Pouco mais de um mês após vir a público que os EUA exigiram prioridade absoluta para explorar os minerais críticos do Brasil como condição para removerem o tarifaço contra o país, o governo brasileiro anunciou que uma expedição de cientistas de 9 universidades a bordo de um navio da Marinha descobriu 3 novas áreas-chave com potencial mineral para exploração em alto-mar. O anúncio foi feito no dia 22 de outubro pelo SGB (Serviço Geológico do Brasil).
As áreas ficam na região da Cordilheira Meso-Atlântica, ao norte do arquipélago São Pedro e São Paulo, entre o continente americano e a África. O conjunto de ilhas está a cerca de 1.000 km de Natal (RN) e quase no limite das águas nacionais brasileiras com as águas internacionais.
A expedição, feita a bordo do navio da Marinha Vital de Oliveira, aconteceu entre os dias 9 de setembro e 8 de outubro (29 dias) e identificou anomalias de partículas em suspensão na água que podem indicar atividade hidrotermal.
De acordo com informações do USGS (Serviço Geológico dos EUA), uma grande variedade de minerais se forma por meio da atividade hidrotermal, que é quando a água do mar penetra na crosta oceânica e é aquecida e modificada quimicamente pela interação com rochas e, às vezes, pela entrada de magma.
Segundo o USGS, os fluidos hidrotermais quentes então ascendem em direção ao fundo do mar e precipitam minerais à medida que esfriam e se misturam à água. Esses depósitos minerais formados podem ser enriquecidos em cobre, zinco, ferro, ouro e prata.

EUA querem controle de minerais críticos
Além de outros 58 itens, os EUA consideram o cobre e a prata minerais críticos. Ou seja, recursos considerados essenciais para a segurança nacional, a estabilidade econômica e a resiliência da cadeia de suprimentos por sustentarem setores-chave, impulsionarem a inovação tecnológica e darem suporte a infraestruturas críticas vitais para uma economia moderna.
Apesar de ter vastos recursos minerais, os EUA reconhecem que dependem fortemente da importação de minerais de fontes estrangeiras e temem correr o risco de sofrer interrupções graves e prolongadas em suas cadeias de suprimentos.
“A dependência dos Estados Unidos em relação às importações e a vulnerabilidade das cadeias de suprimentos aumentam o potencial de riscos à segurança nacional, à prontidão da defesa, à estabilidade de preços e à prosperidade e resiliência econômica”, diz o governo norte-americano em uma publicação de 7 de novembro de 2025.
Brasil rejeitou dar preferência aos EUA em licitações de minerais
Aproveitando o tarifaço ideológico imposto pelo governo Trump contra o Brasil, os EUA tentaram impor condições relacionadas às reservas minerais para remover a barreira econômica. Segundo revelou reportagem exclusiva do Estadão publicada em 17 de setembro, os EUA exigiram que o Brasil avisasse antecipadamente os norte-americanos quando houvesse qualquer possível venda de ativos no setor de mineração.
Washington também exigiu que o Brasil permitisse que empresas dos EUA pudessem disputar esses negócios antes mesmo de o governo brasileiro autorizar a operação.
O documento, que tinha outras 20 exigências, foi integralmente reprovado pelo governo brasileiro.
A nova versão das exigências enviada pelos EUA era “mais branda”, mas exigia que o Brasil restringisse investimentos de empresas ou entidades estrangeiras consideradas uma ameaça aos interesses norte-americanos em áreas como mineração e refino de minerais críticos.
Notadamente, Washington se referia à China, maior parceira comercial do Brasil desde 2009. Em sua política de defesa publicada no final de 2025, os EUA dizem expressamente que vão batalhar para negar acesso de potências extrarregionais a ativos que consideram valiosos em qualquer lugar do Hemisfério Ocidental, formado pela América, partes da Europa e da África.
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Em 2025, segundo dados do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), a indústria da mineração brasileira faturou R$ 298,8 bilhões, um crescimento de 10,3% em relação a 2024. Sozinho, o minério de ferro equivaleu a 52,6% do faturamento total do setor, concentrado principalmente em Minas Gerais, Pará e Bahia.
Cientistas brasileiros recuperam sedimentos para identificar minerais
Segundo o Serviço Geológico Brasileiro, os cientistas a bordo do navio da Marinha conseguiram recuperar 3 metros de sedimentos que serão estudados para identificar os minerais presentes e também a história dos depósitos da região.
A lista de minerais considerados críticos e estratégicos no Brasil é bem menor que a dos EUA e conta atualmente com 17 itens: cobalto, enxofre, estanho, grafita, lítio, manganês, nióbio, níquel, ouro, potássio, silício, urânio, vanádio, tungstênio, alumínio, cobre e ferro.
Foram coletados ainda dados de:
- batimetria (profundidade e relevo no fundo do mar)
- gravimetria (medição de pequenas variações no campo gravitacional da Terra)
- sísmica (levantamento das estruturas geológicas abaixo do fundo do mar por meio da análise de ondas sísmicas ou acústicas)
- condutividade
- temperatura
- pressão
“O material será analisado para aprofundar o conhecimento geológico e biológico das áreas investigadas e orientar estudos mais detalhados em futuras expedições”, declarou o SGB.
Além do SGB e da Marinha do Brasil, participaram da expedição Petrobras, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, USP, UFRN, UFF, UFPR, UFBA, Unesp, UECE, UFPel e a FURG.
Mais sobre o navio da Marinha Vital de Oliveira
O Navio Hidroceanográfico Vital de Oliveira (H39) foi construído em 2013, tem autonomia de 30 dias, e conta com capacidade de tripulação de 90 pessoas, sendo 40 pesquisadores. A embarcação tem 78 metros de comprimento, 20 metros de largura e desloca 5 mil toneladas em plena carga a até 12 nós (X km/h).
A estrutura de pesquisa é formada por 3 laboratórios, 6 guinchos oceanográficos, 3 guindastes, 7 embarcações miúdas, 2 lanças hidrográficas, 2 baleeiras fechadas com capacidade para 75 pessoas e 28 equipamentos científicos principais, como sonares, perfiladores, amostradores e ecobatímetros.
O nome do navio é em homenagem ao Capitão de Fragata Manoel Antônio Vital de Oliveira, patrono da hidrografia e morto durante a Guerra do Paraguai.