Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

Presidente da Bolívia quer reforço das Forças Armadas contra o crime organizado após avanço de PCC e Comando Vermelho; quatro projetos podem mudar a segurança na fronteira com o Brasil

Após alertar para a presença de facções brasileiras na Bolívia, Rodrigo Paz defende ampliar a atuação militar contra o crime organizado. Quatro anteprojetos serão analisados, enquanto ações policiais seguem na fronteira com o Brasil.

Noel Budeguer
Por Noel Budeguer 13/10/2026 às 20:59
Compartilhar
Presidente da Bolívia quer reforço das Forças Armadas contra o crime organizado após avanço de PCC e Comando Vermelho; quatro projetos podem mudar a segurança na fronteira com o Brasil
Presidente Rodrigo Paz durante a cerimônia de aniversário da Escola Naval Militar da Bolívia, em 13 de outubro de 2026. Crédito: Ministério da Defesa da Bolívia/GOBCOM.

O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, pediu nesta terça-feira, 13 de outubro de 2026, que as Forças Armadas participem mais diretamente do combate ao crime organizado. O discurso ocorreu durante a celebração dos 53 anos da Escola Naval Militar, em Cochabamba, em meio à preocupação do governo com a presença de facções brasileiras em território boliviano.

O avanço do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) aparece em investigações e ações policiais no país vizinho. O governo boliviano já discute quatro propostas de normas de segurança, incluindo uma que permitiria o emprego excepcional e temporário de militares contra organizações criminosas transnacionais.

A mudança ainda depende de etapas legais. Enquanto o governo prepara a nova estrutura, a polícia boliviana mantém operações de fronteira e cooperação com autoridades brasileiras para atingir grupos que atravessam os dois países.

Presidente boliviano convoca militares e acusa organizações criminosas de ameaçar a democracia

Durante a solenidade na Escola Naval Militar, Paz defendeu uma participação das Forças Armadas na construção da segurança nacional. Segundo o relato do jornal Visión 360, o presidente afirmou que o crime organizado tenta enfraquecer a democracia, a Constituição e as instituições bolivianas.

A cerimônia ocorreu em Cochabamba e reuniu autoridades e integrantes da Armada Boliviana. Paz associou a segurança à capacidade de desenvolver o comércio regional e insistiu na necessidade de impedir que organizações internacionais aproveitem as rotas de transporte do país para expandir atividades ilícitas.

Policiais bolivianos fardados e armados fazem patrulhamento noturno na carroceria de uma viatura.
Agentes de segurança bolivianos fazem patrulhamento noturno durante reforço das operações policiais em setembro de 2026. Crédito: Ministério de Governo da Bolívia.

Conselho de Defesa já aprovou quatro anteprojetos, mas a nova missão militar ainda depende de lei

Seis dias antes do discurso, em 7 de outubro, o Conselho Supremo de Defesa do Estado Plurinacional (Cosdep) aprovou quatro propostas normativas. Elas abrangem uma Lei de Segurança e Defesa, regras para o próprio conselho, um sistema de inteligência e uma autorização específica para enfrentar ameaças graves do crime organizado transnacional.

De acordo com a Agência de Notícias Fides (ANF), a Resolução Administrativa Cosdep nº 01/2026 prevê a revisão de um anteprojeto que submeteria a atuação militar a requisitos e controles. Os documentos ainda precisam avançar na análise governamental e no processo legislativo boliviano.

O ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, descreveu a intervenção pretendida como excepcional, temporária, complementar e controlada. O desenho divulgado inclui subordinação à autoridade civil, coordenação com a polícia e mecanismos de fiscalização, em vez de uma substituição permanente das funções policiais.

PCC e Comando Vermelho já motivaram prisões e expulsões em território da Bolívia

As referências às facções brasileiras têm antecedentes recentes. Em 23 de setembro de 2026, o Ministério de Governo da Bolívia anunciou a captura, em Santa Cruz de la Sierra, de dois suspeitos apontados pelas autoridades como integrantes de alto nível do PCC e do Comando Vermelho.

O comunicado oficial boliviano informou que ambos tinham antecedentes relacionados ao tráfico de drogas no Brasil e na Bolívia e estavam irregularmente no país. O governo anunciou a expulsão dos detidos e destacou o compartilhamento de informações com a polícia brasileira.

A região de Santa Cruz aparece repetidamente nas investigações sobre circulação de criminosos, rotas de drogas e disputas entre organizações. Para o Brasil, o interesse é direto: redes de tráfico que se instalam no país vizinho podem operar através da fronteira comum e abastecer mercados ilícitos em diferentes estados brasileiros.

Rios bolivianos entram no centro da disputa contra as rotas de drogas e armas

O discurso presidencial também teve um recado específico à Armada Boliviana. Paz pediu que os rios sejam utilizados como corredores de integração e comércio, e não como caminhos para o transporte de drogas, armas e mercadorias ilegais.

O presidente destacou a experiência dos Diablos Azules, unidade ligada à Armada que atua na repressão ao narcotráfico em áreas fluviais. Essas atividades ocorrem em coordenação com a Força Especial de Luta Contra o Narcotráfico (FELCN), responsável por operações especializadas de combate às drogas.

Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora

Entrar no grupo agora

O controle dos rios amplia o alcance da ação estatal em uma região onde fronteiras, vias navegáveis e áreas remotas podem ser exploradas por redes internacionais. O emprego já existente de unidades fluviais é diferente da proposta de ampliar legalmente a participação militar em outras tarefas contra o crime organizado.

Plano Fronteiras Seguras mantém cooperação policial com o Brasil

As autoridades bolivianas já executam o plano Fronteiras Seguras, destinado a reforçar o patrulhamento, a inteligência e as operações contra organizações criminosas. O programa inclui colaboração com órgãos brasileiros na troca de informações e na identificação de suspeitos que circulam entre os países.

A atuação conjunta anunciada até agora está concentrada principalmente nas estruturas policiais e de fiscalização. A possível mudança nas atribuições das Forças Armadas bolivianas acrescentaria uma ferramenta interna de segurança sujeita à legislação daquele país, sem representar um anúncio de operação militar binacional com o Brasil.

Próximo passo será definir os limites da atuação militar contra o crime transnacional

As quatro propostas do Cosdep seguem na fase de tramitação preparatória. Antes que uma nova atuação militar possa ser implementada, o governo precisa consolidar os textos e encaminhá-los às instâncias responsáveis pela análise e aprovação legal.

Por enquanto, o fato novo é a defesa pública de Rodrigo Paz, em 13 de outubro, de um papel maior para os militares em uma política de segurança marcada pela presença de facções brasileiras. A vigilância fluvial e as prisões realizadas pela polícia boliviana continuam sendo os elementos operacionais já confirmados.

Você acredita que a participação das Forças Armadas pode ajudar a conter a expansão do PCC e do Comando Vermelho na região de fronteira? Deixe sua opinião nos comentários.

guest
0 Comentários