao fim dos testes o controle passou para Brasília, a criptografia foi ativada e a fabricante perdeu o acesso ao satélite.

Por isso, não existe hoje um governo estrangeiro com poder contratual de reduzir ou cortar o serviço, como Washington tem sobre o Starshield. O controle, o monitoramento e a operação são feitos por brasileiros, em território nacional, embora o país ainda não domine a fabricação nem o lançamento de satélites geoestacionários.

Interferência e ataque continuam possíveis

Autonomia de controle não significa invulnerabilidade. Como qualquer satélite, o SGDC pode sofrer interferência deliberada, o chamado jamming, por transmissores potentes que encobrem o sinal numa região. A banda X militar oferece mais proteção que a civil, mas não elimina esse risco.

As estações em solo também são alvo possível, tanto de ataques cibernéticos quanto físicos. No lançamento, estavam previstos gateways em Campo Grande e no Rio de Janeiro, em áreas do Exército e da Marinha. Já as armas antissatélite demonstradas por EUA, Rússia, China e Índia foram testadas em órbita baixa. Atingir um satélite geoestacionário, a cerca de 36 mil km, é bem mais difícil e seria um ato de guerra aberto.

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A dependência da rede de Musk existe em outra camada. Em um contrato, o Exército justificou a escolha da Starlink pela facilidade, flexibilidade e rapidez para estabelecer enlaces de comando e controle de um Grande Comando Operacional. O Ministério da Defesa informou ao Congresso que um eventual cancelamento traria prejuízo ao emprego estratégico de tropas especializadas.

A Marinha contratou a Starlink para conectar o Navio-Aeródromo Multipropósito Atlântico, e o Exército usa o serviço principalmente em equipamentos no Norte do país. A Defesa citou também os Pelotões Especiais de Fronteira, em locais sem operadoras convencionais. No exercício CORE25 com tropas americanas, em Pernambuco, o Exército destinou R$ 179 mil ao serviço. A FAB foi a única Força a declarar que não usa a tecnologia.

Os contratos brasileiros conhecidos são da Starlink comercial, controlada pela SpaceX, e não do Starshield, que pertence ao governo americano. A diferença importa: no caso ucraniano, a limitação recaiu justamente sobre o pacote militar.

Prazo do SGDC termina por volta de 2032

O ministro das Comunicações, Frederico Siqueira Filho, disse que o SGDC tem mais seis anos e que o governo quer definir rapidamente o futuro do programa satelital. “O SGDC-2 está na nossa pauta, já tem orçamento no PLOA, no plano da Lei Orçamentária Anual de 2027, para início do projeto”, afirmou o ministro.

As alternativas de baixa órbita disponíveis no país são estrangeiras. A Starlink, americana, passou de 1 milhão de assinantes no Brasil em fevereiro de 2026, o que faz do país o segundo maior mercado da empresa. A chinesa SpaceSail firmou parceria com a Telebras e pediu à Anatel autorização para operar mais de 600 satélites sobre o território brasileiro.

O próprio Exército reconhece o problema. No plano estratégico de R$ 456 bilhões até 2040, entregue ao presidente Lula em março, a Força aponta dependência excessiva de cadeias de fornecimento externas. Ao mesmo tempo, prepara o primeiro Batalhão de Drones, em Taubaté (SP), depois de identificar 87 empresas capazes de desenvolver os equipamentos.

Mick Ryan: aliados vão buscar comunicações soberanas

O general da reserva australiano Mick Ryan, autor do boletim Futura Doctrina, avaliou em 18 de outubro que o caso mostrou que um governo pode alterar seu apoio militar sem aviso por meio de uma rede comercial. Para ele, os aliados dos EUA tendem a reagir com reservas de combustível maiores, comunicações redundantes e soberanas, produção doméstica de drones e mísseis e laços regionais mais estreitos.

Ryan cita o analista Joshua VerGow, do Atlantic Council: quando uma força passa a depender de uma tecnologia comercial, a disponibilidade dela vira premissa do planejamento e da forma de combater. É o cenário que o Brasil pode enfrentar se o sucessor do SGDC atrasar e a capacidade militar migrar para redes estrangeiras.

Hoje, Washington não tem como reduzir a velocidade de um drone brasileiro com uma ordem, como fez com Kiev. A decisão sobre o substituto do SGDC vai determinar se essa condição sobrevive à próxima década ou se as Forças Armadas Brasileiras passarão a operar sob regras definidas fora do país.

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