O efetivo não foi divulgado e o comandante só disse que “não está na casa das centenas”; no Brasil, os satélites militares são operados de um centro em Brasília.
O almirante Frank “Mitch” Bradley, comandante do Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos (SOCOM), passou a bandeira ao coronel Peter “Charlie” Norsky nesta segunda-feira, 2 de novembro, na Base Aérea MacDill, em Tampa, na Flórida. Com o gesto, a Força Espacial ativou o SPACEFOR-SOC, seu comando de operações especiais, que vai pôr militares em pequenas equipes ao lado de tropas como os SEALs da Marinha e os Boinas Verdes do Exército.
Quantos militares o novo comando terá, ninguém disse. Norsky só afirmou que o efetivo “certamente não está na casa das centenas”. No Brasil, a Defesa controla hoje três satélites a partir do Centro de Operações Espaciais da FAB, que tem a sede em Brasília.
O primeiro componente novo do SOCOM desde 2006
Segundo o comunicado do SOCOM publicado no DVIDS, o sistema de imprensa do Pentágono, o SPACEFOR-SOC passa a ser o componente da Força Espacial dentro do comando, ao lado dos de Exército, Marinha, Força Aérea e Corpo de Fuzileiros Navais. É o primeiro componente novo do SOCOM desde 2006, e o comando já existia no papel desde 7 de outubro, quando entrou em vigor administrativamente.
“Para a comunidade de operações especiais, esta ativação cria uma forma duradoura e responsável de integrar o poder espacial às operações especiais”, disse Bradley na cerimônia, segundo o comunicado. O general Douglas Schiess, chefe de operações espaciais da Força Espacial, afirmou que os operadores especiais entram em combate confiantes de que a Força Espacial garante “o terreno mais alto de todos”.
Proteger o GPS e as comunicações da tropa
Em entrevista por telefone na sexta-feira, 30 de outubro, à revista Task & Purpose e a outro veículo, Norsky listou as funções dos chamados guardiões, como são conhecidos os militares da Força Espacial. Eles vão monitorar as comunicações por satélite, proteger o GPS e outros sistemas de navegação contra interferência inimiga e garantir que a tropa receba alerta de míssil a tempo.
O coronel descreveu a cena que tem em mente. “Imagine uma equipe operando num ambiente em que o adversário tenta cortar suas comunicações, interferir na sua navegação ou coletar dados sobre as forças amigas”, disse ele à Task & Purpose.
Equipes pequenas, ao lado de SEALs e Boinas Verdes
Pelo comunicado do SOCOM, o comando vai enviar equipes pequenas e modulares, que juntam especialistas em espaço, ciber e inteligência. Elas foram batizadas de Space Special Warfare Teams e ficam designadas a formações de operações especiais em qualquer parte do mundo.
Norsky disse à Task & Purpose que procura guardiões que sejam bons no ofício e que consigam “manobrar com seus colegas de operações especiais”. Para isso, o preparo físico conta muito, porque eles vão trabalhar “ombro a ombro” com essas tropas. O coronel deixou claro que os guardiões não vão substituir os operadores de Exército, Marinha e Fuzileiros.
Ele não quis dizer se os guardiões vão a campo com unidades táticas como os Boinas Verdes ou se ficam em batalhões de comando e controle, longe da linha de frente. “Nossos guardiões serão treinados para operar onde e quando forem necessários”, respondeu.
Treinamento ainda sem formato definido
Como esses militares serão formados ainda não está definido, segundo a Task & Purpose. A ideia é partir dos processos de avaliação e seleção que Exército e Força Aérea já usam para escolher seus operadores especiais.
Norsky falou em treinamento “expedicionário, tático e de pequenas equipes” antes de o guardião chegar às unidades de elite. O efetivo será formado em maioria por militares, com uma parcela menor de civis e alguns terceirizados, nas áreas de operações espaciais, inteligência, ciber e aquisição. “Vamos crescer para atender a todas as missões do SOCOM”, disse.
Um comando que já tinha sido anunciado ao Congresso
Em 2025, autoridades americanas disseram ao Congresso que o SOCOM já tinha um componente espacial, mas depois esclareceram à Task & Purpose que ele não estava montado nem tinha pessoal. A ativação de 2 de novembro põe o comando para funcionar com sede própria em MacDill, a mesma base que abriga o SOCOM.
O novo comando se soma às unidades da Força Espacial ligadas aos grandes comandos regionais do Pentágono no Oriente Médio, na Europa, na Ásia e na África, informa a revista. No início deste ano, segundo a Task & Purpose, a Força Espacial ativou também a unidade ligada ao Comando Norte, que cobre os Estados Unidos, o Canadá e o México.
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No Brasil, um centro em Brasília controla os satélites
Por aqui, quem opera os satélites militares é o Centro de Operações Espaciais, o COPE, que fica dentro do Comando de Operações Aeroespaciais (COMAE) da FAB. É o que diz o Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE), aprovado pela Portaria GM-MD nº 4.566, de 8 de outubro de 2025, publicada no Diário Oficial da União em 14 de outubro daquele ano.
Segundo o PESE, o COPE funciona desde 2017, teve as instalações inauguradas em 2020 e tem uma unidade secundária, o COPE-S, com as mesmas capacidades em outro local, como medida de segurança. A sede principal fica em Brasília, numa área de 15 mil metros quadrados da Força Aérea, segundo a Agência Espacial Brasileira. A unidade secundária fica no Rio de Janeiro e foi inaugurada em 19 de novembro de 2018, informou a agência na época.
SGDC-1 e Carcará 3 e 4, os satélites que a Defesa controla
O PESE lista três satélites sob controle da Defesa: o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas, o SGDC-1, e os satélites de radar Carcará 3 e 4. O SGDC-1 está em operação desde 2017 e fornece comunicação e internet para civis e militares, diz o documento.
Os Carcará 3 e 4 foram lançados em 2024 e fazem imagens por radar de abertura sintética, que enxerga através das nuvens. Por operarem em órbita baixa, têm vida útil de cerca de três anos, segundo o programa.
O programa trata a proteção desses ativos como vital. “Um ataque físico ou cibernético a esses sistemas pode comprometer a capacidade operacional das FA”, diz o texto, que cita o GPS entre as tecnologias de navegação e defende fontes complementares para o caso de uma delas falhar.
Banda X a 97% num exercício na Amazônia
O chefe do COPE, brigadeiro do ar Sandro Bernardon, disse em 30 de setembro que a capacidade atual de comunicação por satélite do país “é insuficiente para defesa”. Segundo a Teletime, que cobriu a fala num congresso de satélites no Rio de Janeiro, a banda X do SGDC-1 chegou a 97% de uso durante a Operação Atlas, na Amazônia, em 2025.
“Se isso aconteceu na operação de um exercício, quem dirá, então, em uma situação de conflito real?”, perguntou o brigadeiro. Ele defendeu um contrato para o SGDC-2 até o ano que vem, e o PESE informa que o Brasil já reservou nos órgãos internacionais a posição para esse segundo satélite.
Para levar a comunicação por satélite até a tropa em campo, o PESE prevê o COMLEO, um sistema de comunicações táticas em órbita baixa para forças militares em locais remotos. O projeto está em revisão de requisitos, segundo o documento.
Uma bandeira passada em Tampa e um curso de três semanas em Brasília
Enquanto o SOCOM monta equipes espaciais para andar com SEALs e Boinas Verdes, a Defesa brasileira tem, para quem trabalha com espaço, um curso de três semanas criado pelo próprio COPE. O Curso de Ambientação em Sistemas Espaciais ensina noções básicas da área e é oferecido também a militares estrangeiros, segundo o PESE.
Em Tampa, Norsky recebeu a bandeira com a promessa de levar o poder dos guardiões “em escala” às forças especiais. Quantos serão, o comando ainda não divulgou.