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Negócio quase abalado pela crise Brasil–Paraguai chega ao fim: Força Aérea Paraguaia recebe o 6º Super Tucano da Embraer e estreia novo avião de carga

Felipe Alves da Silva
Por Felipe Alves da Silva 07/10/2026 às 11:49
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Negócio quase abalado pela crise Brasil–Paraguai chega ao fim: Força Aérea Paraguaia recebe o 6º Super Tucano da Embraer e estreia novo avião de carga
Força Aérea Paraguaia conclui a incorporação dos seis A-29 Super Tucano adquiridos da Embraer enquanto inicia uma nova etapa de renovação logística com o Cessna 408 SkyCourier.

A entrega em Luque encerra o contrato de seis A-29 financiado pelo BNDES, que chegou a ser colocado sob risco político durante o atrito provocado pelo caso Abin em 2025

Um contrato de exportação brasileiro que chegou a aparecer no meio de uma das maiores crises diplomáticas recentes entre Brasil e Paraguai terminou com seis aviões entregues.

A Força Aérea Paraguaia recebeu em 5 de outubro de 2026 o sexto e último A-29 Super Tucano adquirido da Embraer, fechando o lote contratado para reconstruir parte de sua capacidade de vigilância e defesa aérea.

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A aeronave, matrícula FAP 1106, chegou à Primeira Brigada Aérea, em Luque, procedente da fábrica da Embraer em São José dos Campos. Segundo a Zona Militar, que acompanhou a cerimônia de recebimento, o avião completa o esquadrão de seis Super Tucanos que será operado pelo 2º Esquadrão de Caça “Indios”, baseado em Mariscal Estigarribia.

O pouso encerra uma história que vai bem além da entrega de mais um avião militar.

O contrato envolveu R$ 600 milhões em financiamento do BNDES, marcou a retomada do apoio do banco brasileiro às exportações da indústria de defesa depois de mais de uma década e, meses depois de assinado, acabou exposto aos efeitos políticos da crise provocada pelas denúncias de espionagem atribuídas à Agência Brasileira de Inteligência, a Abin.

Em abril de 2025, quando o relacionamento entre Brasília e Assunção se deteriorou, surgiram informações de que o negócio com a Embraer poderia ser atingido. Um ano e meio depois, o cenário é outro: todos os seis aviões estão no Paraguai.

R$ 600 milhões colocaram o Super Tucano no centro de uma operação industrial brasileira

Foto: Força Aérea do Paraguai
Foto: Força Aérea do Paraguai

A dimensão industrial do negócio começou antes de qualquer aeronave paraguaia receber sua matrícula.

Em novembro de 2024, o BNDES assinou com o governo do Paraguai um financiamento de aproximadamente R$ 600 milhões para a exportação dos seis Super Tucanos e de um pacote logístico produzido pela Embraer.

Não era uma operação rotineira para o banco.

O próprio BNDES destacou à época que se tratava da primeira operação de financiamento a exportações de produtos de defesa aprovada pela instituição em 13 anos. A transação marcava, portanto, a retomada do crédito público brasileiro para apoiar a Base Industrial de Defesa em uma venda internacional.

Esse detalhe muda a leitura do contrato.

Para o Paraguai, tratava-se da aquisição de uma nova capacidade militar. Para o Brasil, havia também uma disputa industrial: financiar uma aeronave nacional para permitir que a Embraer competisse no mercado externo em condições semelhantes às oferecidas por países que sustentam seus fabricantes por meio de bancos de desenvolvimento e agências de crédito à exportação.

O Super Tucano já era um produto consolidado internacionalmente. O relatório da Embraer referente a 2024 registrou 29 A-29 vendidos a cinco países naquele ano, incluindo as seis unidades paraguaias.

Foi justamente esse negócio que, poucos meses depois, apareceu no centro de um problema que nada tinha a ver originalmente com aeronaves.

Caso Abin transformou uma crise diplomática em risco comercial

Em abril de 2025, as relações entre Brasil e Paraguai entraram em uma fase de forte tensão após a revelação de uma operação de espionagem atribuída à Abin contra autoridades paraguaias.

O episódio levou Assunção a convocar o embaixador brasileiro para explicações e a interromper negociações relacionadas à energia de Itaipu. A própria Abin chegou a enviar um oficial de inteligência ao Paraguai em uma missão destinada a reduzir os efeitos da crise e reforçar os contatos institucionais entre os dois países.

Foi nesse ambiente que o contrato dos Super Tucanos ganhou uma dimensão política inesperada.

Reportagens publicadas naquele mês apontaram que representantes paraguaios haviam indicado a interlocutores brasileiros a possibilidade de suspensão da compra das aeronaves da Embraer como consequência do agravamento das relações bilaterais. A repercussão chegou à imprensa paraguaia, que tratou do risco envolvendo o negócio aeronáutico.

O ponto importante, visto agora em retrospectiva, é que essa ameaça não se materializou.

O programa prosseguiu, as aeronaves começaram a chegar ao Paraguai e o relacionamento bilateral avançou até que, em novembro de 2025, o governo paraguaio declarou “concluída” a crise com o Brasil, depois de receber esclarecimentos e um relatório confidencial apresentado pelo chanceler brasileiro Mauro Vieira.

Há uma diferença relevante entre dizer que o contrato foi cancelado e dizer que esteve politicamente exposto. Não houve cancelamento. O que existiu foi o risco de que uma disputa diplomática contaminasse um negócio industrial já contratado e financiado.

A chegada do sexto A-29 coloca um ponto final justamente nessa incerteza.

Sexto Super Tucano completa esquadrão voltado à interceptação e defesa do espaço aéreo

Foto: Força Aérea do Paraguai
Foto: Força Aérea do Paraguai

Com a matrícula FAP 1106, o último Super Tucano completa o conjunto de seis aeronaves que será empregado pelo 2º Esquadrão de Caça “Indios”, sediado em Mariscal Estigarribia.

O comandante da Força Aérea Paraguaia, general do ar Julio Fullaondo, afirmou durante a cerimônia que a chegada da sexta aeronave permite concluir um esquadrão formado por seis unidades modernas.

O avião não está sendo incorporado isoladamente.

Segundo a Zona Militar, o Paraguai também trabalha na implantação de uma estrutura de vigilância que envolve radares móveis modernizados, um centro de comando e controle e um radar de longo alcance TPS-78 em fabricação.

A lógica é simples: o radar localiza e acompanha; a aeronave fornece a capacidade de reação.

As autoridades paraguaias vêm relacionando diretamente esse conjunto ao combate ao narcotráfico, ao crime organizado transnacional e à proteção do espaço aéreo. Em 2025, ainda durante o processo inicial de incorporação dos A-29, o comandante do Grupo Aerotáctico de Combate já apontava o narcotráfico como um dos principais problemas que a nova capacidade deveria enfrentar.

Para a Embraer, porém, o significado da entrega final também é comercial: um contrato internacional apoiado pelo Estado brasileiro chegou integralmente ao cliente.

Paraguai também estreia Cessna 408 SkyCourier e inicia substituição de aviões usados desde 1984

Foto: Força Aérea do Paraguai
Foto: Força Aérea do Paraguai

A cerimônia de 5 de outubro marcou ainda uma segunda mudança importante na aviação paraguaia.

Ao lado do último Super Tucano chegou o primeiro Cessna 408 SkyCourier adquirido pela Força Aérea Paraguaia, produzido pela Textron Aviation em Wichita, nos Estados Unidos.

As duas aeronaves representam necessidades bastante diferentes.

Enquanto o A-29 assume funções ligadas à interceptação, vigilância e defesa aérea, o SkyCourier amplia a capacidade de transporte e apoio logístico.

O Paraguai pretende receber quatro aeronaves desse modelo para iniciar a renovação dos CASA C-212 utilizados pela força desde 1984. O primeiro exemplar chegou configurado com 19 assentos para passageiros e capacidade para transportar quatro macas, permitindo emprego em transporte de pessoal, apoio humanitário e evacuação aeromédica.

Segundo a mesma fonte, o avião custou US$ 11,3 milhões.

A estreia do SkyCourier, portanto, abre outro programa de renovação justamente no dia em que o projeto do Super Tucano alcança seu último avião.

O que começou como financiamento industrial agora termina com seis aviões entregues

Foto: Força Aérea do Paraguai
Foto: Força Aérea do Paraguai

A cronologia ajuda a dimensionar o desfecho.

Em novembro de 2024, Brasil e Paraguai formalizaram um financiamento de cerca de R$ 600 milhões para seis A-29 e suporte logístico.

Em abril de 2025, a crise envolvendo a Abin levou a relação bilateral a um ponto em que até o contrato da Embraer passou a aparecer entre os negócios potencialmente ameaçados.

Nos meses seguintes, as entregas continuaram.

Em novembro de 2025, Assunção declarou encerrada a crise diplomática.

Agora, em 5 de outubro de 2026, o FAP 1106 desembarcou em Luque e fechou o lote.

Para a indústria brasileira, é um final particularmente simbólico: uma das primeiras grandes operações da retomada do financiamento público às exportações de defesa não apenas sobreviveu ao ruído político entre comprador e vendedor, como chegou à entrega integral.

Para o Paraguai, começa outra etapa. Receber seis aeronaves é o fim do processo industrial de aquisição, mas não o fim da implantação da capacidade. Treinar pilotos e equipes, integrar os A-29 aos novos radares, consolidar procedimentos de interceptação e manter disponibilidade operacional serão agora os indicadores que mostrarão o peso real do investimento.

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