Policiais que passaram décadas enfrentando criminosos poderão encerrar a carreira levando consigo uma arma de fogo do Estado, sem precisar comprá-la. A possibilidade ganhou força no Ceará, onde a Assembleia Legislativa aprovou, na terça-feira (3 de novembro), um projeto que autoriza a doação de armamento institucional a policiais aposentados e militares estaduais da reserva remunerada, exclusivamente para defesa pessoal.
A proposta foi encaminhada pelo governador Elmano de Freitas (PT) e aprovada pelos deputados no mesmo dia em que começou a tramitar. O texto ainda depende de sanção para se tornar lei.
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O benefício contempla integrantes da Polícia Militar, Corpo de Bombeiros Militar, Polícia Civil, Polícia Penal e Perícia Forense. Militares da reserva do Exército, Marinha e Aeronáutica não estão incluídos.
Policiais poderão ficar com armas do Estado após aposentadoria, mas terão de devolvê-las depois da morte
O Projeto de Lei 96/2026 estabelece que a transferência ocorrerá gratuitamente, mediante solicitação do interessado e autorização da instituição de origem.
Na prática, um policial poderá continuar com uma arma institucional para sua proteção pessoal mesmo depois de deixar o serviço ativo. Entretanto, a concessão não será automática.
Cada corporação deverá verificar o cumprimento das exigências legais de registro e porte, além das condições físicas, psicológicas e técnicas necessárias para utilizar o equipamento com segurança.
O beneficiário assumirá os gastos com munições, conservação, manutenção e reparos. Também ficará proibido de vender, emprestar ou utilizar a arma em atividades profissionais remuneradas.
Outra condição chama atenção: quando o policial ou militar falecer, o armamento deverá retornar ao patrimônio estadual. Os herdeiros não poderão incorporá-lo definitivamente aos bens da família.
Segundo o Governo do Ceará, a proposta busca garantir proteção aos profissionais que dedicaram suas carreiras à segurança pública.
Ceará já entregou mais de 5 mil armas a agentes em atividade, incluindo pistolas Glock 9 mm e .40

A aprovação ocorre após sucessivos investimentos na renovação do armamento das forças de segurança estaduais.
Desde 2023, o governo cearense distribuiu mais de 5 mil armas de fogo, destinadas a policiais e outros agentes em atividade.
Somente em fevereiro de 2026, a Polícia Civil recebeu 720 pistolas Glock calibre 9 mm, sendo 500 unidades do modelo G19 e outras 220 do G26. O investimento anunciado foi de R$ 1,3 milhão.
Outras entregas incluíram pistolas Glock calibre .40, utilizadas pelas corporações estaduais.
Essas armas foram destinadas ao serviço ativo. Caso o projeto seja sancionado, os profissionais poderão solicitar a transferência de armamento institucional quando passarem à aposentadoria ou à reserva remunerada, desde que cumpram as exigências legais e obtenham autorização.
O Estado ainda não informou quais modelos estarão disponíveis para doação. Portanto, não está confirmado que as Glock atualmente utilizadas pelos policiais serão necessariamente transferidas aos aposentados.
A renovação do arsenal integra um conjunto maior de investimentos estaduais, que também inclui a entrega de mais de 2 mil viaturas e 5 mil armas às forças de segurança desde 2023.
Assassinato de policial aposentado em Fortaleza mostra que riscos podem continuar após a carreira

A preocupação com a segurança dos agentes não desaparece necessariamente quando deixam suas corporações.
Em outubro de 2025, um policial civil aposentado foi assassinado em Fortaleza. O crime desencadeou investigações que continuaram durante o ano seguinte.
Em 28 de outubro de 2026, poucos dias antes da aprovação do projeto, a Polícia Civil realizou uma operação contra suspeitos de integrar uma organização criminosa. A investigação também estava relacionada à morte daquele policial aposentado.
Não há confirmação de que o homicídio tenha motivado a iniciativa do governador. Entretanto, o episódio evidencia que a aposentadoria não elimina necessariamente os riscos enfrentados por profissionais que atuaram no combate à criminalidade.
É justamente a proteção após o fim da carreira que o governo estadual apresenta como uma das justificativas para permitir a transferência das armas institucionais.
STF já derrubou lei sobre transferência de armas a policiais; Ceará adota doação condicionada
A proposta também encontra um antecedente importante no Supremo Tribunal Federal (STF).
Em 2023, a Corte declarou inconstitucional uma lei de Alagoas que permitia a venda direta de armas estaduais a profissionais de segurança ativos e inativos.
A decisão considerou, entre outros fundamentos, que a legislação estadual invadia competências federais relacionadas ao material bélico.
O projeto cearense apresenta diferenças: prevê doação condicionada, uso exclusivo para defesa pessoal e devolução do equipamento após o falecimento.
Mesmo assim, a transferência deverá respeitar as exigências federais sobre armas de fogo.
O assunto também chegou ao Congresso Nacional, onde tramita uma proposta para permitir a venda e a doação de armas institucionais a profissionais de segurança pública.
Durante a votação no Ceará, os deputados ainda rejeitaram uma emenda que pretendia acrescentar restrições para determinados agentes sujeitos a medidas protetivas ou que respondessem a processos por crimes dolosos com violência ou grave ameaça.
Com a aprovação do projeto, policiais aposentados e militares estaduais da reserva ficam mais próximos de poder conservar gratuitamente armas do Estado para sua defesa pessoal. A implementação ainda dependerá da sanção e dos procedimentos administrativos de cada instituição.
E você, o que pensa dessa medida? Policiais aposentados e militares da reserva deveriam poder conservar suas armas de serviço para defesa pessoal, ou devolvê-las ao Estado assim que deixarem a ativa?