No início de 2026, o governo Lula recebeu planos do Exército e da Marinha que, somados, chegam a aproximadamente R$ 706 bilhões até 2040, com propostas para novos armamentos, fragatas, submarinos e sistemas de defesa contra drones e mísseis. Meses depois, a dificuldade para financiar a modernização militar continua em debate, enquanto uma PEC que prevê destinar 2% do PIB à Defesa permanece sem votação no Senado.
Na época, os valores chamaram atenção pelo tamanho das necessidades apresentadas pelas duas Forças. O Exército calculou aproximadamente R$ 456 bilhões, enquanto a Marinha apresentou um planejamento que pode superar R$ 250 bilhões, incluindo a renovação de equipamentos e outras despesas previstas para os próximos anos.
Os números, entretanto, não representam um pacote único de investimentos já aprovado pelo governo. No planejamento do Exército, cerca de dois terços da estimativa correspondem a custos operacionais e de manutenção, enquanto o restante está relacionado à aquisição e ao desenvolvimento de novas capacidades militares.
Desde a apresentação desses planos, o governo encaminhou ao Congresso o Orçamento de 2027, com R$ 147,68 bilhões previstos para o Ministério da Defesa. A proposta precisa atender às despesas de pessoal, ao funcionamento das organizações militares e à continuidade dos programas de modernização.
Exército apresentou plano para enfrentar drones e mísseis, mas falta de recursos já atrasava projetos
O planejamento levado ao governo pelo Exército reorganizou as prioridades da Força Terrestre diante das mudanças observadas nos conflitos internacionais, principalmente no emprego de drones, mísseis e ataques de precisão.
A proposta concentrou os esforços em sete grandes programas estratégicos, em substituição à estrutura anterior de 14 programas, buscando direcionar os recursos às capacidades consideradas mais importantes.
Uma das prioridades é a ampliação da defesa antiaérea de média altura, com previsão de novos radares, sistemas de comando e controle e centenas de mísseis. O Exército também incluiu a modernização de blindados, o desenvolvimento de drones e a continuidade de projetos nacionais de mísseis e foguetes.
O problema do financiamento, porém, já havia sido exposto antes mesmo da apresentação desse novo planejamento.
Em setembro de 2025, durante uma audiência no Senado, o general de divisão Everton Pacheco da Silva, então chefe do Escritório de Projetos Estratégicos do Exército, informou que o órgão acompanhava 73 projetos, dos quais aproximadamente um terço ainda não havia começado por falta de recursos.
Na ocasião, apenas 26 estavam efetivamente implantados, segundo o oficial, que também relatou dificuldades para cumprir contratos e cronogramas diante da insuficiência dos repasses.
Os números apresentados em 2025 retratavam a situação daquele momento e não representam uma contagem atualizada dos projetos em outubro de 2026. Ainda assim, mostram que as dificuldades financeiras já afetavam a modernização militar antes da reorganização anunciada neste ano.
Marinha apresentou plano de R$ 250 bilhões enquanto oficiais alertavam para redução de capacidades
A Marinha também levou ao governo um planejamento de longo prazo para renovar sua esquadra e ampliar a presença militar nas águas brasileiras.
Entre as prioridades estão a expansão do Programa Fragatas Classe Tamandaré, que atualmente prevê quatro embarcações e pode chegar a oito unidades, além da continuidade do submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto.
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O plano também contempla novos navios-patrulha, embarcações anfíbias e sistemas de vigilância destinados à proteção da Amazônia Azul, onde estão concentradas importantes rotas comerciais, instalações de petróleo e outras estruturas estratégicas.
A necessidade de recursos já havia sido discutida publicamente em setembro de 2025, quando o almirante de esquadra Alexandre Rabello de Faria, diretor-geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha, participou da audiência sobre o financiamento das Forças Armadas.
Na ocasião, o oficial afirmou que o orçamento da Marinha havia sofrido uma redução de 62% nos dez anos anteriores, conforme os dados apresentados pela Força, e relacionou a queda à diminuição dos meios disponíveis para defender o país.
O problema também atingia a Aeronáutica. Na mesma audiência, o tenente-brigadeiro do Ar Walcyr Josué de Castilho Araújo informou que a quantidade de aeronaves em condições de operar havia diminuído aproximadamente 40% em dez anos, enquanto as horas de voo recuaram cerca de 50%.
As declarações, feitas em 2025, reforçaram uma preocupação compartilhada pelos comandos militares: além de comprar equipamentos modernos, as Forças precisam manter navios, blindados e aeronaves em condições de operação, com recursos para combustível, manutenção, peças e treinamento.
PEC dos 2% do PIB continua parada no Senado desde 2025
Foi diante das dificuldades para manter programas militares de longo prazo que ganhou força a proposta de estabelecer um percentual mínimo do orçamento federal destinado à Defesa.
Apresentada em outubro de 2023 pelo senador Carlos Portinho (PL-RJ) e outros parlamentares, a PEC 55/2023 prevê que o Ministério da Defesa receba anualmente pelo menos 2% do Produto Interno Bruto do ano anterior.
O texto também estabelece que no mínimo 35% das despesas discricionárias da pasta sejam destinados a projetos estratégicos que priorizem a indústria nacional de defesa.
A mudança teria impacto expressivo no planejamento financeiro das Forças Armadas. Para dimensionar o valor, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o PIB brasileiro alcançou aproximadamente R$ 12,7 trilhões em 2025.
Se o percentual integral de 2% fosse aplicado tomando esse resultado como referência, o orçamento mínimo corresponderia a cerca de R$ 254 bilhões anuais. O cálculo é ilustrativo, já que a PEC ainda não foi aprovada e também prevê regras de transição para sua implementação.
A reserva também não seria destinada exclusivamente à compra de armamentos. O orçamento do Ministério da Defesa inclui despesas com pessoal, funcionamento das unidades militares, manutenção e investimentos.
Apesar das discussões sobre sua importância, a PEC permanece sem votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.
O último andamento registrado ocorreu em 9 de julho de 2025, quando foram aprovados requerimentos para a realização de audiências públicas. A proposta continua sob relatoria do senador Randolfe Rodrigues (PT-AP).
Em setembro daquele ano, a Comissão de Relações Exteriores promoveu um debate sobre o tema, reunindo representantes das três Forças e da indústria militar. O encontro, porém, não resultou em avanço da tramitação na CCJ.
Orçamento de 2027 prevê R$ 5,34 bilhões para Gripen, programa nuclear e blindados
Enquanto a PEC não avança, os investimentos militares continuam dependendo das dotações previstas nos orçamentos anuais.
No Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027, encaminhado ao Congresso em 31 de agosto de 2026, três grandes empreendimentos da Defesa aparecem no Novo PAC com recursos que somam aproximadamente R$ 5,34 bilhões.
A maior parcela, de R$ 2,89 bilhões, está prevista para o programa F-X2, responsável pela aquisição dos caças Gripen da FAB.
O Programa Nuclear da Marinha aparece com R$ 1,43 bilhão, enquanto a renovação da frota de blindados do Exército conta com previsão de R$ 1,02 bilhão.
Esses valores representam apenas uma parte dos recursos destinados aos projetos militares em 2027. Também são previsões orçamentárias, e não pagamentos já realizados.
Para programas que atravessam diferentes governos, a regularidade dos repasses tem consequências diretas. A construção de submarinos, o desenvolvimento de aeronaves e a fabricação de blindados dependem de etapas industriais e contratos que podem se estender por muitos anos.
A insuficiência de recursos foi justamente um dos problemas apontados pelos representantes das Forças Armadas na audiência de 2025, quando relataram adiamentos e dificuldades para cumprir os cronogramas originalmente estabelecidos.
Leis abriram espaço fiscal para investimentos militares, mas PEC ainda depende do Senado
Em novembro de 2025, Lula sancionou a Lei Complementar 221, que abriu espaço fiscal para determinados investimentos estratégicos das Forças Armadas.
A legislação permite retirar essas despesas do cálculo das metas fiscais e dos limites de gastos entre 2026 e 2031, respeitando as dotações previstas para os projetos e um teto de R$ 5 bilhões por exercício. Em tese, o mecanismo pode alcançar até R$ 30 bilhões no período, mas a lei também autorizou antecipações em 2025, que são descontadas do limite de 2026.
Em agosto de 2026, a Lei Complementar 235 acrescentou uma autorização excepcional de até R$ 2,5 bilhões para aquele exercício. Os valores eventualmente empenhados com base nessa regra adicional deverão ser descontados dos limites previstos para 2028.
Essas medidas não representam uma liberação automática de dinheiro. Os recursos continuam dependendo do orçamento e das etapas necessárias à execução das despesas.
A PEC 55/2023 tem alcance diferente. Enquanto as leis complementares permitem excluir determinadas despesas militares dos limites fiscais, a proposta em discussão no Senado pretende estabelecer um piso orçamentário permanente para a Defesa.
Na consulta realizada em outubro de 2026, a PEC continuava aguardando audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça, presidida pelo senador Otto Alencar (PSD-BA), sem novo andamento registrado desde julho de 2025.