Há exatamente 30 anos, dois jovens militares concluíam sua formação na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), principal instituição de formação de oficiais de carreira do Exército Brasileiro, localizada em Resende, no Rio de Janeiro. Naquele momento, Tarcísio de Freitas e Luciano Zucco integravam a mesma turma de aspirantes a oficiais.
Três décadas depois, os antigos colegas conquistaram os governos de São Paulo e do Rio Grande do Sul nas eleições de 4 de outubro de 2026. Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, é a primeira vez desde a redemocratização que dois políticos oriundos do Exército chegam simultaneamente ao comando de governos estaduais.
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Dois oficiais da mesma turma escolheram caminhos diferentes dentro do Exército
Tarcísio de Freitas e Luciano Zucco concluíram o curso da AMAN em 1996, mas seguiram especialidades militares distintas. Tarcísio ingressou na Engenharia, responsável por atividades como construção de estruturas, apoio à mobilidade de tropas e trabalhos técnicos em operações militares.
Zucco escolheu a Cavalaria, tradicional arma do Exército ligada ao reconhecimento, à mobilidade e ao emprego de unidades blindadas e mecanizadas. Durante suas carreiras, os dois alcançaram postos diferentes: Tarcísio chegou a capitão, enquanto Zucco alcançou o posto de tenente-coronel.
Apesar da formação em comum, suas trajetórias profissionais se separaram. Tarcísio deixou a carreira militar mais cedo para trabalhar na administração pública, enquanto Zucco permaneceu nos quartéis até iniciar sua trajetória eleitoral.
Tarcísio deixou o Exército em 2008 e chegou ao Ministério da Infraestrutura

Depois de concluir a AMAN, Tarcísio de Freitas aprofundou sua formação técnica no Instituto Militar de Engenharia (IME), onde se graduou em Engenharia Civil em 2002. Posteriormente, participou da missão de paz das Nações Unidas no Haiti, entre 2005 e 2006.
Em 2008, deixou o Exército e passou a trabalhar na Controladoria-Geral da União (CGU). Também ocupou funções de direção no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), construindo uma carreira ligada ao planejamento e à fiscalização de obras públicas.
Sua entrada no primeiro escalão do governo federal aconteceu em 2019, quando foi nomeado ministro da Infraestrutura pelo então presidente Jair Bolsonaro. Em 2022, disputou pela primeira vez uma eleição e conquistou o governo de São Paulo pelo Republicanos.
Tenente-coronel Zucco saiu da carreira militar e conquistou espaço no Congresso

Luciano Zucco, natural de Alegrete, no Rio Grande do Sul, permaneceu por mais tempo no Exército. Entre 2010 e 2016, atuou no Gabinete de Segurança Institucional (GSI), integrando a estrutura responsável pela segurança presidencial durante o governo de Dilma Rousseff.
Sua entrada na política eleitoral ocorreu em 2018, quando foi eleito deputado estadual pelo PSL, tornando-se o candidato mais votado para o cargo no Rio Grande do Sul. Naquele período, recebeu apoio político do general Hamilton Mourão, que posteriormente assumiria a Vice-Presidência da República.
Em 2022, Zucco foi eleito deputado federal pelo Republicanos. Na Câmara dos Deputados, presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e ocupou a liderança da oposição ao governo Lula em 2025.
Tarcísio recebeu 14,4 milhões de votos e Zucco ultrapassou 3,5 milhões
Os dois antigos oficiais venceram suas disputas estaduais ainda no primeiro turno das eleições de 2026, realizado em 4 de outubro, dispensando a necessidade de uma segunda votação para definir os governos.
Em São Paulo, Tarcísio de Freitas foi reeleito com 14.491.874 votos, equivalentes a 62,65% dos votos válidos, conforme os resultados oficiais divulgados pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Fernando Haddad, do PT, ficou em segundo lugar, com 36,42%.
No Rio Grande do Sul, Luciano Zucco, agora filiado ao PL, conquistou 3.516.048 votos, representando 58,05% dos votos válidos. A segunda colocada foi Juliana Brizola, do PDT, com 31,65%, segundo o Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul.
Juntos, os dois políticos receberam mais de 18 milhões de votos, embora os resultados correspondam a eleições estaduais independentes, realizadas em eleitorados diferentes.
Turma de 1996 também formou ex-ministro e integrante do governo paulista
A coincidência entre os dois governadores não é o único aspecto relevante da turma de 1996 da Academia Militar das Agulhas Negras. Outros oficiais formados naquele mesmo ano também chegaram a posições importantes na administração pública brasileira.
Um deles é Wagner Rosário, que comandou a Controladoria-Geral da União durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro e posteriormente assumiu uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.
Outro integrante da promoção é Arthur Lima, que chegou ao cargo de secretário de Justiça e Cidadania do governo paulista. A presença desses nomes mostra como integrantes de uma mesma turma militar seguiram carreiras que ultrapassaram as atividades tradicionais das Forças Armadas.
Ex-militares chegaram à política sem utilizar suas patentes na eleição de 2026
Embora tenham origens militares semelhantes, Tarcísio e Zucco apresentaram trajetórias eleitorais distintas. Tarcísio disputou sua primeira eleição somente em 2022, depois de ocupar cargos técnicos e de direção na administração federal.
Zucco, por outro lado, iniciou a carreira política logo após deixar o serviço militar ativo e utilizou a identificação de tenente-coronel em campanhas anteriores. Na disputa pelo governo gaúcho em 2026, passou a apresentar-se eleitoralmente apenas como Zucco.
Segundo a Folha de S.Paulo, nenhum dos dois declarou ocupação militar ao Tribunal Superior Eleitoral durante o pleito de 2026. Tarcísio informou ser governador, enquanto Zucco declarou a função de deputado federal.
Vitória dos dois ex-oficiais cria situação inédita desde a redemocratização
A eleição dos antigos colegas da AMAN representa um episódio particular da participação de ex-integrantes do Exército na política brasileira. Conforme o levantamento histórico da Folha, não havia registro equivalente de dois governadores oriundos dessa Força ocupando simultaneamente o Executivo de estados brasileiros durante o período democrático recente.
A situação, entretanto, não significa que o Exército tenha assumido participação institucional nos governos estaduais. Tarcísio e Zucco disputaram as eleições como candidatos de partidos políticos, após deixarem o serviço militar ativo, e exercerão seus mandatos como autoridades civis.
A condição de antigos companheiros de turma também não implica a existência de uma administração conjunta ou de decisões coordenadas entre os dois estados.
Novos mandatos começam em 6 de janeiro de 2027
Apesar das vitórias confirmadas em outubro, os mandatos decorrentes das eleições de 2026 terão início em 6 de janeiro de 2027. A nova data foi estabelecida pela Emenda Constitucional nº 111, de 2021, que modificou o calendário de posse dos governadores brasileiros.
Tarcísio continuará à frente de São Paulo por mais quatro anos, enquanto Luciano Zucco assumirá o governo do Rio Grande do Sul, sucedendo Eduardo Leite.
Quando os novos mandatos começarem, os dois oficiais formados em 1996 estarão à frente de governos estaduais exatamente três décadas após concluírem sua formação militar em Resende. Uma trajetória compartilhada na academia que terminou levando antigos colegas ao comando de dois dos estados mais importantes do Brasil.