Antes de a China operar três porta-aviões e colocar em serviço um gigante de mais de 80 mil toneladas com catapultas eletromagnéticas, oficiais da Marinha chinesa recorreram ao Brasil para aprender operações ligadas à aviação embarcada no A-12 São Paulo. O acordo foi anunciado em 2009 pelo então ministro da Defesa Nelson Jobim. Dezessete anos depois, militares brasileiros voltaram a treinar com a Marinha chinesa, agora dentro de uma força naval de Pequim em missão pela Ásia.
O contraste entre os dois momentos mede uma mudança enorme. Em 2009, Pequim ainda não tinha porta-aviões operacional. Em 2026, a Marinha do Exército de Libertação Popular já opera Liaoning, Shandong e Fujian, e o último deles é o primeiro porta-aviões chinês equipado com catapultas eletromagnéticas.
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O novo intercâmbio a bordo do Qi Jiguang reabriu uma história pouco lembrada: quando a China ainda construía sua experiência com aviação embarcada, o Brasil estava entre os países capazes de oferecer treinamento dentro de um porta-aviões em serviço.
Em 2009, Brasil anunciou treinamento de oficiais chineses no A-12 São Paulo
Em maio de 2009, Nelson Jobim afirmou que Brasil e China haviam chegado a um acordo para treinar pessoal da Marinha chinesa no país. Segundo registro contemporâneo da Jamestown Foundation, o plano previa que oficiais da People’s Liberation Army Navy fossem treinados a bordo do NAe São Paulo, então principal porta-aviões da Marinha do Brasil.

O A-12 era um navio da classe Clemenceau adquirido da França e incorporado pela Marinha brasileira em 2000. Operar um porta-aviões exige uma cadeia própria de procedimentos: coordenação entre navio e aeronaves, disciplina de convés, controle de tráfego aéreo, pousos, decolagens e formação de pessoal para trabalhar em um ambiente naval muito diferente do encontrado em fragatas, destróieres ou submarinos.
A notícia de 2009 surgiu quando Pequim ainda reformava o antigo casco soviético Varyag, comprado da Ucrânia e transformado depois em seu primeiro porta-aviões. O navio só entraria oficialmente em serviço três anos mais tarde.
Liaoning entrou em serviço em 2012 e abriu a era dos porta-aviões chineses
Em 25 de setembro de 2012, a China incorporou o Liaoning. Pela primeira vez, a Marinha chinesa passou a dispor de uma plataforma própria para formar tripulações, desenvolver doutrina, treinar pilotos e acumular experiência contínua em operações aéreas embarcadas.
O Liaoning usa uma rampa elevada na proa, conhecida como ski-jump. Nesse sistema, o caça decola com a própria potência e a inclinação do convés, sem auxílio de catapulta. A solução permitiu à China iniciar operações de aviação embarcada, mas impõe restrições de peso, combustível e carga quando comparada a sistemas de lançamento por catapulta.
O passo seguinte veio com um navio construído no próprio país. O Shandong foi lançado em abril de 2017 e incorporado em 17 de dezembro de 2019. Ele preservou a arquitetura de ski-jump do Liaoning, mas representou um salto industrial: Pequim já não dependia apenas de reformar um casco estrangeiro para manter sua frota de porta-aviões.
Em sete anos, China passou do casco soviético ao primeiro porta-aviões construído no país
Entre a entrada do Liaoning, em 2012, e a incorporação do Shandong, em 2019, a China transformou experiência inicial em capacidade própria de projeto e construção. O segundo porta-aviões recebeu o indicativo 17 e passou a operar caças J-15 a partir de uma plataforma produzida domesticamente.
A ruptura mais profunda veio em seguida. Em junho de 2022, a China lançou ao mar o Fujian, maior e estruturalmente diferente dos dois primeiros. Depois de anos de testes, o navio foi oficialmente incorporado em 5 de novembro de 2025.
O Ministério da Defesa da China informa que o Fujian desloca mais de 80 mil toneladas carregado e inaugurou a era chinesa de três porta-aviões. Seu convés abandona a rampa usada por Liaoning e Shandong e adota um sistema de lançamento por catapultas.
Fujian levou a Marinha chinesa às catapultas eletromagnéticas
O salto tecnológico do Fujian está nas catapultas eletromagnéticas. O sistema acelera a aeronave ao longo do convés até a velocidade necessária para a decolagem, permitindo operar aviões mais pesados e ampliar as combinações de combustível, sensores e armamento.

Segundo o USNI News, o navio possui três catapultas eletromagnéticas e foi apresentado com uma nova geração de aeronaves embarcadas, incluindo o caça J-15T, o caça furtivo J-35 e o KJ-600 de alerta aéreo antecipado.
O KJ-600 ajuda a visualizar a mudança. Aeronaves desse porte precisam ser lançadas com carga suficiente para cumprir longas missões de vigilância e controle aéreo. A catapulta amplia as possibilidades da ala aérea e dá ao navio uma flexibilidade que Liaoning e Shandong não possuem.
Em 2009, quando o treinamento com o Brasil foi anunciado, a China ainda buscava experiência humana para um tipo de operação que não realizava com um porta-aviões próprio em serviço. Em 2025, colocou em serviço uma plataforma de mais de 80 mil toneladas capaz de lançar aeronaves por tecnologia eletromagnética.
Dezessete anos depois, militares brasileiros voltaram a treinar com a Marinha chinesa
A história ganhou um novo capítulo em 2026. Em 15 de junho, o navio-escola Qi Jiguang e o navio-doca anfíbio Kunlun Shan deixaram Qingdao para uma missão de treinamento e visitas internacionais. Segundo o Ministério da Defesa da China, mais de 20 militares em formação de 10 países embarcaram no programa, entre eles brasileiros.
Os participantes treinaram em grupos mistos com os chineses. A programação incluiu navegação terrestre, navegação astronômica e prática de funções específicas a bordo. Os brasileiros participaram da primeira etapa e concluíram o programa após a chegada ao Vietnã.
Os papéis aparecem invertidos quando os dois episódios são colocados lado a lado. Em 2009, era a China que buscava treinamento ligado à experiência brasileira em porta-aviões. Em 2026, militares brasileiros passaram dias treinando dentro de uma estrutura de formação comandada pela Marinha chinesa.
Brasil e China voltam a se encontrar depois de uma transformação naval de 17 anos
O intervalo entre os dois episódios reúne uma das expansões navais mais visíveis das últimas décadas. A China passou de nenhum porta-aviões operacional para três unidades em serviço, desenvolveu um navio nacional, avançou para catapultas eletromagnéticas e ampliou a variedade de aeronaves previstas para operar a partir do mar.
O Brasil seguiu outra trajetória. O A-12 São Paulo deixou de operar e foi retirado de serviço, encerrando a capacidade brasileira de operar caças a partir de um porta-aviões. A Marinha manteve outras capacidades e passou a operar o NAM Atlântico, mas sem recuperar a aviação de caça embarcada existente na época do acordo de 2009.
O reencontro de 2026 ocorreu em outra configuração: os mesmos países voltaram a compartilhar treinamento naval, mas agora dentro de uma Marinha chinesa muito maior, com três porta-aviões e uma geração própria de aviação embarcada. O Qi Jiguang não é um porta-aviões e a missão de 2026 teve outro objetivo; seu valor como gatilho histórico está em recolocar lado a lado dois momentos separados por 17 anos.
Dezessete anos separam o anúncio do treinamento no A-12 São Paulo e a presença de brasileiros a bordo de uma força naval chinesa. Nesse intervalo, Liaoning, Shandong e Fujian mudaram a escala da Marinha chinesa e transformaram uma ambição ainda em construção em 2009 numa frota de três porta-aviões.
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