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Comando Sul dos EUA incluiu o Brasil em operações militares para influenciar públicos estrangeiros por redes sociais e mensagens, e Exército brasileiro trocou técnicas com americanos

Documento do Comando Sul dos EUA incluiu o Brasil em operações militares de influência sobre públicos estrangeiros. A página cita redes sociais e mensagens, e registros revelam intercâmbio com o Exército Brasileiro.

Noel Budeguer
Por Noel Budeguer 03/11/2026 às 19:49
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Comando Sul dos EUA incluiu o Brasil em operações militares para influenciar públicos estrangeiros por redes sociais e mensagens, e Exército brasileiro trocou técnicas com americanos

O Brasil apareceu em uma lista oficial do Comando Sul dos Estados Unidos que descreve operações militares destinadas a influenciar atitudes e comportamentos de públicos estrangeiros, utilizando recursos como redes sociais, televisão, rádio, mensagens de texto e páginas na internet. A informação consta de uma página institucional americana atualizada em 17 de fevereiro de 2021.

O detalhe mais controverso é que o Brasil não aparece apenas nessa relação. Documentos militares também comprovam que integrantes do Exército Brasileiro participaram de um intercâmbio com especialistas americanos em operações psicológicas, uma atividade que envolve técnicas de comunicação e influência sobre grupos selecionados.

Brasil foi citado entre 13 países em operações militares de informação dos EUA

Na página denominada Military Information Support Operations, o Comando Sul afirma realizar operações persistentes de apoio informativo militar em sua área de responsabilidade, mencionando expressamente o Brasil.

A lista contém 13 países, incluindo Colômbia, Venezuela, Guiana, Peru e outras nações da América Latina e do Caribe. O documento também informa que essas atividades são coordenadas com agências americanas e forças de segurança de países parceiros.

Segundo a instituição, o objetivo declarado é fortalecer parcerias, enfrentar ameaças e influenciar públicos estrangeiros de acordo com atitudes e comportamentos desejados. A descrição é feita abertamente pelo próprio comando militar americano.

Redes sociais, televisão e mensagens aparecem entre os instrumentos utilizados

O documento apresenta uma característica especialmente sensível: as operações não dependem necessariamente de tropas, armamentos ou movimentações militares convencionais.

Entre os instrumentos mencionados estão televisão terrestre e por satélite, rádio, materiais impressos, mensagens de texto, páginas na internet e redes sociais. O Comando Sul também reconhece a realização de operações MISO baseadas na internet.

Isso significa que a influência informativa é tratada como uma ferramenta militar capaz de alcançar públicos fora do campo de batalha tradicional.

Entretanto, embora o Brasil apareça nominalmente entre os países abrangidos, a publicação não esclarece quais desses meios foram empregados especificamente no território brasileiro, quais mensagens foram divulgadas ou quem seriam seus destinatários.

Doutrina americana prevê influência sobre emoções, opiniões e comportamentos

A expressão MISO designa as chamadas Operações Militares de Apoio à Informação, frequentemente associadas ao campo das operações psicológicas.

Uma publicação doutrinária do Departamento de Defesa americano, datada de 2014, descreve essas atividades como operações planejadas para transmitir informações selecionadas e influenciar emoções, motivações, raciocínio e comportamentos de públicos estrangeiros.

A doutrina prevê que os destinatários possam incluir grupos aliados, neutros ou adversários. Portanto, essas operações não se limitam a situações de guerra contra um inimigo declarado.

Para o Brasil, a questão central é a presença do país na descrição de uma estrutura militar estrangeira que reconhece a influência sobre públicos selecionados como parte de seus objetivos estratégicos.

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Exército Brasileiro recebeu militares americanos para intercâmbio de operações psicológicas

Outro registro oficial acrescenta uma dimensão concreta à relação entre os dois países.

Entre 15 e 19 de abril de 2019, militares do Comando de Operações Especiais Sul dos Estados Unidos participaram de um intercâmbio com integrantes do 1º Batalhão de Operações Psicológicas do Exército Brasileiro, em Goiânia.

Segundo a reportagem publicada pelo próprio Comando Sul, o encontro envolveu apresentações, compartilhamento de experiências anteriores, discussão de procedimentos e troca de conhecimentos sobre operações psicológicas.

O então comandante brasileiro da unidade, tenente-coronel Sergio Murilo Pereira da Silva, destacou o respeito pela experiência americana e o interesse em aprimorar as capacidades brasileiras por meio do intercâmbio.

A publicação também informou que as equipes discutiam possibilidades de estabelecer uma parceria mais permanente. O registro, porém, não confirma se essa aproximação foi posteriormente formalizada.

Cooperação militar não esclarece quem poderia ser alvo das operações

A existência de treinamento conjunto não demonstra que militares brasileiros tenham participado de campanhas americanas de influência destinadas à população do Brasil.

São fatos distintos: um documento descreve operações conduzidas pelo Comando Sul em países que incluem o Brasil; outro comprova cooperação técnica entre unidades militares dos dois países.

Ainda assim, a combinação dos registros coloca em evidência uma discussão relevante sobre transparência, soberania e limites da cooperação militar estrangeira.

Afinal, quais públicos foram selecionados nas atividades que mencionavam o Brasil? Houve campanhas específicas? Quais instituições brasileiras participaram de eventuais ações coordenadas?

Os documentos públicos consultados não apresentam respostas para essas questões.

Documento é de 2021 e não comprova operações em andamento

Existe uma ressalva fundamental sobre a cronologia. A página do Comando Sul foi atualizada em fevereiro de 2021 e afirmava que as operações continuariam por pelo menos mais 12 meses.

Essa declaração não permite confirmar que as mesmas atividades permaneçam em execução no Brasil em novembro de 2026. Tampouco constitui prova de interferência eleitoral, manipulação de eleições ou campanhas clandestinas contra brasileiros.

O que está efetivamente documentado é que os Estados Unidos incluíram o Brasil na descrição oficial de suas operações militares de influência informativa e que militares brasileiros compartilharam conhecimentos sobre operações psicológicas com especialistas americanos.

A controvérsia está justamente nessa combinação: enquanto a cooperação entre os Exércitos foi apresentada como uma iniciativa para aperfeiçoar capacidades militares, o próprio Comando Sul reconheceu que influenciar públicos estrangeiros fazia parte de sua atuação regional.

O alcance concreto dessas atividades no Brasil, os destinatários das mensagens e os resultados obtidos permanecem sem esclarecimento nos registros analisados.

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