A Royal Air Force (RAF) utilizou o Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, em uma sequência de voos militares com destino e origem nas Ilhas Malvinas. Entre 14 e 16 de outubro, dois Airbus A400M Atlas conectaram o território brasileiro à base britânica de Mount Pleasant, no arquipélago disputado com a Argentina.
Os deslocamentos ocorreram em meio a exercícios militares britânicos e à tentativa argentina de barrar a exploração de petróleo na região.
Mas há um detalhe que torna o episódio especialmente sensível para o Brasil: em 2017, Brasília afirmou desconhecer voos semelhantes, depois de a Argentina lembrar um compromisso brasileiro de não receber aeronaves militares britânicas destacadas nas ilhas.
Nove anos depois, os registros de voo colocam novamente essa questão em evidência.
Dois aviões militares britânicos fazem rota entre Brasil e Malvinas
Em 14 de outubro, o A400M Atlas de matrícula ZM419 decolou do Galeão rumo à base militar de Mount Pleasant.
O voo RRR4239, registrado pelo Flightradar24, durou cinco horas e 33 minutos.
Nas 48 horas seguintes, a aeronave realizou outros voos a partir das ilhas, embora os destinos de algumas dessas operações não apareçam no histórico público.
Em 16 de outubro, outro A400M britânico, identificado como ZM418, fez o caminho inverso: deixou Mount Pleasant e pousou no Rio de Janeiro. O avião voltou a decolar do Brasil no dia seguinte.
A sequência é compatível com uma troca de aeronaves empregadas na logística britânica, embora a RAF não tenha confirmado publicamente a finalidade específica desses deslocamentos.
O A400M transporta tropas, veículos e equipamentos pesados. É uma peça importante para abastecer forças militares posicionadas longe do território britânico.
Os registros confirmam os trajetos entre Brasil e Malvinas, mas não revelam quais cargas ou passageiros estavam a bordo.
Argentina já questionou Brasil por receber aviões militares britânicos
O episódio tem um antecedente diplomático documentado.
Em março de 2017, a Argentina denunciou que aeronaves da RAF haviam realizado pelo menos seis voos entre aeroportos brasileiros e as Malvinas durante 2016. Outros 12 movimentos semelhantes tinham sido identificados em 2015.
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Buenos Aires cobrou explicações e lembrou o compromisso brasileiro de não receber aeronaves ou embarcações militares britânicas destacadas nos arquipélagos em disputa, conforme posições assumidas no âmbito do Mercosul e da Unasul.
Segundo o comunicado oficial da Chancelaria argentina, o Itamaraty afirmou desconhecer aquelas operações e prometeu consultar o Ministério da Defesa.
Autoridades brasileiras também levantaram a possibilidade de que os voos estivessem relacionados a emergências técnicas ou razões humanitárias.
Agora, o retorno de aeronaves militares britânicas à rota entre Rio de Janeiro e Mount Pleasant recupera a controvérsia.
A legislação brasileira exige autorização para o ingresso de aviões militares estrangeiros. Entretanto, não foram divulgadas as condições específicas das autorizações relacionadas aos voos de outubro de 2026.
Também não há confirmação pública de uma nova reclamação argentina ao governo brasileiro.
Reino Unido mantém tropas e caças Typhoon nas Malvinas
A movimentação aérea ocorreu poucos dias depois de um exercício britânico que reuniu aproximadamente 250 militares no arquipélago.
Como mostrou a Revista Sociedade Militar na cobertura da operação Cape Upholder, as tropas realizaram desembarque anfíbio, deslocamentos noturnos e ataques simulados inspirados na guerra de 1982.
O treinamento contou com apoio de caças Eurofighter Typhoon e participação do navio-patrulha HMS Medway.
A presença britânica também é acompanhada pelos planos argentinos de recuperar capacidades militares. Uma análise sobre a possível aquisição de submarinos pela Argentina examinou os desafios que isso poderia representar para a defesa das ilhas.
Aviões como o A400M ajudam a sustentar essa estrutura militar, transportando pessoal e suprimentos. Sua presença, isoladamente, não comprova um reforço extraordinário das forças britânicas.
Argentina tenta barrar exploração de petróleo nas Malvinas
Em paralelo aos voos, Buenos Aires intensificou a disputa pela exploração de petróleo nas águas próximas ao arquipélago.
Em 13 de outubro, a Argentina solicitou medidas provisórias ao Tribunal Internacional do Direito do Mar para tentar impedir atividades petrolíferas autorizadas pelo Reino Unido.
A controvérsia envolve o projeto Sea Lion, desenvolvido pelas empresas Navitas Petroleum e Rockhopper Exploration, com previsão de início da produção em 2028.
A Argentina considera a exploração uma violação de seus direitos soberanos. Londres rejeita essa posição e defende as atividades autorizadas pelas autoridades das ilhas.
A iniciativa argentina foi noticiada pela Reuters.
Ao mesmo tempo, Buenos Aires busca ampliar sua infraestrutura naval no extremo sul. Em outubro, o governo autorizou uma licitação de aproximadamente R$ 622 milhões para construir um cais militar em Ushuaia.
Não há evidências de que os voos britânicos tenham sido motivados diretamente pela disputa petrolífera.
Brasil apoia posição argentina, mas aparece na logística aérea britânica
O Brasil mantém apoio histórico à reivindicação argentina de soberania sobre as Malvinas e defende uma solução pacífica e negociada para o conflito.
A relação entre os dois países também inclui episódios de cooperação militar.
Durante a Guerra das Malvinas de 1982, o Brasil cedeu aeronaves à Argentina. Anos depois, o porta-aviões Minas Gerais serviu para o treinamento de pilotos argentinos de Super Étendard.
Essa aproximação continua em operações atuais. Para novembro, Brasil e Argentina preparam um exercício conjunto de proteção de cabos submarinos de telecomunicações, com participação de meios militares dos dois países.
A importância dessas atividades está ligada ao valor estratégico do Atlântico Sul para a segurança, a energia e o comércio brasileiro.
A questão das conexões aéreas com as Malvinas também ganhou outro capítulo recentemente. A Argentina levou à Justiça uma denúncia envolvendo voos de uma aeronave da Thales UK entre o Chile e as ilhas.
No caso dos A400M, porém, não se trata de uma aeronave civil de inspeção, mas de aviões militares pertencentes à própria RAF.
O ponto ainda sem esclarecimento público é como o Brasil autorizou esses deslocamentos e em que condições eles se conciliam com os compromissos diplomáticos anteriormente invocados pela Argentina.
A resposta interessa diretamente à política externa brasileira: o país apoia historicamente a posição argentina sobre as Malvinas, mas seu principal aeroporto internacional no Rio de Janeiro voltou a integrar uma rota utilizada pela aviação militar britânica para chegar ao arquipélago.