Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

Força Espacial dos EUA ativa comando de operações especiais e põe militares em equipes junto a tropas como SEALs e Boinas Verdes para proteger o GPS de interferência, enquanto a FAB opera satélites de Brasília

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 03/11/2026 às 10:43
Compartilhar
Força Espacial dos EUA ativa comando de operações especiais e põe militares em equipes junto a tropas como SEALs e Boinas Verdes para proteger o GPS de interferência, enquanto a FAB opera satélites de Brasília
O almirante Frank Bradley, comandante do SOCOM, passa a bandeira ao coronel Peter Norsky na ativação do SPACEFOR-SOC, em 2 de novembro de 2026, na Base Aérea MacDill. Foto: Tech. Sgt. Marleah Miller/U.S. Air Force.

O efetivo não foi divulgado e o comandante só disse que “não está na casa das centenas”; no Brasil, os satélites militares são operados de um centro em Brasília.

O almirante Frank “Mitch” Bradley, comandante do Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos (SOCOM), passou a bandeira ao coronel Peter “Charlie” Norsky nesta segunda-feira, 2 de novembro, na Base Aérea MacDill, em Tampa, na Flórida. Com o gesto, a Força Espacial ativou o SPACEFOR-SOC, seu comando de operações especiais, que vai pôr militares em pequenas equipes ao lado de tropas como os SEALs da Marinha e os Boinas Verdes do Exército.

Quantos militares o novo comando terá, ninguém disse. Norsky só afirmou que o efetivo “certamente não está na casa das centenas”. No Brasil, a Defesa controla hoje três satélites a partir do Centro de Operações Espaciais da FAB, que tem a sede em Brasília.

O primeiro componente novo do SOCOM desde 2006

Segundo o comunicado do SOCOM publicado no DVIDS, o sistema de imprensa do Pentágono, o SPACEFOR-SOC passa a ser o componente da Força Espacial dentro do comando, ao lado dos de Exército, Marinha, Força Aérea e Corpo de Fuzileiros Navais. É o primeiro componente novo do SOCOM desde 2006, e o comando já existia no papel desde 7 de outubro, quando entrou em vigor administrativamente.

“Para a comunidade de operações especiais, esta ativação cria uma forma duradoura e responsável de integrar o poder espacial às operações especiais”, disse Bradley na cerimônia, segundo o comunicado. O general Douglas Schiess, chefe de operações espaciais da Força Espacial, afirmou que os operadores especiais entram em combate confiantes de que a Força Espacial garante “o terreno mais alto de todos”.

Proteger o GPS e as comunicações da tropa

Em entrevista por telefone na sexta-feira, 30 de outubro, à revista Task & Purpose e a outro veículo, Norsky listou as funções dos chamados guardiões, como são conhecidos os militares da Força Espacial. Eles vão monitorar as comunicações por satélite, proteger o GPS e outros sistemas de navegação contra interferência inimiga e garantir que a tropa receba alerta de míssil a tempo.

O coronel descreveu a cena que tem em mente. “Imagine uma equipe operando num ambiente em que o adversário tenta cortar suas comunicações, interferir na sua navegação ou coletar dados sobre as forças amigas”, disse ele à Task & Purpose.

Equipes pequenas, ao lado de SEALs e Boinas Verdes

Pelo comunicado do SOCOM, o comando vai enviar equipes pequenas e modulares, que juntam especialistas em espaço, ciber e inteligência. Elas foram batizadas de Space Special Warfare Teams e ficam designadas a formações de operações especiais em qualquer parte do mundo.

Norsky disse à Task & Purpose que procura guardiões que sejam bons no ofício e que consigam “manobrar com seus colegas de operações especiais”. Para isso, o preparo físico conta muito, porque eles vão trabalhar “ombro a ombro” com essas tropas. O coronel deixou claro que os guardiões não vão substituir os operadores de Exército, Marinha e Fuzileiros.

Ele não quis dizer se os guardiões vão a campo com unidades táticas como os Boinas Verdes ou se ficam em batalhões de comando e controle, longe da linha de frente. “Nossos guardiões serão treinados para operar onde e quando forem necessários”, respondeu.

Treinamento ainda sem formato definido

Como esses militares serão formados ainda não está definido, segundo a Task & Purpose. A ideia é partir dos processos de avaliação e seleção que Exército e Força Aérea já usam para escolher seus operadores especiais.

Norsky falou em treinamento “expedicionário, tático e de pequenas equipes” antes de o guardião chegar às unidades de elite. O efetivo será formado em maioria por militares, com uma parcela menor de civis e alguns terceirizados, nas áreas de operações espaciais, inteligência, ciber e aquisição. “Vamos crescer para atender a todas as missões do SOCOM”, disse.

Um comando que já tinha sido anunciado ao Congresso

Em 2025, autoridades americanas disseram ao Congresso que o SOCOM já tinha um componente espacial, mas depois esclareceram à Task & Purpose que ele não estava montado nem tinha pessoal. A ativação de 2 de novembro põe o comando para funcionar com sede própria em MacDill, a mesma base que abriga o SOCOM.

O novo comando se soma às unidades da Força Espacial ligadas aos grandes comandos regionais do Pentágono no Oriente Médio, na Europa, na Ásia e na África, informa a revista. No início deste ano, segundo a Task & Purpose, a Força Espacial ativou também a unidade ligada ao Comando Norte, que cobre os Estados Unidos, o Canadá e o México.

Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora

Entrar no grupo agora

No Brasil, um centro em Brasília controla os satélites

Por aqui, quem opera os satélites militares é o Centro de Operações Espaciais, o COPE, que fica dentro do Comando de Operações Aeroespaciais (COMAE) da FAB. É o que diz o Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE), aprovado pela Portaria GM-MD nº 4.566, de 8 de outubro de 2025, publicada no Diário Oficial da União em 14 de outubro daquele ano.

Segundo o PESE, o COPE funciona desde 2017, teve as instalações inauguradas em 2020 e tem uma unidade secundária, o COPE-S, com as mesmas capacidades em outro local, como medida de segurança. A sede principal fica em Brasília, numa área de 15 mil metros quadrados da Força Aérea, segundo a Agência Espacial Brasileira. A unidade secundária fica no Rio de Janeiro e foi inaugurada em 19 de novembro de 2018, informou a agência na época.

SGDC-1 e Carcará 3 e 4, os satélites que a Defesa controla

O PESE lista três satélites sob controle da Defesa: o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas, o SGDC-1, e os satélites de radar Carcará 3 e 4. O SGDC-1 está em operação desde 2017 e fornece comunicação e internet para civis e militares, diz o documento.

Os Carcará 3 e 4 foram lançados em 2024 e fazem imagens por radar de abertura sintética, que enxerga através das nuvens. Por operarem em órbita baixa, têm vida útil de cerca de três anos, segundo o programa.

O programa trata a proteção desses ativos como vital. “Um ataque físico ou cibernético a esses sistemas pode comprometer a capacidade operacional das FA”, diz o texto, que cita o GPS entre as tecnologias de navegação e defende fontes complementares para o caso de uma delas falhar.

Banda X a 97% num exercício na Amazônia

O chefe do COPE, brigadeiro do ar Sandro Bernardon, disse em 30 de setembro que a capacidade atual de comunicação por satélite do país “é insuficiente para defesa”. Segundo a Teletime, que cobriu a fala num congresso de satélites no Rio de Janeiro, a banda X do SGDC-1 chegou a 97% de uso durante a Operação Atlas, na Amazônia, em 2025.

“Se isso aconteceu na operação de um exercício, quem dirá, então, em uma situação de conflito real?”, perguntou o brigadeiro. Ele defendeu um contrato para o SGDC-2 até o ano que vem, e o PESE informa que o Brasil já reservou nos órgãos internacionais a posição para esse segundo satélite.

Para levar a comunicação por satélite até a tropa em campo, o PESE prevê o COMLEO, um sistema de comunicações táticas em órbita baixa para forças militares em locais remotos. O projeto está em revisão de requisitos, segundo o documento.

Uma bandeira passada em Tampa e um curso de três semanas em Brasília

Enquanto o SOCOM monta equipes espaciais para andar com SEALs e Boinas Verdes, a Defesa brasileira tem, para quem trabalha com espaço, um curso de três semanas criado pelo próprio COPE. O Curso de Ambientação em Sistemas Espaciais ensina noções básicas da área e é oferecido também a militares estrangeiros, segundo o PESE.

Em Tampa, Norsky recebeu a bandeira com a promessa de levar o poder dos guardiões “em escala” às forças especiais. Quantos serão, o comando ainda não divulgou.

guest
0 Comentários