A Argentina reposicionou um radar militar em San Pedro, na província de Misiones, e mobilizou soldados, drones, sistemas de comunicação e helicópteros para vigiar setores próximos à fronteira brasileira. As medidas foram apresentadas ao longo de 2025, na mesma região em que um documento oficial reconheceu dificuldades para controlar mais de 25 quilômetros de fronteira seca com o Brasil.
O trecho mais sensível fica junto a Dionísio Cerqueira, em Santa Catarina, e Barracão, no Paraná. Ali, a cidade argentina de Bernardo de Irigoyen se encontra com os municípios brasileiros sem a separação de um grande rio. O reforço ganhou outra dimensão quando o governo argentino criou um comando especial para fiscalizar passagens e mobilizou uma brigada militar em áreas estratégicas de Misiones.
Radar militar passou a operar dentro de uma esfera gigante em San Pedro
Em 2 de setembro de 2025, o Ministério da Defesa argentino apresentou a nova posição do Radar Primário Argentino (RPA), na estação de San Pedro. O equipamento foi transferido para uma torre elevada, protegida por uma enorme cúpula arredondada, conhecida como radome, construída para melhorar as condições de detecção de aeronaves.

Segundo a comunicação oficial argentina, a mudança fortaleceu o sistema nacional de vigilância aérea. A rede contava então com seis radares da primeira série funcionando 24 horas por dia, durante os 365 dias do ano. O comando aeroespacial também mantinha aeronaves em prontidão para atender ocorrências classificadas como voos irregulares.
O radar de San Pedro já funcionava anteriormente nas proximidades da cidade. Em março de 2025, o jornal local El Territorio registrou a retirada dos equipamentos de uma instalação usada havia mais de uma década e seu transporte para o novo complexo no paraje Gramado. A estrutura elevada passou a integrar essa capacidade de vigilância já existente, com instalações renovadas.
Soldados de brigada especializada foram enviados a setores próximos do Brasil
Dois meses depois da apresentação do radar, o governo argentino divulgou outra movimentação em Misiones. Em 5 de novembro de 2025, militares da Brigada de Monte XII integraram a chamada Força de Vigilância Andresito, componente da Operação Presidente Julio Argentino Roca.
O Estado-Maior Conjunto argentino informou que as unidades estavam pré-posicionadas em áreas do nordeste de Misiones, incluindo Bernardo de Irigoyen e regiões próximas a Puerto Iguazú. O material apresentado incluía radares, drones de observação, equipamentos de proteção, comunicações avançadas e apoio aéreo por helicópteros.
A operação colocou militares preparados para atuar em terrenos de mata, caminhos rurais e pontos de difícil acesso, enquanto forças policiais e de segurança continuavam responsáveis por atividades específicas de fiscalização. O deslocamento foi documentado em 2025; a fase de execução definida pelo Ministério da Defesa tinha prazo até 15 de dezembro daquele ano.

Governo identificou 25 quilômetros de fronteira seca sem barreiras naturais
O motivo do reforço aparece na Resolução 626/2025 do Ministério da Segurança argentino. O texto descreve a região de Bernardo de Irigoyen como uma fronteira terrestre de mais de 25 quilômetros, marcada por caminhos alternativos, áreas de mata e locais onde a passagem entre Argentina e Brasil pode ocorrer sem obstáculos naturais.
A geografia cria uma situação incomum. Bernardo de Irigoyen, Dionísio Cerqueira e Barracão formam uma área urbana contínua, na qual ruas e espaços públicos se aproximam diretamente da linha internacional. A própria Agência Estadual de Notícias do Paraná identifica esse conjunto como a única fronteira seca entre Brasil e Argentina.
Na resolução, o governo argentino relata dificuldades para fiscalizar integralmente o movimento de pessoas e mercadorias e aponta rotas clandestinas, diferenças de preços entre os países e atuação de redes criminosas transnacionais. A avaliação oficial levou Buenos Aires a ampliar o monitoramento terrestre e a coordenação entre órgãos públicos.
Comando especial foi criado para fechar brechas na divisa brasileira
Em 26 de maio de 2025, a Argentina oficializou o Plano Guaçurarí, voltado para a região de Bernardo de Irigoyen. A medida estabeleceu um comando unificado com participação de Gendarmería, Polícia Federal, Prefectura Naval, Polícia de Segurança Aeroportuária e Serviço Penitenciário Federal, além de articulação com autoridades provinciais.

A estratégia previa patrulhas, controle de veículos e pedestres, ações em rotas secundárias e uso de equipamentos de observação. O objetivo declarado era dificultar a atuação de organizações que utilizam a divisa para contrabando e outros delitos transnacionais. O governo argentino situou o comando justamente na fronteira com Santa Catarina e Paraná.
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Em setembro de 2026, uma nova resolução argentina voltou a mencionar o Plano Andrés Guaçurarí entre as medidas coordenadas de segurança aplicadas a regiões fronteiriças. Esse registro atualiza o quadro institucional da estratégia, enquanto os anúncios específicos do radar e da brigada permanecem datados de 2025.
Presença de militares provocou contestação sobre regras de atuação
A Operação Roca também abriu uma discussão sobre os limites da presença militar na segurança interna argentina. Em 30 de abril de 2025, o Centro de Estudios Legales y Sociales (CELS) criticou a atribuição de tarefas de vigilância a soldados e questionou o caráter reservado das regras que orientavam sua atuação.
O Comitê Nacional para a Prevenção da Tortura também manifestou preocupação, em maio de 2025, com a separação entre funções militares e policiais. Os órgãos argumentaram que operações de segurança cidadã exigem parâmetros públicos de controle e de emprego da força.
O Ministério da Defesa argentino enquadrou a Operação Roca como missão de vigilância em zonas de segurança de fronteira, em apoio às autoridades responsáveis pela segurança. A Resolução 727/2025 determinou a execução em áreas que excluíam centros urbanos e passagens internacionais habilitadas, com coordenação entre os ministérios da Defesa e da Segurança.
Argentina recebeu em 2026 outros dois radares capazes de rastrear mil alvos
A modernização da vigilância aérea argentina avançou em 15 de abril de 2026, quando o Exército anunciou a entrada em serviço de dois radares móveis RPA-200M, fabricados pela empresa nacional INVAP. Segundo o governo, cada sistema pode detectar e acompanhar simultaneamente mais de mil alvos.
Essas unidades são radares móveis destinados ao Exército, diferentes da instalação fixa de San Pedro, apresentada em 2025. O comunicado de abril descreveu equipamentos transportáveis, capazes de trabalhar com equipes reduzidas e de transmitir dados para centros de comando. A incorporação amplia a modernização nacional da vigilância, sem estabelecer uma nova instalação dessas duas unidades em Misiones.
Para o Brasil, a nova vigilância se concentra numa fronteira que pode ser cruzada a pé
Do lado brasileiro, o trecho mais próximo das ações de controle em Bernardo de Irigoyen envolve Dionísio Cerqueira (SC) e Barracão (PR), municípios ligados à localidade argentina pelo cotidiano de moradores, comércio e circulação de veículos. Qualquer mudança relevante na fiscalização do lado argentino afeta diretamente o ambiente de travessias e a necessidade de comunicação entre autoridades dos dois países.
A vigilância aérea e o policiamento terrestre têm funções diferentes. O radar busca identificar movimentos no céu argentino; as forças de segurança procuram controlar corredores terrestres e passagens de fronteira. A resposta brasileira a problemas transfronteiriços também inclui cooperação com países vizinhos, como prevê sua própria política de proteção de fronteiras.
Brasil e Argentina seguem mantendo cooperação militar: em outubro de 2026, seus Exércitos participaram de atividades conjuntas no Rio Grande do Sul, com blindados e outras unidades argentinas. Na fronteira de Misiones, permanece o desafio descrito pelas autoridades argentinas: vigiar uma divisa que atravessa bairros, estradas e trechos de mata sem interromper o trânsito legal entre as comunidades.