Quando agentes federais chegaram a um garimpo clandestino na Amazônia, os trabalhadores fugiram. Um deles, porém, ficou para trás. Estava ferido, não conseguia sair sozinho e acabou abandonado pelos próprios colegas. O que a Polícia Federal encontrou naquele local revelou muito mais do que uma exploração ilegal de ouro.
O episódio ocorreu em 29 de outubro de 2026, na Terra Indígena Kayapó, em Cumaru do Norte, sudeste do Pará. Além de resgatar o homem, equipes da Polícia Federal (PF) e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) localizaram máquinas pesadas, veículos e instalações utilizadas para sustentar a atividade clandestina.
O caso também levantou suspeitas sobre as condições enfrentadas pelos trabalhadores. E um episódio semelhante já havia chamado a atenção das autoridades naquela mesma região poucas semanas antes.
Trabalhador é resgatado e PF inutiliza 37 equipamentos e estruturas no garimpo

A ação fez parte da Operação Escudo, realizada para interromper a extração ilegal de ouro dentro do território indígena.
Segundo a Polícia Federal, que divulgou os resultados em 30 de outubro, o trabalhador ferido não tinha condições de acompanhar a fuga dos demais ocupantes.
Os agentes providenciaram seu transporte até uma unidade hospitalar, onde recebeu atendimento médico. Ele também foi orientado sobre seus direitos, diante das suspeitas de condições degradantes de trabalho.
Durante a operação, as equipes inutilizaram três escavadeiras hidráulicas, três caminhonetes, quatro motocicletas e oito motores, sendo quatro de grande porte.
Além disso, destruíram 19 barracos utilizados como estruturas de apoio à exploração clandestina.
No total, foram 37 equipamentos, veículos e estruturas inutilizados. A medida buscou impedir que a maquinaria e as instalações voltassem a ser utilizadas pelos garimpeiros.
A PF não divulgou a identidade do homem nem detalhes sobre seus ferimentos. Também não informou, no balanço divulgado, se os responsáveis pelas condições de trabalho suspeitas haviam sido identificados.
PF encontrou indícios de trabalho escravo em outro garimpo 24 dias antes

O resgate não foi o primeiro episódio recente a levantar preocupações sobre a situação dos trabalhadores envolvidos na extração clandestina de ouro na região.
Em 5 de outubro, agentes da PF localizaram outro garimpo em funcionamento no município de Tucumã, em uma propriedade rural próxima à Terra Indígena Kayapó.
Na ocasião, os policiais apreenderam duas escavadeiras hidráulicas, motores e aparelhos celulares. Também encontraram um galpão utilizado como alojamento.
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As condições do local levantaram suspeitas de trabalho em situação análoga à escravidão. A investigação passou a buscar os responsáveis pela exploração e o comprador do ouro extraído ilegalmente.
Não há confirmação de que os dois garimpos pertençam à mesma organização criminosa. Entretanto, as ocorrências mostram que as autoridades identificaram possíveis violações trabalhistas em intervenções realizadas com menos de um mês de intervalo.
Mesmo após destruição de 32 escavadeiras, garimpo continua sendo encontrado em Kayapó
O volume de máquinas encontrado na Operação Escudo também chama atenção diante das ações federais anteriores.
Nos dias 17 e 18 de junho de 2026, a Operação Xapiri Mebêngôkré já havia inutilizado 32 escavadeiras hidráulicas dentro da Terra Indígena Kayapó.
Naquela intervenção, as autoridades também inutilizaram motores, veículos, instalações clandestinas e aproximadamente 10.200 litros de combustível. O balanço, publicado pela Funai em 26 de outubro, registrou ainda a apreensão de armas, munições e ouro.
Considerando apenas as operações de junho e outubro, 35 escavadeiras hidráulicas foram inutilizadas no território Kayapó em 2026.
Mesmo após sucessivas operações e a inutilização de dezenas de máquinas, a exploração clandestina continua sendo encontrada no território Kayapó. O caso mais recente acrescentou uma preocupação às investigações: as condições de trabalho de pessoas envolvidas na extração ilegal de ouro.