O Exército Brasileiro chegou a preparar um plano para invadir o Uruguai e avançar até Montevidéu em apenas 30 horas. O objetivo era entrar no país vizinho caso a esquerda vencesse as eleições presidenciais de 1971. A operação tinha nome, tropas previstas, caminhos pela fronteira do Rio Grande do Sul e apoio aéreo no planejamento. Tudo isso durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici.
O nome, Operação Trinta Horas, não era escolhido ao acaso. Esse era o prazo que os estrategistas brasileiros julgavam suficiente para vencer uma eventual resistência e tomar pontos estratégicos uruguaios, incluindo a capital. O plano nunca foi executado, mas pesquisas baseadas em documentos diplomáticos e testemunhos de militares mostram que os preparativos passaram muito longe de uma simples conversa de gabinete.
III Exército ficou responsável por preparar a entrada no país vizinho
O plano seria executado pelo III Exército, sediado no Rio Grande do Sul, de onde partiriam as forças terrestres. Segundo estudo do historiador Enrique Serra Padrós, publicado na Revista Maracanan, da UERJ, a operação envolvia a cadeia de comando militar e usaria uma rede de estradas que levava às passagens de fronteira.
O roteiro mencionado em levantamentos históricos e na apuração publicada pelo UOL em 2021 passava por quartéis e pontos de deslocamento em Bagé, Santana do Livramento, Chuí e Uruguaiana. Esta última cidade fica na fronteira com a Argentina, mas aparecia nos estudos de mobilização do Exército no extremo sul. A ofensiva teria como destino o território uruguaio e, principalmente, Montevidéu.
A mobilização foi além do papel. Uma publicação histórica disponibilizada no portal federal Memórias Reveladas relata que unidades militares concentradas no Rio Grande do Sul permaneceram de prontidão por semanas. Era um dispositivo preparado para ser acionado conforme a situação política no outro lado da fronteira.
Plano previa aviões, estradas estratégicas e até controle de usina
O Exército pretendia chegar rápido, antes que uma reação interna ou pressão diplomática internacional complicasse a ofensiva. O planejamento incluía apoio aéreo para transportar tropas, munições e suprimentos, além de emprego de poder de fogo contra eventuais pontos de resistência, conforme a pesquisa de Padrós.
Entre os locais mencionados pela apuração histórica estava a hidrelétrica de Rincón del Bonete, na região de Paso de los Toros, responsável por parte importante do fornecimento de energia uruguaio. Controlar uma instalação desse tipo significaria pressionar o funcionamento do país enquanto as forças avançassem sobre a capital.
O número de 30 horas era a estimativa dos próprios planejadores militares, não o resultado de uma operação bem-sucedida. O Brasil nunca testou essa previsão contra as forças uruguaias. Ainda assim, o simples fato de prever a ocupação de um país soberano por causa de uma eleição mostra o tamanho da decisão que estava sendo considerada.
Uma vitória da esquerda nas urnas seria o sinal para a invasão
A eleição presidencial uruguaia estava marcada para 28 de novembro de 1971. O país atravessava uma grave crise política e econômica, e uma nova coalizão, a Frente Ampla, havia reunido forças de esquerda e centro-esquerda em torno da candidatura do general reformado Líber Seregni.
O governo de Médici temia que o Uruguai seguisse o caminho do Chile, onde Salvador Allende tinha chegado à Presidência em 1970. Na visão da ditadura brasileira, uma vitória da Frente Ampla poderia transformar a fronteira sul em espaço de influência de um governo considerado hostil. O temor era tratado pelos estrategistas da época como uma questão de segurança nacional.
O aspecto mais controverso da história aparece aí: a mudança de governo por meio do voto poderia ser respondida com tropas brasileiras atravessando a fronteira. A hipótese de intervenção estava ligada ao resultado eleitoral de outro país, e não a um ataque militar uruguaio contra o Brasil.
Coronel brasileiro relatou visitas de militares estrangeiros à fronteira
Parte das informações ganhou força com o relato do coronel Dickson Grael, que serviu na 2ª Divisão de Cavalaria, em Santana do Livramento. Em seu livro publicado em 1985, ele contou que recebeu a tarefa de estudar diretrizes de uma possível intervenção militar ampla no Uruguai, caso a Frente Ampla ganhasse a eleição.
Grael também descreveu a passagem de oficiais da Aeronáutica brasileira e a visita de um representante militar americano à região fronteiriça. Segundo os relatos reunidos pela imprensa uruguaia e por pesquisadores, havia levantamento de informações sobre acessos e condições da área. Outra versão, atribuída ao general da reserva Ruy de Paula Couto, sustenta que a ideia teria partido do próprio presidente uruguaio Jorge Pacheco Areco; a origem desse pedido segue dependente dos testemunhos históricos disponíveis.
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Arquivos americanos mostram preocupação com eleição e cooperação militar
Os Estados Unidos acompanhavam o assunto de perto. Um documento secreto de 25 de agosto de 1971, divulgado pelo National Security Archive, da Universidade George Washington, recomendava colaboração aberta e reservada com veículos de comunicação contrários à Frente Ampla, além de estimular a cooperação de Brasil e Argentina com as forças de segurança uruguaias.
Outro registro desclassificado preserva uma declaração de Richard Nixon ao primeiro-ministro britânico Edward Heath segundo a qual o Brasil ajudara a manipular a eleição uruguaia. A afirmação do presidente americano integra a documentação histórica, embora os mecanismos e a extensão da interferência eleitoral permaneçam objeto de pesquisa e disputa.
Não era só o governo de Brasília que temia a vitória da Frente Ampla. Washington via a possibilidade de um novo governo de esquerda no Cone Sul como um problema estratégico, especialmente depois da eleição de Allende no Chile. Nesse ambiente, diplomatas, agentes de inteligência e comandos militares acompanhavam os acontecimentos uruguaios.
Exército desativou o plano, mas o Uruguai entraria em ditadura dois anos depois
O cenário que acionaria a invasão não se confirmou. A Frente Ampla terminou a eleição com aproximadamente 18% dos votos, enquanto o Partido Colorado venceu e Juan María Bordaberry chegou à Presidência. O dispositivo militar brasileiro foi desmobilizado à medida que os levantamentos políticos indicavam que a coalizão de Seregni dificilmente venceria.
Em 27 de junho de 1973, já como presidente, Bordaberry dissolveu o Parlamento com apoio das Forças Armadas uruguaias, abrindo caminho para uma ditadura que durou até 1985. A intervenção brasileira planejada em 1971 ficou nos arquivos, nos depoimentos e nas pesquisas históricas, enquanto a crise institucional uruguaia seguiu por outro caminho.
Passados mais de cinquenta anos, a Operação Trinta Horas permanece como um dos episódios mais duros das relações militares do Brasil com seus vizinhos. Um governo brasileiro considerou ocupar outro país em poucas horas para impedir a chegada de uma coalizão política ao poder. O plano não virou guerra, mas chegou a colocar unidades em prontidão na fronteira.