Um único porta-aviões dos Estados Unidos vai consumir cerca de US$ 5,1 bilhões em sua grande reforma de meia-vida. O valor chama atenção até mesmo dentro do orçamento militar norte-americano e ajuda a dimensionar quanto custa manter uma capacidade naval que poucas forças armadas conseguem sustentar por décadas.
O navio é o USS Harry S. Truman (CVN-75), da classe Nimitz. Em 30 de setembro de 2026, ele chegou ao Newport News Shipbuilding, na Virgínia, para iniciar o chamado Refueling and Complex Overhaul (RCOH), uma intervenção que inclui reabastecimento dos reatores nucleares e uma modernização profunda de praticamente todos os sistemas importantes do navio.
Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
US$ 5,1 bilhões para dar uma nova vida ao Truman
O contrato concedido à Huntington Ingalls Industries tem valor inicial de aproximadamente US$ 5,099 bilhões. Caso todas as opções previstas sejam exercidas, o custo poderá ultrapassar US$ 5,18 bilhões, tornando o RCOH do Truman uma das maiores intervenções já realizadas em um porta-aviões da classe Nimitz.
A previsão é que o trabalho avance até aproximadamente novembro de 2031. Isso significa que os Estados Unidos aceitarão manter um de seus principais porta-aviões fora de operação por cerca de cinco anos para garantir que ele continue relevante por aproximadamente mais duas décadas.

Não se trata apenas de colocar combustível nuclear
O termo “reabastecimento” pode dar a impressão de que os bilhões de dólares serão gastos apenas nos reatores. Na realidade, o RCOH é praticamente uma reconstrução de meia-vida, realizada uma única vez durante os aproximadamente 50 anos de serviço previstos para um Nimitz.
Além dos dois reatores nucleares, são revisados ou substituídos sistemas elétricos, comunicações, sensores, áreas internas, estruturas, equipamentos de combate e partes da planta de propulsão. Em RCOHs anteriores, trabalhos semelhantes alcançaram mais de 2.300 compartimentos, além de centenas de tanques, equipamentos do convés de voo e sistemas ligados à operação das aeronaves.
Um navio de quase 100 mil toneladas
O tamanho do Truman ajuda a explicar a dimensão da conta. Um porta-aviões da classe Nimitz mede cerca de 333 metros de comprimento, desloca perto de 100 mil toneladas totalmente carregado e pode atingir velocidades superiores a 30 nós graças à sua propulsão nuclear.
Seu grupo aéreo pode reunir mais de 60 aeronaves, incluindo caças, helicópteros, aviões de guerra eletrônica e plataformas de alerta antecipado. Somando tripulação, pessoal da aviação e equipes de apoio, milhares de militares podem operar embarcados simultaneamente.
Uma base aérea móvel no meio do oceano
Na prática, o navio funciona como uma grande base aérea móvel capaz de permanecer longe do território dos Estados Unidos durante longos períodos. Essa capacidade permite transportar poder aéreo completo para regiões de crise sem depender exclusivamente de bases em outros países.
O custo elevado também está ligado à necessidade de manter tudo funcionando em um ambiente extremamente agressivo. Sistemas eletrônicos, motores, elevadores, catapultas, áreas de armazenamento, radares e instalações internas precisam permanecer compatíveis com aeronaves e armamentos que evoluem ao longo de décadas.
Truman chega ao estaleiro após uma fase intensa

A entrada no RCOH acontece depois de um período operacional particularmente exigente. Em seu último grande desdobramento, o Truman permaneceu cerca de 251 dias em operação e participou de missões militares no Oriente Médio.
Durante essa campanha, seu grupo aéreo empregou mais de 1,1 milhão de libras de armamentos. O período também foi marcado por incidentes graves, incluindo uma colisão com um navio mercante próximo ao Egito em fevereiro de 2025 e a perda de três caças F/A-18 Super Hornet em episódios distintos.
Em vez de aposentadoria, mais bilhões
Mesmo depois de anos de uso intenso e de problemas acumulados, a decisão norte-americana não foi retirar o navio de serviço. O caminho escolhido foi investir bilhões para garantir que ele permaneça na linha de frente durante muitos anos.
Esse ponto é fundamental para entender a lógica por trás do RCOH. Os Estados Unidos não enxergam o porta-aviões apenas como um navio caro, mas como uma capacidade estratégica que precisa ser preservada mesmo quando o custo de manutenção alcança cifras gigantescas.
Brasil seguiu um caminho muito diferente
A comparação com o Brasil chama atenção porque a Marinha do Brasil já operou porta-aviões capazes de lançar aeronaves de asa fixa. O último foi o NAe São Paulo, antigo Foch francês, incorporado no início dos anos 2000.
O navio sofreu sucessivos problemas técnicos e ficou longos períodos indisponível. Em 2017, a Marinha decidiu abandonar sua modernização depois de avaliar os riscos técnicos, os custos e as dificuldades industriais envolvidas no projeto.

Atlântico não substituiu a antiga capacidade de caças
Posteriormente, o Brasil incorporou o NAM Atlântico, antigo HMS Ocean britânico, que hoje é o maior navio da esquadra brasileira. Entretanto, ele foi concebido para funções diferentes, principalmente operações com helicópteros, tropas, comando e sistemas aéreos compatíveis.
Isso significa que o Brasil não recuperou a antiga capacidade de lançar e recolher caças convencionais a partir de um porta-aviões. A comparação com o Truman mostra justamente a diferença de escala entre manter uma força desse tipo e optar por uma estrutura naval mais barata.
O custo de permanecer no pequeno clube dos porta-aviões
O caso do USS Harry S. Truman demonstra que o preço de um porta-aviões não termina quando ele é construído. Décadas depois, continuam existindo custos gigantescos com manutenção, modernização, infraestrutura, treinamento, aeronaves e milhares de militares necessários para manter todo o sistema funcionando.
Os US$ 5,1 bilhões do Truman não representam a compra de um novo navio. Representam o que os Estados Unidos estão dispostos a investir para não perder uma capacidade que consideram essencial e para manter em serviço, até perto da metade do século, um porta-aviões construído ainda nos anos 1990.