Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

Exército Argentino chega a 7.355 metros no Himalaia em missão conjunta com o Exército da Índia, após semanas de frio extremo e temperaturas de até 20 graus abaixo de zero

Militares argentinos chegaram a 7.355 metros no Abi Gamin e a 7.150 metros no Kamet. Fendas no glaciar mudaram a rota, enquanto a expedição conjunta com a Índia registrou também o cume do Kamet em setembro de 2026.

Marcos
Por Marcos 06/10/2026 às 21:02
Compartilhar
Exército Argentino chega a 7.355 metros no Himalaia em missão conjunta com o Exército da Índia, após semanas de frio extremo e temperaturas de até 20 graus abaixo de zero
Integrantes da expedição conjunta Argentina-Índia em alta montanha no Himalaia durante a missão de 2026. Crédito: Ejército Argentino / Argentina.gob.ar.

Militares argentinos chegaram a 7.355 metros de altitude no Himalaia, superaram a marca alcançada pelo país em 2025 e enfrentaram uma segunda subida que levou outra cordada a 7.150 metros no monte Kamet. A expedição de 2026, realizada em conjunto com o Exército da Índia, obrigou o grupo a mudar o plano original depois que grandes fendas apareceram no glaciar de acesso à rota final.

O objetivo inicial era o Kamet, uma montanha de 7.756 metros no setor ocidental do Himalaia. A patrulha argentina reuniu nove montanhistas e um chefe de expedição, chegou a Nova Délhi em 21 de agosto e alcançou o acampamento-base no dia 30. Durante quase um mês, os militares alternaram aclimatação, transporte de carga e ascensões em um ambiente de frio extremo, isolamento e baixa concentração de oxigênio.

Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora

Entrar no grupo agora

O ponto mais alto alcançado por militares argentinos ocorreu em 17 de setembro. O major Antoñana, o sargento-ajudante Oro e o cabo primeiro Copa chegaram ao cume do Abi Gamin, a 7.355 metros. O resultado colocou o trio acima dos 7.077 metros atingidos pela patrulha argentina no monte Kun, em 2025.

Fendas no glaciar mudaram a rota quando o objetivo ainda era o Kamet

Acampamento de alta montanha montado sobre terreno nevado no Himalaia, com barracas e picos cobertos de neve ao fundo.
Acampamento da expedição em terreno nevado no Himalaia, onde a equipe manteve a logística entre os pontos de subida. Crédito: Ejército Argentino / Argentina.gob.ar.

A preparação para 2026 começou meses antes da viagem. O Exército Argentino selecionou pessoal com experiência em montanhas acima de 6.000 metros e organizou treinamentos progressivos em rocha, gelo, resgate, autorresgate, avalanches e primeiros socorros. Parte da preparação ocorreu nos Andes, em condições de inverno com temperaturas próximas de 20 graus abaixo de zero.

Já no Himalaia, a rotina envolveu mais de 80 portes de carga entre os diferentes acampamentos. Os militares transportaram alimentos, combustível e equipamentos durante deslocamentos que podiam consumir seis ou sete horas. Cada subida precisava equilibrar peso, esforço físico, adaptação à altitude e a necessidade de manter os acampamentos abastecidos.

O plano começou a mudar quando a equipe encontrou grandes fendas no glaciar que levava à rota final do Kamet. A avaliação de segurança fez o grupo procurar uma alternativa na mesma região. O Abi Gamin surgiu como opção porque divide parte da aproximação com o Kamet e permitia aproveitar a estrutura já montada para a operação.

A mudança produziu o primeiro grande resultado da expedição. Antoñana, Oro e Copa chegaram ao topo do Abi Gamin em 17 de setembro. A altitude de 7.355 metros colocou os argentinos 278 metros acima do máximo obtido na expedição do ano anterior ao monte Kun.

Segunda cordada voltou ao Kamet e chegou a 7.150 metros antes de recuar

Montanhistas da expedição Argentina-Índia avançam sobre a neve em grande altitude no Himalaia, cercados por picos nevados.
Militares da expedição conjunta avançam em terreno nevado durante a missão de alta montanha no Himalaia. Crédito: Ejército Argentino / Argentina.gob.ar.

Depois do Abi Gamin, a expedição organizou uma nova tentativa em direção ao Kamet. A cordada argentina voltou a subir, mas as condições encontradas durante o avanço levaram à decisão de não forçar a etapa final rumo ao cume. O grupo chegou a 7.150 metros antes de interromper o ataque.

Mesmo sem completar o trecho final, a segunda subida também ultrapassou a referência argentina de 2025. Os 7.150 metros representam 73 metros a mais do que os 7.077 alcançados no Kun. Em duas cordadas diferentes, militares argentinos passaram da marca que havia sido o principal resultado do país no Himalaia um ano antes.

O recuo ocorreu depois de semanas de aclimatação, dezenas de viagens entre acampamentos e trabalho em terreno cortado por gelo, fendas e trechos de grande altitude. Nessas condições, insistir nos últimos metros ampliaria o risco de acidente e tornaria qualquer eventual resgate mais difícil.

A patrulha precisou adaptar o planejamento e administrar o esforço conforme o terreno mudava. Para tropas de montanha, cancelar um ataque à cumeada diante de risco crescente faz parte da própria disciplina operacional exigida em altitude extrema.

Índia registra cume do Kamet pelo grupo conjunto de 35 integrantes

Uma atualização publicada pelo Ministério da Defesa da Índia em 6 de outubro acrescentou outra peça ao resultado geral da missão. Segundo o governo indiano, a expedição conjunta de 35 integrantes — 25 militares indianos e 10 argentinos — registrou ascensões bem-sucedidas ao Abi Gamin em 17 de setembro e ao Kamet em 21 de setembro.

A nota argentina detalha a atuação de suas cordadas e fixa em 7.150 metros o ponto alcançado no segundo avanço argentino ao Kamet. A nota indiana apresenta o resultado do conjunto de 35 integrantes e registra o cume de 7.756 metros, sem individualizar os montanhistas que chegaram ao topo.

Os dois registros permitem separar os resultados com precisão: militares argentinos chegaram ao cume do Abi Gamin e a 7.150 metros no Kamet, enquanto a expedição combinada, considerada como um todo pelo Ministério da Defesa da Índia, também completou o Kamet. A operação terminou com dois picos acima de 7.000 metros e uma nova experiência de cooperação em altitude extrema.

O Kamet é apontado pela Índia como a terceira montanha mais alta do país. A expedição conjunta enfrentou frio intenso, ventos fortes, campos de neve, rocha íngreme e fendas durante a operação. O grupo reuniu 25 integrantes do Exército indiano e os 10 argentinos preparados para a missão.

Expedições de 2025 e 2026 viraram laboratório para tropas de montanha

A operação de 2026 foi construída sobre experiências recentes dos dois Exércitos. Em janeiro de 2025, militares dos países participaram de uma expedição ao Aconcágua, na Argentina. Em agosto do mesmo ano, uma patrulha argentina chegou ao monte Kun, de 7.077 metros, na Índia. O ciclo continuou em 2026 com o Abi Gamin e o Kamet.

Para o Exército Argentino, a missão permite treinar planejamento logístico, adaptação à altitude, deslocamento em gelo, uso de cordas fixas, transporte de suprimentos e tomada de decisão sob desgaste físico. Os conhecimentos obtidos no Himalaia retornam às tropas de montanha e podem ser incorporados à preparação realizada na Cordilheira dos Andes.

A cooperação com o Exército da Índia também coloca os argentinos em contato com técnicas desenvolvidas para uma das regiões montanhosas mais exigentes do planeta. A sequência da expedição mostrou esse treinamento em ação: a equipe mudou a rota diante das fendas, conquistou o Abi Gamin, voltou a tentar o Kamet e recuou quando as condições deixaram de justificar o ataque final da cordada argentina.

Em pouco mais de um ano, a marca argentina no Himalaia passou de 7.077 para 7.355 metros. O próximo desafio será transformar essa experiência acumulada em novas missões de alta montanha e manter a cooperação iniciada com a Índia.

guest
0 Comentários