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Calibre .40 é inadequado para policiais, afirma especialista. Alexandre Guima cita retorno do FBI à pistola 9 mm

Robson Augusto
Por Robson Augusto Atualizado em 08/11/2026 às 11:45·publicado em 08/11/2026
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Calibre .40 é inadequado para policiais, afirma especialista. Alexandre Guima cita retorno do FBI à pistola 9 mm
Munição 9mm e quepe militar ao fundo Fonte: Revista Sociedade Militar

Criador do canal Portal das Armas, o policial militar Alexandre Guima afirma que o .40 S&W é menos adequado ao serviço e defende a adoção do 9 mm Luger.

Policiais brasileiros que carregam pistolas calibre .40 S&W trabalham com uma munição menos adequada ao serviço do que a 9 mm Luger. A avaliação é de Alexandre Guima, policial militar de São Paulo, instrutor de tiro e criador do canal Portal das Armas, em entrevista ao canal Segurança e Defesa TV.

O apresentador Idankas foi direto: “Qual é a melhor arma para o policiamento ostensivo?” Na resposta, Guima deslocou o foco do modelo para a munição. “Eu vejo não a arma, mas o calibre sendo mais adequado, o calibre 9 mm”, afirmou. Segundo ele, o .40 é um calibre “problemático”, caro e que provoca maior desgaste no armamento.

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A crítica não vale para todas as corporações, já que várias polícias brasileiras abandonaram o .40 nos últimos anos. Mas o calibre continua em uso e ainda aparece em compras recentes de forças estaduais.

Alexandre Guima levou à PM de São Paulo a proposta de trocar o .40 pelo 9 mm

A posição está registrada em um artigo publicado em 2019 na Biblioteca Digital do Sistema Único de Segurança Pública, do Ministério da Justiça. Assinado por Alexandre Guimarães Mariano de Oliveira, o estudo tem 30 páginas e foi dirigido ao Comando da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

O texto propõe atualizar o Manual 19-PM e rever o conceito de incapacitação imediata, conhecido como “poder de parada” ou stopping power, aplicado a armas curtas e submetralhadoras.

Idankas também questionou a independência da posição: “Você não está sendo patrocinado por alguém?” A resposta veio sem rodeios: “Não, de forma alguma.” Guima então foi ao ponto central da tese: para ele, não há diferença de lesão entre o 9 mm e o .40 S&W. “Poder de parada é algo que não existe”, disse, lembrando que o termo ainda consta em manuais de polícia.

O estudo sustenta o argumento em autores de balística terminal, entre eles o patologista forense Vincent Di Maio, para quem a incapacitação depende da estrutura do corpo atingida, e não das características do projétil.

Tiroteio do FBI em Miami em 1986 deu origem ao calibre .40 S&W

Para explicar como as polícias chegaram ao .40, Guima voltou a 11 de abril de 1986. Naquele dia, oito agentes do FBI enfrentaram os assaltantes William Matix e Michael Platt em Miami-Dade, na Flórida. Dois agentes morreram e outros cinco ficaram feridos.

Atingidos várias vezes, os criminosos continuaram atirando. O calibre 9 mm entrou na mira da investigação interna e o FBI partiu para munições mais potentes. “A culpa é minha, eu ponho em quem eu quero”, ironizou o entrevistado ao descrever a reação da época.

A primeira resposta foi o 10 mm Auto, cujo recuo se mostrou difícil de administrar. Em 1990, Smith & Wesson e Winchester encurtaram o estojo do 10 mm e criaram o .40 S&W, que o FBI adotou e que acabou seguido por forças policiais de outros países.

FBI abandonou o .40 S&W em 2014 e voltou ao calibre 9 mm Luger

O movimento se inverteu em maio de 2014, quando a Divisão de Treinamento do FBI, em Quantico, divulgou a justificativa para retornar ao 9 mm. O documento informa que a maioria dos atiradores da agência era mais rápida e mais precisa com o 9 mm do que com o .40 S&W em armas de porte semelhante.

O FBI também registrou que projéteis selecionados de 9 mm superavam, em condições idênticas de teste, a maior parte das munições premium .40 S&W e .45 Auto avaliadas. A evolução dos projéteis, portanto, mudou uma comparação feita décadas antes.

Guima atribui parte dessa virada aos estudos de balística terminal associados a Di Maio e ao coronel Martin Fackler, cirurgião militar americano morto em maio de 2015 e referência no uso da gelatina balística a 10%.

Polícias militares do Brasil migraram para pistolas 9 mm, mas o .40 segue nas compras

No Brasil, a troca avançou em vários estados. A Polícia Militar de Santa Catarina recebeu 11.250 pistolas Beretta 9 mm para substituir as Taurus .40, e a de Mato Grosso do Sul adquiriu 6.250 pistolas do mesmo calibre. Guima citou ainda a Polícia Civil de São Paulo, entre outras forças.

A Polícia Militar do Distrito Federal registrou em portaria argumentos muito próximos aos do entrevistado. Segundo a corporação, o 9 mm mantém a eficiência da balística terminal, oferece maior capacidade de carregador, menor recuo e menor desgaste da arma, com munição até 40% mais barata.

A migração, porém, não é unânime. Em 2018, a PM de São Paulo escolheu a Glock G22, calibre .40, em um contrato de 5 mil pistolas para unidades como Rota, Choque, COE e GATE. Em agosto de 2025, a PM do Espírito Santo recebeu 2.025 pistolas G22 .40 e apenas 300 G17 em 9 mm.

O debate técnico também segue aberto fora do Brasil. Defensores do .40 S&W apontam a maior energia na saída do cano e a capacidade de penetração em barreiras, enquanto a norma técnica da Senasp aprovada em 2020 para pistolas policiais contempla os dois calibres.

Treinamento de policiais pesa na escolha entre calibre .40 e 9 mm

O argumento de Guima tem um componente prático: o recuo menor favorece quem treina pouco. No mesmo trecho, ele relacionou a escolha do calibre à experiência do atirador e afirmou que a grande maioria dos policiais dispara pouco.

“O policial aqui atira pouco”, declarou, citando a referência de 50 tiros por ano e comparando esse volume ao de atiradores esportivos. O apresentador contestou a generalização, e Guima fez a distinção: a crítica trata da quantidade de treino, não da experiência de combate dos policiais, que considerou superior à dos americanos.

O próprio FBI usou o tema dos erros de disparo em sua justificativa, ao apontar que policiais erram de 70% a 80% dos tiros em confrontos. Nesse cenário, velocidade e precisão entram na conta tanto quanto o desempenho da munição no alvo.

Troca de calibre nas polícias esbarra no estoque de pistolas .40

Mudar o padrão significa substituir armas, carregadores e estoques de munição, o que torna a decisão também orçamentária. A dificuldade apareceu na própria entrevista, quando Idankas quis saber o que seria feito com todas as pistolas .40 já compradas.

Guima não apresentou um plano de transição e manteve a recomendação: para a atividade policial, 9 mm. Quem define o caminho são os comandos de cada corporação, e até aqui a resposta brasileira continua dividida entre os dois calibres.

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