Dinheiro destinado à castração de animais virou o centro de uma investigação de R$ 200 milhões no Rio de Janeiro. Na manhã de 27 de outubro de 2026, agentes da Polícia Federal voltaram às ruas da capital e de Niterói para cumprir cinco mandados de busca e apreensão. A segunda fase da Operação Castratio aprofunda suspeitas de direcionamento, superfaturamento e fraude na contratação de serviços de esterilização de animais. Corrupção e lavagem de dinheiro estão entre os possíveis crimes que os investigadores procuram esclarecer. As ordens foram autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal.
O episódio chama atenção não apenas pela cifra. A castração financiada com recursos públicos é um serviço que pode atender famílias que não conseguem pagar por um procedimento veterinário e faz parte de políticas de controle populacional de animais domésticos. Quando a contratação desse serviço se torna objeto de investigação, a pergunta vai além de quem recebeu pagamentos: quantos atendimentos foram realizados, sob quais condições e se a concorrência permitiu ao Estado contratar de maneira regular.

Por que a PF voltou cinco meses depois da primeira operação
A Castratio começou publicamente em 12 de maio de 2026, quando a PF cumpriu 12 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em cidades paulistas. A investigação examinava contratos assinados no âmbito da Secretaria estadual de Agricultura, Pecuária, Pesca e Abastecimento, identificada em períodos diferentes pelas siglas Seappa e Seapa. A nova etapa, em outubro, ocorre depois que os investigadores examinaram materiais obtidos naquela primeira ofensiva.
Na nota da segunda fase, a Polícia Federal informou que os documentos e demais elementos reunidos em maio indicaram a necessidade de aprofundar a apuração sobre a extensão de uma suposta organização criminosa e suas práticas. Isso não equivale a uma condenação nem a uma demonstração de que todos os serviços tenham sido fictícios. É a justificativa oficial para uma nova busca de provas em locais e junto a pessoas ligados à investigação.
Houve também mudança no alcance geográfico imediato. Em maio, diligências ocorreram nos dois estados, inclusive nos municípios fluminenses de Itaocara, Macaé e Niterói e em cidades de São Paulo. Em 27 de outubro, os cinco mandados divulgados se concentraram no Rio e em Niterói. O número de mandados diminuiu, mas a PF afirma que a nova etapa surgiu do material colhido na primeira. O dado relevante não é uma competição de tamanhos entre operações: é a mudança de foco para entender os vínculos que ainda restaram sob suspeita.

O que chama atenção nos contratos para esterilizar animais
Os cerca de R$ 200 milhões informados pela PF são a soma dos contratos sob investigação entre o governo estadual e uma empresa privada. Não constituem um prejuízo financeiro comprovado nem representam, necessariamente, valor pago integralmente. O inquérito procura esclarecer suspeitas como direcionamento de licitações, superfaturamento e fraude na contratação de serviços.

Uma apuração publicada pela Agência Brasil em maio, com base em elementos apresentados pela Polícia Federal ao Supremo, descreveu situações consideradas suspeitas pelos investigadores. Entre elas estava a assinatura de um primeiro contrato quando a empresa Consuvet ainda não possuía autorização do Conselho Regional de Medicina Veterinária para atuar; segundo a reportagem, a autorização teria sido obtida três meses depois. A empresa também venceu uma licitação apesar de ter apresentado a quarta melhor proposta, circunstância que levou a PF a examinar os critérios utilizados para a escolha.
O mesmo relato da Agência Brasil indicou que um gestor da secretaria, Antonio Emilio Santos, deixou o cargo e, dois meses depois, passou a integrar o quadro societário da empresa beneficiada. A PF apontou possível conflito entre atuação pública anterior e interesse privado posterior. São alegações documentadas na investigação, não conclusões de culpa determinadas por sentença. Elas importam porque dão um contorno concreto a expressões que, sem exemplos, se tornariam apenas rótulos vagos de suspeita.
A existência de irregularidade em uma disputa, caso seja comprovada, não permite afirmar automaticamente que nenhuma cirurgia ocorreu. Os elementos necessários para aferir o serviço podem incluir contratos, notas fiscais, registros de clínicas e atendimentos, documentos de fiscalização e comprovantes de execução. A nota da PF de 27 de outubro não divulgou um balanço de cirurgias efetivamente realizadas nem o montante específico de eventual superfaturamento.
Um Deputado Federal entre os alvos e o direito de resposta
A apuração alcançou o Deputado Federal Marcelo Queiroz, do PSDB do Rio de Janeiro, que ocupava a pasta estadual de Agricultura quando os contratos foram firmados. A Agência Brasil informou em maio que ele estava entre os principais alvos da primeira fase. Na segunda, CNN Brasil e UOL noticiaram que o escritório de advocacia do parlamentar e pessoas ligadas a ele foram alvo de diligências. A decisão judicial tramita no Supremo por envolver autoridade com foro por prerrogativa de função.
É importante separar o fato de alguém ter um endereço vistoriado da conclusão sobre sua responsabilidade criminal. Um mandado de busca serve para colher provas; não representa acusação julgada, condenação nem perda automática de mandato. A PF trabalha com hipóteses que poderão ser corroboradas, modificadas ou descartadas à medida que o material apreendido for analisado e os envolvidos se manifestarem.
Nas reportagens consultadas na manhã de 27 de outubro, os veículos de imprensa informaram ter procurado o deputado ou pessoas citadas, sem manifestação disponível até aqueles horários. Isso não deve ser interpretado como recusa definitiva ou admissão de irregularidade. Qualquer posicionamento posterior precisará ser incorporado ao acompanhamento da notícia para preservar o contraditório.
Por que um serviço veterinário pode envolver dinheiro público tão alto
O controle populacional de cães e gatos reúne duas necessidades públicas: impedir a reprodução descontrolada de animais abandonados e ampliar acesso a cuidados veterinários, sobretudo em localidades onde famílias não conseguem arcar com os custos. O governo federal mantém o programa ProPatinhas, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, com ações que incluem esterilização cirúrgica, identificação e educação para guarda responsável. Esse programa não é objeto da Operação Castratio; serve como referência para entender por que a castração pode integrar políticas públicas.
Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
Projetos desse tipo exigem organização de clínicas, profissionais habilitados, insumos, transporte, registro dos atendimentos e acompanhamento dos animais. Esses itens ajudam a compreender por que a fiscalização é necessária em cada etapa, desde a seleção do prestador até a comprovação do atendimento realizado. Não permitem, contudo, calcular com segurança quantas cirurgias deveriam corresponder aos R$ 200 milhões: a nota da PF não apresenta um preço por procedimento ou uma lista integral dos serviços contratados.
Para quem esperava atendimento veterinário, o aspecto humano da investigação está justamente aí. A discussão sobre licitações envolve uma finalidade pública concreta: oferecer castração e cuidado veterinário, atividades para as quais há demanda em diversas cidades. A apuração precisa responder se o desenho dos contratos favoreceu indevidamente alguém e quais efeitos, se houver, isso produziu sobre a entrega do serviço ao público. Tais consequências dependem de documentos de execução e de fiscalização que não foram apresentados na comunicação oficial da operação.
O que os cinco mandados podem esclarecer daqui para frente
A PF informou que as suspeitas em análise podem configurar, entre outros delitos, peculato, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro. Peculato, em termos gerais, envolve a apropriação ou o desvio de recursos por quem exerce função pública em situações previstas na lei; corrupção abrange vantagens indevidas; lavagem procura ocultar a origem ilícita de valores. Os enquadramentos definitivos dependerão do que a investigação demonstrar.
Os mandados permitem buscar materiais que poderão ser confrontados com contratos, pagamentos, comunicações e registros de atendimento. A investigação de outubro pretende ampliar a compreensão dos vínculos e das possíveis responsabilidades. A comunicação oficial não anuncia prisão de investigados, bloqueio de todos os R$ 200 milhões ou denúncia criminal já recebida pela Justiça nesta etapa.
O próximo avanço concreto poderá vir dos laudos de análise do material apreendido, de novas decisões do Supremo e de esclarecimentos sobre o que foi contratado e efetivamente executado. Até aqui, há um fato central sólido: a Polícia Federal voltou ao caso de contratos milionários de castração animal no Rio, com cinco buscas determinadas pelo STF e suspeitas que ainda precisam passar pelo crivo da prova e do direito de defesa.