A Força Aérea Brasileira (FAB) já recebeu 11 caças Saab F-39 Gripen como parte do programa de modernização da defesa aérea do país, e a décima segunda aeronave deve ser incorporada à Força nos próximos meses, com a entrega da primeira unidade do F-39 E totalmente produzida no Brasil tendo realizado seu voo inaugural de testes, marcando uma nova etapa no programa iniciado em 2014.
O contrato do programa F-X2 brasileiro prevê a entrega de 36 aeronaves até 2032, com um investimento anual estimado em 2,26 bilhões de coroas suecas (R$ 1,2 bilhão). O acordo com a Saab prevê 28 caças Gripen E (monoposto) e 8 aeronaves da série F (biposto).
A partir do ritmo adquirido nas entregas e da maturidade operacional alcançada pela plataforma, o programa do Gripen no Brasil alcançou um novo patamar em 2026, com as aeronaves oficialmente assumindo a missão de Alerta de Defesa Aérea brasileira.
Isso significa que os caças agora permanecem em prontidão 24 horas por dia, preparados para decolagem imediata sempre que acionados, tendo como finalidade a missão-fim da FAB, que é garantir a soberania do espaço aéreo contra ameaças.
Todas as unidades do Gripen já operacionais no Brasil estão alocadas em uma única base aérea na região Centro-Oeste, integrando uma estrutura militar planejada para responder rapidamente a ameaças, proteger áreas sensíveis e ampliar a capacidade de defesa aérea do Brasil.
Onde estão sediados os Gripen Brasileiros?
A escolha da Base Aérea de Anápolis (BAAN), em Goiás, para concentrar a operação dos caças F-39 Gripen da Força Aérea Brasileira (FAB) não é por acaso, e remonta a uma estrutura que historicamente foi concebida para a operação de aviões supersônicos.
Localizada na região central do Brasil, a instalação ocupa uma posição estratégica para a defesa do espaço aéreo nacional, permitindo que aeronaves de alta performance sejam empregadas rapidamente na proteção da capital Brasília e no deslocamento para diferentes regiões do país.
Com capacidade de resposta e desempenho supersônico, atingindo até Mach 2 (aproximadamente 2.448 km/h), o F-39E de prontidão no Alerta de Defesa Aérea pode alcançar a região do Planalto Central, a cerca de 160 quilômetros, em poucos minutos, para a proteção da Capital Federal e de áreas estratégicas do País.

A escolha da BAAN como sede dos novos Gripen brasileiros está ligada ao histórico do Primeiro Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), conhecido como Esquadrão Jaguar, sediado em Anápolis, e criado nos anos 1970 especialmente para ser uma unidade de interceptação aérea na região central do país.
O primeiro supersônico da FAB
A formação do 1º GDA (anteriormente, Primeira Ala de Defesa Aérea – 1ª ALADA) também está especialmente ligada à operação do primeiro caça supersônico da FAB: o francês Dassault Mirage III, denominado no Brasil F-103 e selecionado para equipar a unidade após a avaliação de diversas outras aeronaves.
Em 1970, a FAB adquiriu 13 unidades do Mirage, enquanto oito experientes pilotos da FAB embarcaram para a França para passarem por treinamentos para operar o supersônico. A Base Aérea de Anápolis foi planejada e construída especificamente para receber os caças Mirage.
A pista foi da BAAN dimensionada para as necessidades dos novos interceptadores, incluindo comprimento e resistência do pavimento compatíveis com a operação das aeronaves previstas.
Os caças franceses que marcaram o início da era supersônica da FAB tinham a missão específica de realizar operações aéreas de defesa aérea, de forma a negar a utilização do espaço aéreo brasileiro por forças externas para a prática de atos hostis contra o Brasil.
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Para isso, precisavam ter a capacidade de se deslocar rapidamente para pontos estratégicos do país. Os Mirage III contavam com o potente motor Snecma ATAR-09C7/038 de 13.230 libras de empuxo, levando o caça a atingir até 2.350km/h em altitude ideal.
A partir dos anos 1975, os Mirage da FAB dividiram com o Northrop F-5, outro supersônico, a missão de Alerta de Defesa Aérea, e foram aposentados gradativamente entre 2005 e 2013.
Porém, mais do que marcar o salto supersônico da FAB na defesa aérea nacional, os Mirage fizeram a Base Aérea de Anápolis desenvolver uma expertise inédita de manutenção e operação de aeronaves modernas e de tecnologia complexa, outro fator que contribuiria, décadas depois, para que as instalações fossem escolhidas para receber as primeiras unidades do Gripen.
KC-390 amplia o alcance do Gripen
A concentração inicial dos Gripen em Anápolis também facilita a formação de pilotos, o treinamento das equipes de manutenção e o desenvolvimento das táticas de emprego da aeronave.
Reunir o novo caça em uma unidade especializada permite consolidar procedimentos antes de uma eventual expansão para outras bases, o que deve acontecer conforme a FAB receber mais aeronaves.
O Esquadrão Jaguar começou a operar o F-39 em dezembro de 2022. A incorporação marcou a transição para uma nova geração de capacidades de combate aéreo na FAB.
Anápolis não abriga apenas os caças Gripen. A base também recebe o Primeiro Grupo de Transporte de Tropa (1º GTT), responsável pela operação de outra aeronave importante para a modernização da FAB, o KC-390 Millennium, e reúne estruturas que contribuem para o preparo e o emprego de diferentes aeronaves militares.
Essa concentração de capacidades permite realizar exercícios conjuntos, integrar diferentes tipos de aeronaves e aprimorar os procedimentos de comando e controle.
Em 2025, a Embraer e a FAB concluíram com sucesso a campanha de testes de voo de certificação para o reabastecimento em voo (REVO) do caça F-39E Gripen pela aeronave multimissão KC-390 Millennium. A capacidade REVO amplia o alcance dos Gripen brasileiros, tornando o caça capaz de atingir qualquer ponto do território brasileiro e alcançar regiões de fronteira.

Manutenção e formação em um só lugar
Concentrar inicialmente os caças Gripen da FAB em Anápolis permite que a Força reúna pilotos, mecânicos, equipamentos de apoio e estrutura logística em torno de uma mesma plataforma. Isso facilita a consolidação da capacidade operacional, especialmente durante a fase de introdução de um novo modelo de caça.
A distribuição de aeronaves por outras regiões, que deve acontecer naturalmente, pode ampliar a cobertura territorial, mas também exige infraestrutura adequada, pessoal treinado, equipamentos específicos e uma cadeia logística capaz de sustentar as operações em cada local.
O objetivo estratégico em concentrar as operações do Gripen em Anápolis neste momento é manter uma capacidade de resposta compatível com a importância estratégica de Brasília, ao mesmo tempo em que a FAB consolida a operação do Gripen e prepara a expansão da frota prevista no contrato.
F-5 e Super Tucano reforçam a defesa áerea brasileira
Apesar da importância das operações na região central do Brasil para a nova espinha dorsal da defesa aérea nacional, isso não significa que ela esteja sujeita à disponibilidade dos F-39 Gripen. A FAB combina aeronaves com diferentes níveis de desempenho, custos operacionais e capacidades para detectar, identificar e interceptar tráfegos suspeitos, proteger áreas estratégicas e responder a ameaças de naturezas distintas.
Nesse sistema, o Gripen representa a nova geração de combate aéreo e alerta, enquanto o F-5M Tiger II mantém uma capacidade supersônica de interceptação a partir de diferentes bases aéreas, e o A-29 Super Tucano atua especialmente no policiamento do espaço aéreo e na interceptação de aeronaves de menor desempenho, incluindo aviões utilizados em rotas de tráfico e contrabando.
Na missão de proteger o espaço aéreo, a FAB emprega esses modelos em conjunto com radares, aeronaves de alerta aéreo antecipado e centros de comando e controle.
A lógica é distribuir as missões conforme a ameaça. Nem todo voo irregular exige um caça de última geração, assim como uma ameaça militar de alto desempenho demanda capacidades diferentes das necessárias para interceptar um pequeno avião.
Mesmo com a chegada do Gripen, o F-5M continua importante para a defesa aérea brasileira. A aeronave passou por um programa de modernização que incluiu atualizações de aviônicos, sistemas de comunicação e integração de armamentos, permitindo prolongar sua utilização operacional enquanto a renovação de frota prossegue com a substituição gradual para os Gripen.
Mais de 4 mil aeronaves interceptadas em cinco anos
A Força Aérea Brasileira interceptou 4.020 aeronaves suspeitas ou sem autorização no espaço aéreo nacional entre janeiro de 2019 e julho de 2024, segundo dados do Comando da Aeronáutica obtidos pela Folha de S. Paulo. Em 90 dessas operações foi necessário efetuar disparos de aviso ou detenção para que o piloto mudasse a rota ou pousasse.
O ano de 2021 marcou um pico no período de cinco anos, com 1.147 aeronaves interceptadas, com números em queda nos anos seguintes.
A FAB atribuiu a redução no volume de interceptações à melhoria das ações preventivas de inteligência e ao uso de informações de diferentes órgãos de segurança e fiscalização. A interpretação da Força é que detectar e agir preventivamente pode reduzir a necessidade de interceptações posteriores.